Para a aniversariante que eu um dia fui

31 08 2020

PARA:
Janaina M. R. Arruda
Rua Iguaçú, 745 – Bairro Concórdia
CEP 31110-010
BH / MG

Belo Horizonte, 31 de agosto de 2020.

Oi, Janaina.

Estou te escrevendo uma carta porque aí, em 1990, ainda não tem computador nem internet (você não conhece isso ainda, mas são tecnologias que você vai ter o privilégio de ver se popularizar e mudar nossa História – você é de uma geração que pegou os dois mundos!). Mas eu sei que isso não será problema para você, que sempre gostou de ler e de escrever e tem uma coleção de papéis de carta. Inclusive eu guardei todos, assim como as bonecas, fica tranquila.

Não se assuste, mas hoje você também está fazendo 40 anos, mais do que a nossa mãe tem hoje. Tinha uma grande festa planejada para isso aqui em 2020, mas infelizmente esse ano estamos em meio a uma coisa chamada pandemia, que você vai estudar com mais detalhes quando tiver História na escola. Tem uma doença mortal circulando no mundo que as pessoas podem pegar se ficarem em lugares cheios. Então hoje talvez eu receba aqui em casa a nossa família e fale com todos os vários amigos que você fez ao longo desses anos pelo celular (ainda não tem isso em 1990 também, mas é um telefone portátil, sem fio, pequeno, do tamanho de uma fita k7).

1983 / 2013

Eu quis te escrever hoje porque eu sei que vai ser um dia tenso na escola e que você vai se questionar sobre o seu valor de novo. Sexta-feira, nosso aniversário, uns abraços das professoras, talvez um “Parabéns para você” na sala… mas tem aquela sensação constante de que ninguém lá gosta de você. Está com medo de alguém gritar um “cabelo de bombril!”, “banguela!”, “vassoura!” ou “sua feia!” no meio das palmas e de você acabar chorando ao invés de comemorar.

Mas olha, tenho uma coisa boa para te dizer: vai passar. Vai passar tanto que você vai lembrar disso depois como se fosse só um pesadelo meio borrado na memória e vai pensar: “caramba, que loucura”. E vai abrir uma cerveja e ficar p* da vida porque estamos (eu, aqui) em 2020 e essas coisas ainda acontecem – mas hoje é tão errado, mas tão errado, que as pessoas fazem um grande rebuliço se uma criança for tratada assim na escola. Não é mais só “coisa de criança”.

Você vai passar por mais coisas assim durante um tempo. Vai precisar ter paciência e muitas vezes fingir que não ouviu, mas vai valer a pena. Aqui em 2020, você é considerada uma mulher linda e sempre ganha elogios justamente pelo seu cabelo e a cor da sua pele. Esse padrão que você está buscando aí, hoje não existe mais. Essas meninas que aí em 1990 te põem apelidos horríveis hoje são tão sem graça que ninguém nem lembra delas. Mas você… você é uma estrela. Sabia que até fotos para propaganda já te chamaram para fazer?

1987 / 2019 (Foto: Diego Moreira)

E te digo mais, porque eu sei que mesmo tendo só 10 anos você pensa nisso e se angustia se comparando com suas coleguinhas: você vai namorar muito! Vai dar e ganhar muitos beijos e abraços, vai ouvir “eu te amo” e tudo mais. E não precisa correr, porque você vai perceber que, quanto mais você amadurece, mais interessantes são as pessoas que se aproximam de você. Então fica tranquila.

Mas é claro, são 30 anos que nos separam, então você vai aprender muita coisa ainda. Vai passar um tempo grande negando seu cabelo, querendo estar onde não te querem, se apegando a pessoas que não te dão valor, se doando a quem não tem nada para te acrescentar só por achar que isso é o melhor que a vida tem para te dar. Não é não. Você ainda vai conhecer gente que vai te fazer muito feliz, mesmo não durando para sempre. Porque nada é para sempre, desculpa. Daqui eu posso te falar. Mas também posso dizer que você vai superar muito bem essas coisas. Quer uma dica? Continue escrevendo, vai te ajudar demais nesses processos.

Vai ser chato. Vai doer muitas vezes, mas você vai sair tão forte que ninguém vai acreditar que foi tão ruim. Tudo vai inclusive virar piada, porque você vai contar de um jeito que vai parecer até deboche. Sabe quando vó Ivone diz que você é espirituosa? Você vai continuar assim, vai ser o seu “charme”. Quer outra notícia boa? Seus amigos te adoram e são ótimos. Vocês riem juntos e fazem coisas bem legais: viagens, restaurantes, festas, shows. Sabe essas coisas que o tio Neco faz? Igual.

1981 / 2019

Você deve estar pensando como vai fazer tudo isso – trabalhando, uai! Você vai começar a ganhar seu dinheiro com 18 anos e não vai mais parar. Não assusta não, trabalhar não é difícil. Na verdade, vai ser uma das suas tarefas preferidas, vai ocupar bastante a sua cabeça, vai te ensinar muito e te apresentar pessoas e lugares maravilhosos. Sabia que você vai até enjoar de andar de avião? Que vai conhecer a Europa? Que vai falar umas três línguas? Pois vai. Tudo graças ao seu trabalho.

Só que é o seguinte: você não vai ser veterinária. Vai perceber que é preciso uma frieza que você não tem para ver os bichos sofrerem por causa da maldade das pessoas. Também não vai ser desenhista, desculpa. Essa carreira vai cruzar com você muitas vezes, mas até hoje, aqui, aos 40, eu ainda não resolvi direito o lugar disso na nossa vida.

Vai querer ser guitarrista e até aprender a tocar violão (mas largou as aulas de piano, pelo que me arrependo até hoje, tsc), vai fazer um vestibular para Administração, vai quase virar farmacêutica, vai começar uma faculdade de Biologia, vai parar e querer tentar Letras e História, passar em primeiro lugar no vestibular para Secretariado Executivo Bilíngue, mas vai virar mesmo é jornalista. Sabe quando você fez um jornalzinho com notícias que viu na tv e um “anúncio” da empresa que pai trabalha? É isso que você vai fazer dos seus 25 anos para frente. A gente escreve e lê muito, conhece pessoas novas, ouve histórias maravilhosas, vai ser massa.

1987 / 2008

Sabe o que também vai ser massa? Você vai ter uma casa só para você. Com tudo que você quiser, inclusive com gatos e um monte de livros, sapatos e roupas que aí em 1990 você nem imagina que um dia vai usar. Vai ter um carro (calma, não é um fusca) também, mas vai desistir logo de dirigir e adotar uma bicicleta e ônibus para ir e vir. Aqui em 2020 tem muita opção.

Também quero te dar alguns conselhos importantes, presta atenção: escuta pai quando ele te mandar dormir cedo. O mundo funciona de 8h às 18h, é sofrido brigar contra isso, então vai treinando. Ouve também quando ele te mandar estudar, pelo amor de Deus. A gente aprende fácil, mas o HÁBITO do estudo vai ser importante para tudo na vida – eu sinto muita falta disso. Não conte com a sorte, vencer exige método.
Não ache ruim quando mãe e pai te chamarem a atenção ou te proibirem de fazer alguma coisa, nunca! É para o nosso bem – você vai entender isso com muita clareza quando tiver o seu filho (sim, você vai ter um, ele é ótimo). Abrace bastante vó Ivone e vó Celita – nada dura para sempre, lembra?
E não tenha medo de falar “não” para as pessoas. Para ninguém, ouviu? Com calma e educação, mas fale. É um exercício de autoconfiança muito importante. A vida cobra caro quando a gente não sabe isso, é melhor aprender cedo.

Enfim. Eu quis te escrever para te dizer para ficar firme e enxergar para além das coisas ruins que te acontecem. Mire lá no alto, lá na frente, que é o seu lugar. Foque em ser uma pessoa melhor a cada dia e passe por cima do resto. Ao longo da vida você vai rever muitos coleguinhas de escola, vai reconhecê-los e vai ver que está melhor que todos eles. Vai lembrar de cada um deles e pensar “bem-feito”.

1990 / 2020

Mas o mais importante é o seguinte: apesar de tudo que eu falei, a vida vai correr da forma que tem que correr, no tempo dela, para você chegar aqui, agora. Tudo aconteceu por um motivo e tudo que você fez era o que deveria ter sido feito na hora, porque era o que estava ao seu alcance com as ferramentas e o conhecimento que você tinha. Não gaste muito tempo pensando nisso, porque está fora do seu controle. No fim, é tudo aprendizado.

Olha, você vai ser tudo que sempre quis, vai ter tudo que sempre quis, vai chegar onde quiser. Você vai ser melhor do que jamais imaginou, eu te juro – eu estou aqui, eu sou a prova. Tudo vai passar sim, pode confiar. Feliz aniversário.

Você vai chegar onde quer que queira chegar

Um beijo,

Janaina Rochido
Jornalista
Especialista em Produção em Mídias Digitais e Marketing Digital





Comer, amar e lembrar

21 06 2020

Comida é uma das formas mais simples de demonstrar apreço por alguém ou de querer mimar a si mesmo. Seja um ato de educação (*), de caridade, ou uma refeição cuidadosamente pensada para agradar outras pessoas, cozinhar (ou comprar pronto, não tem problema) é se importar. Comida é afeto.

O waffle de Amsterdam, 2013

Todo cozinheiro famoso diz que cozinhar é um ato de amor. Os mais novos acrescentam que cozinhar também é um ato político. Antigamente, as mães diziam às filhas para aprenderem a cozinhar, porque o caminho para o coração do homem era o estômago. Hoje, os homens perceberam que saber cozinhar e fazer isso com alegria muitas vezes chama mais a atenção das mulheres do que ter um carro caro, por exemplo – pode ser o fiel da balança entre ele e um outro pretendente.

Eu amo comer. Todo mundo que me conhece sabe disso. Amigos e familiares sabem que me presentear com comida não tem erro. Para mim, é um verdadeiro prazer reunir as pessoas para comer e conversar.

Quantas vezes alguém demonstrou que gostava de mim por meio da comida? Quantas vezes alguém se doou em prol de me agradar assim? Tenho tantas memórias boas desses momentos que quis tirar alguns da caixa. Mereciam.

Meu primeiro jantar

Quando eu estava no ensino médio, namorava um colega que me sacaneou de todas as formas que pode, mas foi quem me deu meu primeiro jantar surpresa: me fez fechar os olhos e me conduziu até uma sala da casa onde ele tinha montado uma mesa com velas acesas e aqueles pratos e talheres bonitos que a mãe da gente só guarda, nunca usa.
No menu, macarrão com almôndegas, Coca Cola (ele adorava) e, de sobremesa, pudim de leite condensado. Ele mesmo serviu a gente. Fiquei com os olhos marejados – do ‘alto’ dos meus 17 anos, nunca achei que ganharia algo assim um dia! Mesmo com tudo que ele me fez chorar depois, lembro com carinho desse momento, porque li sinceridade nos olhos dele. Naquela hora, ele realmente gostava de mim.

Pão de Beatles

Um tempo depois, namorei uma pessoa que não morava na mesma cidade que eu e era difícil a gente se encontrar, conseguir conciliar nossas vidas comuns com viagens entre as cidades e tempo de qualidade juntos. Mas lembro bem de uma vez em que cheguei na casa dele e fomos ao mercado, onde ele comprou batatas, queijo, bacon, polvilho e outras coisas para fazer pão de queijo. Um amigo passou uma receita diferente da convencional e ele queria testar.
Foi tão divertido! Ele colocou Lou Reed e Beatles (“Beatles é música de cozinhar”, dizia) pra tocar e ficamos lá a tarde toda conversando (sempre fomos bons em conversar – até hoje, nossos papos rendem) enquanto ele, preciosista, ralava o queijo, amassava os ingredientes e enrolava as bolinhas, umas comuns e outras com um cubinho de bacon em cima. Eu tirava fotos do processo o tempo todo – para mim, registrar as coisas boas é imprescindível.
Comemos pão de queijo tomando um café que ele passou, separamos para congelar e ainda levei uns para casa quando voltei para Belo Horizonte. Guardo essa lembrança com muito carinho. Tão simples e tão bom.

O Jardim de Cogumelos

Tempos depois, namorei um cara que tinha o mesmo apreço que eu pela boa comida. Acho que foi a época que mais comi coisas diferentes na vida – e aprendi sobre vinhos. Num de nossos programas, ele me levou a um restaurante noutra cidade chamado Bistrô da Marta (com ou sem H? Não sei mais) e lá eu comi um prato que NUNCA me saiu da memória (nem das papilas gustativas): o Jardim de Cogumelos.
Que explosão de sabores! E que apresentação linda! Eu nunca tinha comido um cogumelo na vida além do champignon do estrogonofe e nem estado em um lugar tão chique. Meu prazer em comer uma coisa tão boa com ele deixou ele feliz. Aquele foi um momento feliz. A Mart(h)a do bistrô saiu da cozinha para conversar com os clientes e abriu um sorrisão ao ver um prato – que para ela deveria ser muito simples – deixar alguém tão extasiado.

Os quatro cometas

Depois, outras quatro pessoas passaram pela minha vida num mesmo ano como cometas: rápido, porém deixando um rastro de memórias e sabores que guardo com cuidado e revisito quando quero pensar nas coisas boas que já vivi.

A primeira delas me mostrou como caramelizar cebolas e comer com queijo brie e castanhas – e eu, que bravateava que nunca misturava doce com salgado, me apaixonei por esses sabores juntos. Ele tinha modos muito refinados, morava num apartamento pequeno e tinha utensílios de cozinha chiquérrimos, que eu tinha vergonha de não saber para que serviam – ficava observando ele usar para então palpitar como se entendesse alguma coisa, hahaha. Ficávamos sentados no chão comendo, tomando vinho e ouvindo música velha. Não raro, o dia raiava e a gente nem via – então a gente já emendava com o café da manhã, que ele fazia questão que fosse farto também.

A segunda eu conheci batendo boca no Facebook (risos nostálgicos) e nunca esqueci dos jantares que ele me fez ao som de violão e Thievery Corporation na casa dele. Era um cara sussa e muito inteligente, que me despertava também muita ternura. Cultivava seus próprios temperos, tinha um cachorro e o mesmo fascínio que eu por Caloi 10 antigas. Estar com ele era um hiato de paz na vida corrida. Era relaxar. Eu me sentia muito cuidada. Foi tudo rápido demais, e talvez por isso mesmo me marcou para sempre – assim como o macarrão com molho de tomate e manjericão e a sopa de cebola que eu nunca consegui reproduzir. Há coisas que realmente só passam na sua vida uma única vez.

O terceiro me apresentou chimarrão da forma certa e finalmente eu gostei. Achava engraçado ele circular carregando sempre a cuia, um saquinho de mate e uma garrafinha térmica com água quente e curtia observar o ritual que ele repetia em todo lugar, fosse bar, restaurante ou praça, em preparar a bebida. Foi também quem me convenceu a provar bolo de milho, receita facinha (e gostosa!) que ele sempre fazia usando só três ingredientes. Era um cara que estava sempre com o astral lá no alto até quando tinha um revés. Daquelas pessoas que ainda não aprenderam a temer antes de experimentar. Eu o vejo por aí de vez em quando e ele sempre me cumprimenta e abraça. É uma recarga de energia boa de alguém por quem fico sinceramente feliz ao ver que alcançou tudo que planejou – inclusive o amor da vida dele.

O último me conhecia bem antes da gente se encontrar e sabia precisamente como me agradar: nos dias que passamos juntos, entre andar de bike, discutir cultura e ir à praia, ele me levou cada dia num lugar diferente para comer e me apresentou quitutes que, se entregassem aqui, eu pediria todo dia. Caranguejo (“comer caranguejo é uma terapia, porque o tempo que você leva é o que você precisa para pensar na vida”, dizia ele, martelando a casca), amendoim cozido, pimentas, peixes, pastel de camarão com camarões ‘de verdade’: tudo com tempero do Nordeste, de sol e daquele cara de tiradas inteligentes, opiniões fortes e barba bem cuidada. Uma lembrança que me faz sorrir de lado até hoje.

Comida é amar também.


* Sim, tem seu lado ruim: a comida feita com má vontade serve apenas para matar a fome do estômago; não tem gosto de congregação, de encontro bom, de vontade de alimentar também a alma junto com o corpo. Mesmo a fome do estômago corre o risco de não ser satisfeita, porque quando a gente não está bem, como colocar algo bom no que estamos fazendo? Benditos sejam os que conseguem separar uma coisa da outra – eu, se não estiver bem, não faço nem um miojo: tudo fica com um gosto mal resolvido de fel e tristeza.
Da mesma forma, não aceito comida de quem eu sei que não gosta de mim. É claro que ali não vai ter nenhum veneno que vem num vidrinho lapidado em forma de gota, mas como posso colocar dentro do meu corpo algo recheado de energias ruins?





Was I born in the wrong time?

23 05 2020

Hoje eu acho o mundo uma metamorfose ambulante muito mais rápida do que eu consigo acompanhar. De muitas convicções eu inclusive desisti, porque elas mudavam todo dia. Mas em uma coisa eu penso sempre: acho que nasci na década errada.

Penteado dos anos 70; Depeche Mode nos anos 80; Joan Jett, guitarrista; Malía, cantora

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