Para nunca esquecer

9 01 2022

Fiz minha primeira tatuagem colorida essa semana: eternizei A Roda da Fortuna, décima carta do Tarot, no meu antebraço.

(Foto: Alexandre Barba – tatuador – BH/MG)

Tudo começou em 1978, quando meu pai comprou uma edição de “Cem Anos de Solidão” no aeroporto, em São Paulo. Eu nasci dois anos depois e, mesmo antes de saber ler, as cartas de Tarot na capa do livro (justamente A Roda da Fortuna e O Diabo) me fascinavam. As ilustrações internas também me hipnotizavam, ao invocar todo o misticismo da história da família Buendía gerações afora.

Já dominando a leitura, o livro me abriu as portas para Gabriel García Márquez, de quem li muita coisa – mas nenhuma como aquele primeiro livro. Minha ligação com ele é uma mistura do meu amor pelo meu pai e nossos gostos em comum, meu fascínio pelo misticismo, minha relação com a literatura e meu desejo de deter todo o conhecimento do mundo, de ler seus segredos para nunca ser pega de surpresa.

(Foto: Arquivo pessoal)

Só que isso é impossível – meu desejo por controle é impossível. A Roda da Fortuna não foi escolhida à toa: ela está no meu braço para me lembrar que controlar a vida é uma ilusão. A vida é cíclica e estamos o tempo todo à mercê de suas mudanças – especialmente as que você provoca pelas suas ações ou pela falta delas. O que nunca muda na vida é que tudo muda, não interessa o que você acha.

Aprendo todos os dias sobre abrir mão do controle e observar mais como tirar proveito dos caminhos que a vida vai desvelando para mim. As coisas podem ser mais leves se você não tentar desvendá-las antes da hora. Não e fácil para uma virginiana que nunca gostou de surpresas, porém a carta eternizada no meu braço vem me lembrar de que não tenho como controlar a roda da vida, mas posso agir com foco no que desejo colher lá na frente.





O amor faz o que quer; você que se vire

29 09 2021

Quisera a gente que o amor se explicasse por teoremas, que fosse como a matemática.

O que faz com que a gente se apaixone por esta ou aquela pessoa?

Porque a “Quadrilha” de Drummond ainda é mais comum do que o encontro com a reciprocidade?

Porque a gente não consegue se apaixonar por quem a gente deveria, racionalmente, se apaixonar? Gostar só de quem gosta da gente? Gostar de quem reúne as condições ideais para o sentimento nascer, crescer e seguir saudável e longevo?

E porque não conseguimos nos desapaixonar, mesmo quando cada pedra da rua sabe que aquela história não tem condições de existir?

A ciência pode tentar, todas as teses de doutorado do mundo podem esmiuçar isso, podemos gastar horas e horas de TED da vida debatendo, que a conclusão real é que o amor faz o que bem entende – e você que se vire.

Os psicólogos diriam que buscamos no outro o que nos falta e, quando o outro vai embora, é essa parte que a gente vê saindo das nossas vidas, por isso dói. Os amigos possivelmente diriam que é carência, e dói porque a perspectiva de estar sozinho é dura. A mãe da gente diria que “é assim mesmo, e isso também vai passar”, mas dói porque a gente não queria que passasse, a gente queria que nunca tivesse acabado – as mães nunca erram, mas as profecias delas costumam levar tempo para acontecer.

Se pelo menos a gente descobrisse o ponto “x” das paixões! O ponto exato em que a pessoa vira uma única pessoa para você! Era só chegar lá e apagar, desfazer, desdizer, desmistificar.

Foi um sorriso? Foi o tom da voz? Foi o corpo? Foi a cor dos olhos, do cabelo, o corte da barba? Foi o jeito que ela fala dos planos dela? Foi a risada? Foi a forma como ele passa a mão na nuca? Foi o jeito com que ela abotoa a presilha do sapato?

A gente não sabe nada e fica preso nesses pedacinhos de cenas que podem ser extremamente comuns, mas passam a se referir apenas àquela pessoa.

Teve uma vez em que eu me apaixonei por um cara. A gente não tinha nada a ver em praticamente nenhum ponto – quem visse os dois juntos iria achar que era uma miragem, porque não tinha como conectar um com o outro.

Mas o diabo mora nos detalhes, né.

A forma decidida como ele andava era magnética para mim. O jeito com que ele abria os braços e falava “uai, fulano! ” com uma risada era só dele. O corte de cabelo tão comum ficava bom só nele.

Um dia a gente estava batendo papo e ele recostou no sofá e colocou a mão atrás da nuca, fechou os olhos, fez uma pausa, suspirou, e continuou conversando com um sorrisinho de canto na boca. O diabo me deu uma grande cutucada aquele dia, porque eu nunca esqueci essa cena tão prosaica.

Eu não sei mais do que a gente estava falando, não sei que dia era, não sei nem porque ele estava lá em casa – mas, naquele exato momento, aquela combinação de movimentos virou uma pintura na minha memória. Eu sinto uma paz e uma ternura profundos ao lembrar desse pedacinho de tempo.

Eu tive que me desapaixonar por esse cara e foi uma das coisas mais difíceis que eu já tive que fazer na vida, uma das escolhas que mais me doeram.

O problema era exatamente esse: minha ‘eu razão’ dizia que era a decisão certa, e me apresentava argumentos irretocáveis para isso, mas a ‘eu sentimento’ queria desesperadamente reviver ele recostado no sofá de novo e ela também estava coberta de razão.

Devia ter como resetar o processo de gostar de alguém para a gente poder gostar diferente, gostar do jeito que dói menos no final, de um jeito que acaba rápido e sem muita coisa para arquivar depois. Ou simplesmente evitar o ponto “x” e nem começar a gostar.

Mas, ao mesmo tempo que a gente quer esquecer, a gente quer lembrar.

A gente quer, desesperadamente, se agarrar a cada memória e briga muito, até sem querer, para ela não sumir.





“Conhece-te a ti mesmo”

1 01 2021

Lembro exatamente onde eu estava em 1º de janeiro de 2020 e o que eu pedi para o ano.

Eu fazia musculação todos os dias, religiosamente, e domingo era o dia de correr. Com a academia fechada, eu fui para a rua e corri pela Avenida Brasil. Na volta, passando pela Praça Floriano Peixoto, resolvi gravar um story no qual eu falei que o que eu vibrava pra 2020 era um ano rodeada de pessoas “de boas”. Eu tinha acabado de sair de um 2019 extremamente desgastante e desafiador que tinha me esgotado em todos os sentidos, estava retomando o contato com quem eu era de verdade e com o que eu queria de verdade (a frase é clichê, mas foi exatamente assim). Estava muito aberta a tudo, me sentindo uma página em branco, em paz.

Expectativa / realidade

Acaba que a pandemia fincou seus pés no Brasil definitivamente em março e trancou todos nós em casa, mas meu pedido foi atendido, de certa forma. Com meu filho “quarentenando” em um lugar seguro, fiquei trancada no apartamento comigo mesma por oito meses – fiquei cercada de mim mesma para me (re)conhecer de verdade. Obrigada a olhar profundamente no espelho, nem tudo que eu vi era bonito, mas agora eu sei com quem estou lidando.

Sem nenhuma válvula de escape fora de casa e sem nada para fazer dentro dela a não ser trabalhar, testei todos os meus limites e deixei todos os meus sentimentos atingirem seus extremos. Eu queria ver como eu realmente reagiria a certas situações, queria ver se certas atitudes eram minhas mesmo ou só coisas que eu fazia para agradar, para caber em determinados espaços e padrões sociais.

“Espelho, espelho meu”

Tive oportunidade de desconstruir tudo, TUDO, que eu achava que tinha certeza, todos os dogmas que eu criei para mim mesma se foram. Eu, que falava coisas com o tom de quem profere uma sentença, desfiz tudo e exercitei muito o “não sei”, “não quero”, “não vou”, “prefiro não falar nada sobre isso”. Tive que encarar o fato de que eu sou falível, imperfeita e não sou referência em nada, tampouco unanimidade para ninguém. Aceitei que buscar a perfeição é angustiante e o que eu posso fazer é buscar o meu melhor – sobre isso sim, eu tenho algum controle.

Tive dias de acordar cedo e cheia de disposição, colocar minha roupa mais querida, fazer minhas refeições como um personagem de novela e cumprir todas as obrigações good vibes da quarentena: treinar em casa, cozinhar comidas saudáveis e bonitas, assistir lives e aprender on-line, além de ser uma funcionária modelo no home office – com tudo devidamente postado no Instagram; e tive dias de trabalhar da cama de pijama, não tomar banho, almoçar e jantar Pringles e cerveja e não responder ninguém simplesmente porque acordei mal. Era o que eu sentia e deixei isso fluir, queria explorar até onde eu me incomodava de verdade.

“Por que você não atendeu?” / “Porque eu não quis.”

Por outro lado, também percebi que o que nos separa do que a gente quer pode ser apenas um “pra que?” ou “por que não?”. Quero essa roupa e esse sapato, mas pra que, se nem tenho onde usar? E por que não, se eu quero e posso? Pessoas fizeram aniversário esse ano e eu não falei nada – algumas por esquecimento mesmo (sorry!), mas outras… pra que, se elas não têm nenhuma ligação comigo? Eu devia? Me vi em contato com pessoas nas quais eu tinha interesse e me expus para elas – e por que não? Gosto do meu cabelo curto, mas mantinha grande – pra que? Peguei a tesoura sem dó. Recebi convites que eu não queria aceitar – pra que, se toda vez que eu aceitava, me arrependia? Falei não. 

O “não”, aliás, é uma palavra que liberta. Estou até hoje aprendendo a falar, mas a ânsia de agradar e de ser eficiente que eu sempre tive me dificultava muito o processo. Pois, trancada em casa, sem ninguém para olhar feio, tomei mais e mais coragem para dizer que não ia, não faria, não queria, não concordava. Suei frio – mas a proposta era essa mesma, colocar a cara na vidraça. E eu vi que dizer “não” me trouxe mais respeito. Finalmente me senti segura para me impor e ver que, muitas vezes, era isso que faltava na minha relação com os outros. Também ouvi muito “não” e, no lugar de tentar justificar a negativa culpando o outro, tentei ver qual o motivo de eu me exasperar tanto – se eu sou livre para falar, o outro também é. Eu que entenda e aceite.

Fala, fala sim.

O “não” também é a palavra do desapego, outro exercício que eu fiz muito nesses meses sozinha em casa. Desapego com objetos, com pessoas, com sentimentos, com certezas, com convenções sociais. Ganhei essa roupa de um parente, mas nunca gostei dela e nunca usei – doei. Fulana se dizia muito amiga minha, mas não me procura nunca – ok, cabe a mim ver qual o lugar dessa pessoa na minha vida, então. Cicrano e eu ficamos, foi ótimo, tivemos uma conexão sensacional, mas ele nunca mais falou comigo – ok, fiquei chateada, mas não nos prometemos nada. Me sinto mal por não aplaudir ou opinar no assunto do momento – mas eu tinha mesmo que fazer isso? Porque estou preocupada, se meu interesse na questão é zero? Pra que, ou pra quem, eu deveria fazer isso?

O processo de me autoconhecer vem me levando a me autoconstruir, termo que o Alex Castro (*), escritor com quem aprendo muito, usa e eu concordo plenamente. Depois de ver quem eu sou, quero ser quem eu quero. Minha autoestima foi fortalecida nesse período e, mais do que nunca, me sinto em paz com meu corpo, meus defeitos e meus desejos. Entendi meu valor. Vejo onde preciso melhorar para chegar onde eu quero. Vejo o que e quem vale ou não a pena ter comigo.

Solitude

O ano de 2020 foi esquisito e ruim para muita gente, talvez o pior ano da vida de muitas delas, e não vou tentar relativizar isso de forma nenhuma aqui, da posição privilegiada que ocupo. Reconheço que não tenho nada a reclamar. Sou grata, sem demagogia nenhuma. Termino ele com saúde e emprego, sem ter perdido ninguém que eu amo para a Covid, com tudo que se quebrou em 2019 restabelecido. Para 2021 eu sei o que eu quero, mas não sei o que me aguarda – só espero estar aberta para aprender e entender, como uma página em branco e em paz. De novo.

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Você sabe a origem da frase “Conhece-te a ti mesmo”? Então clique aqui.

(*) Quer conhecer melhor o Alex Castro? Clique aqui, então.

 

 

 

 

 








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