Respira e vai sem parar

8 05 2022

Quer dia melhor para falar de medo do que o Dia das Mães?

Você pode ler todos os livros, participar de todos os grupos possíveis de WhatsApp e Telegram, contratar a melhor doula do mundo, ter a rede de apoio mais incrível de todas, ter o companheiro mais desconstruído e parceiro de todos, mas nada, eu disse NADA te prepara para o momento em que enfim te entregam a criança nos braços e vocês ficam sozinhos no quarto pela primeira vez.

Porque ali você percebe que tem uma vida que você fez e agora depende (pelo menos por um bom tempo) totalmente de você. O peso do mundo inteiro cai na sua cabeça e você se sente muito sozinha, porque o que você fizer será gravado na cabeça dele como um parâmetro de certo ou errado; o que você disser será uma verdade absoluta e repetido com autoridade porque “minha mãe falou”; um pequeno momento em que você, cansada, perder as estribeiras e gritar “Some daqui!” terá um impacto que no futuro o terapeuta terá um trabalho danado para resolver. Se der certo, todo mundo vai requerer o mérito – se der errado, “cadê a mãe dessa criança?”.

O tempo todo você vai ser julgada. O tempo todo alguém vai te cobrar e te oferecer uma receita milagrosa que “funcionou com a avó da cunhada da vizinha da minha amiga e eu também usei com sua irmã e deu certo” e você vai ter que vencer o medo para agradecer e dizer que gostaria de tentar do seu jeito. Vai ter que vencer o medo de ser criticada pelas pessoas que você mais gosta e querem sim o seu bem, mas, na ânsia de te proteger, vão quase te sufocar.

O medo de que a criança esteja com fome ainda; o medo do seu leite ser “fraco”; o medo de “deixar na mão do pai” para você poder enfim tomar uma tacinha de vinho como antigamente; o medo de admitir que não conseguiu amamentar, mesmo depois de todas as técnicas, simpatias, pomadas e bolsas de gelo e água quente; o medo dele parar de respirar no meio da noite justo no dia em que você dormiu a noite toda; o medo dele passar mal na escola com o lanche que você leu que era super saudável; o medo do pai deixar de ter achar interessante e um dia ir embora.

A maior coragem da mãe e dar a cara a tapa para o mundo desde o momento em que o exame dá positivo e seguir enfrentando todos os seus medos o tempo todo para ver o filho voar – inclusive o medo dele ser tão livre ao ponto de nunca mais querer voltar.

O maior medo é nunca saber se você fez o melhor. O medo de não saber se ele está preparado. O medo de perceber que nada está sob o seu controle e nada é como você pensava, porque cada mãe é uma e cada maternidade é única. Cada filho é uma surpresa e o máximo que você vai poder fazer é se preparar para abrir os braços e acolher sempre que ele precisar e aprender com mais um dia nessa profissão em que a gente nunca chega ao nível sênior: a de ser mãe.





Amor é verbo que exige coragem

30 03 2022

Sou Florentino Ariza andando em pleno século XXI, mas queria mesmo era ser Fermina Daza.

Florentino chegou a dizer ao pai de sua amada que seria uma honra morrer por amor – “Atire. Não existe glória maior do que morrer por amor”, ele disse, tranquilo. A paz de quem tem fogo dentro de si, mas quer ser consumido até o pó.

Mas Fermina… ela amava também, mas, quando viu que aquele amor não teria futuro (o futuro que queriam para ela), soube guardá-lo numa gaveta e viver o que estava disponível. O melhor que poderia ter naquele momento. E viveu suas lutas sem olhar para trás, porque sabia que aquela era a caixa onde deveria caber agora. Fechou os olhos e se jogou. Sorveu daquilo até a lembrança do que houve ficar tão apagada que mal ocupava espaço na vida que tinha agora. “Florentino não é um homem. É uma sombra”.

Enquanto isso, Florentino vivia. Pela metade. “Minha vida é amar Fermina”. As 622 amantes que teve ao longo dos 51 anos, nove meses e quatro dias em que esperou por ela não puderam afogar todo o sentimento que ele manteve virgem por Fermina. Florentino também tentou caber na caixa que apareceu, mas ela tinha buraquinhos por onde apareciam uma foto, uma mecha de cabelo, um banco em frente a uma janela específica, conectada para sempre a uma lembrança, um sentimento que se aprende a sublimar porque não cabe no mundo das coisas que existem.

Como se tornar Fermina? Como sufocar com tanta altivez? Como se resignar com tanta classe, dedicação e disciplina? Como trancar um quarto tão querido no coração para que o resto da casa se torne habitável para si e para os outros? Como domar o mar revolto dentro de si para entregar o que esperam que você seja?

Continue lendo »




Não ouço mais os teus sinais

28 01 2022

“Ai que saudade d’ocê”

Tenho dormido mal mesmo me sentindo tão bem. Mesmo olhando no espelho e não vendo nada de errado.

Descobri que é porque sua ida ainda não aconteceu aqui dentro. Do lado de fora, nós dois não existimos mais – mas dia e noite, o tempo todo, eu vivo a ansiedade de abrir a porta para você de novo.

(Foto: Pixabay)

Hoje cruzei com sua lembrança na rua, num detalhe que só tinha sentido pra gente. Que, se a gente estivesse junto ainda, seria notado com um olhar discreto e registrado com um sorrisinho de lado.

Toda hora eu abro a boca para te contar alguma coisa. Para te pedir uma opinião. Para te mandar uma piada que eu sei que ia te fazer rir. Pra reclamar e ouvir você me aconselhar. Para te relembrar o quanto você é importante para mim e saber que você vai sorrir daquele jeito em que dá para eu ler seus pensamentos e eles dizem: estou em paz contigo.

Mas você não está mais.

Eu não estou mais.

Talvez a gente nunca tenha nem sido.

Porque a gente era todo errado e sabia. Por fora a gente nunca foi, mas por dentro a gente era mais forte do que qualquer convenção. Mais real do que qualquer contrato.

A gente tentou fazer o que o mundo dizia que era certo, mas doeu tanto que a gente teve certeza que o mundo estava errado.

Daí pra frente, decidimos ignorar o mundo. E tudo foi como a gente bem quis. E foi maravilhoso. E por um tempo pareceu que seria eterno.

Mas não foi, porque você se foi.

Já são três as músicas que não posso mais ouvir, porque procuro o seu olhar para cantar comigo numa conexão só nossa e me dói o peito quando não encontro mais.

Falta um pedaço em mim que era a sua presença todo dia na minha vida. Um pedaço que eu sei que não volta e talvez seja uma bênção, ao invés de uma maldição.

Porque, se você não volta, a vida precisa seguir. Eu preciso reaprender. Preciso me renovar.

Dizem que mudar é bom, então vamos lá: como é a vida sem a sua cor? Vou ver.








%d blogueiros gostam disto: