“Conhece-te a ti mesmo”

1 01 2021

Lembro exatamente onde eu estava em 1º de janeiro de 2020 e o que eu pedi para o ano.

Eu fazia musculação todos os dias, religiosamente, e domingo era o dia de correr. Com a academia fechada, eu fui para a rua e corri pela Avenida Brasil. Na volta, passando pela Praça Floriano Peixoto, resolvi gravar um story no qual eu falei que o que eu vibrava pra 2020 era um ano rodeada de pessoas “de boas”. Eu tinha acabado de sair de um 2019 extremamente desgastante e desafiador que tinha me esgotado em todos os sentidos, estava retomando o contato com quem eu era de verdade e com o que eu queria de verdade (a frase é clichê, mas foi exatamente assim). Estava muito aberta a tudo, me sentindo uma página em branco, em paz.

Expectativa / realidade

Acaba que a pandemia fincou seus pés no Brasil definitivamente em março e trancou todos nós em casa, mas meu pedido foi atendido, de certa forma. Com meu filho “quarentenando” em um lugar seguro, fiquei trancada no apartamento comigo mesma por oito meses – fiquei cercada de mim mesma para me (re)conhecer de verdade. Obrigada a olhar profundamente no espelho, nem tudo que eu vi era bonito, mas agora eu sei com quem estou lidando.

Sem nenhuma válvula de escape fora de casa e sem nada para fazer dentro dela a não ser trabalhar, testei todos os meus limites e deixei todos os meus sentimentos atingirem seus extremos. Eu queria ver como eu realmente reagiria a certas situações, queria ver se certas atitudes eram minhas mesmo ou só coisas que eu fazia para agradar, para caber em determinados espaços e padrões sociais.

“Espelho, espelho meu”

Tive oportunidade de desconstruir tudo, TUDO, que eu achava que tinha certeza, todos os dogmas que eu criei para mim mesma se foram. Eu, que falava coisas com o tom de quem profere uma sentença, desfiz tudo e exercitei muito o “não sei”, “não quero”, “não vou”, “prefiro não falar nada sobre isso”. Tive que encarar o fato de que eu sou falível, imperfeita e não sou referência em nada, tampouco unanimidade para ninguém. Aceitei que buscar a perfeição é angustiante e o que eu posso fazer é buscar o meu melhor – sobre isso sim, eu tenho algum controle.

Tive dias de acordar cedo e cheia de disposição, colocar minha roupa mais querida, fazer minhas refeições como um personagem de novela e cumprir todas as obrigações good vibes da quarentena: treinar em casa, cozinhar comidas saudáveis e bonitas, assistir lives e aprender on-line, além de ser uma funcionária modelo no home office – com tudo devidamente postado no Instagram; e tive dias de trabalhar da cama de pijama, não tomar banho, almoçar e jantar Pringles e cerveja e não responder ninguém simplesmente porque acordei mal. Era o que eu sentia e deixei isso fluir, queria explorar até onde eu me incomodava de verdade.

“Por que você não atendeu?” / “Porque eu não quis.”

Por outro lado, também percebi que o que nos separa do que a gente quer pode ser apenas um “pra que?” ou “por que não?”. Quero essa roupa e esse sapato, mas pra que, se nem tenho onde usar? E por que não, se eu quero e posso? Pessoas fizeram aniversário esse ano e eu não falei nada – algumas por esquecimento mesmo (sorry!), mas outras… pra que, se elas não têm nenhuma ligação comigo? Eu devia? Me vi em contato com pessoas nas quais eu tinha interesse e me expus para elas – e por que não? Gosto do meu cabelo curto, mas mantinha grande – pra que? Peguei a tesoura sem dó. Recebi convites que eu não queria aceitar – pra que, se toda vez que eu aceitava, me arrependia? Falei não. 

O “não”, aliás, é uma palavra que liberta. Estou até hoje aprendendo a falar, mas a ânsia de agradar e de ser eficiente que eu sempre tive me dificultava muito o processo. Pois, trancada em casa, sem ninguém para olhar feio, tomei mais e mais coragem para dizer que não ia, não faria, não queria, não concordava. Suei frio – mas a proposta era essa mesma, colocar a cara na vidraça. E eu vi que dizer “não” me trouxe mais respeito. Finalmente me senti segura para me impor e ver que, muitas vezes, era isso que faltava na minha relação com os outros. Também ouvi muito “não” e, no lugar de tentar justificar a negativa culpando o outro, tentei ver qual o motivo de eu me exasperar tanto – se eu sou livre para falar, o outro também é. Eu que entenda e aceite.

Fala, fala sim.

O “não” também é a palavra do desapego, outro exercício que eu fiz muito nesses meses sozinha em casa. Desapego com objetos, com pessoas, com sentimentos, com certezas, com convenções sociais. Ganhei essa roupa de um parente, mas nunca gostei dela e nunca usei – doei. Fulana se dizia muito amiga minha, mas não me procura nunca – ok, cabe a mim ver qual o lugar dessa pessoa na minha vida, então. Cicrano e eu ficamos, foi ótimo, tivemos uma conexão sensacional, mas ele nunca mais falou comigo – ok, fiquei chateada, mas não nos prometemos nada. Me sinto mal por não aplaudir ou opinar no assunto do momento – mas eu tinha mesmo que fazer isso? Porque estou preocupada, se meu interesse na questão é zero? Pra que, ou pra quem, eu deveria fazer isso?

O processo de me autoconhecer vem me levando a me autoconstruir, termo que o Alex Castro (*), escritor com quem aprendo muito, usa e eu concordo plenamente. Depois de ver quem eu sou, quero ser quem eu quero. Minha autoestima foi fortalecida nesse período e, mais do que nunca, me sinto em paz com meu corpo, meus defeitos e meus desejos. Entendi meu valor. Vejo onde preciso melhorar para chegar onde eu quero. Vejo o que e quem vale ou não a pena ter comigo.

Solitude

O ano de 2020 foi esquisito e ruim para muita gente, talvez o pior ano da vida de muitas delas, e não vou tentar relativizar isso de forma nenhuma aqui, da posição privilegiada que ocupo. Reconheço que não tenho nada a reclamar. Sou grata, sem demagogia nenhuma. Termino ele com saúde e emprego, sem ter perdido ninguém que eu amo para a Covid, com tudo que se quebrou em 2019 restabelecido. Para 2021 eu sei o que eu quero, mas não sei o que me aguarda – só espero estar aberta para aprender e entender, como uma página em branco e em paz. De novo.

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Você sabe a origem da frase “Conhece-te a ti mesmo”? Então clique aqui.

(*) Quer conhecer melhor o Alex Castro? Clique aqui, então.

 

 

 

 

 





Para a aniversariante que eu um dia fui

31 08 2020

PARA:
Janaina M. R. Arruda
Rua Iguaçú, 745 – Bairro Concórdia
CEP 31110-010
BH / MG

Belo Horizonte, 31 de agosto de 2020.

Oi, Janaina.

Estou te escrevendo uma carta porque aí, em 1990, ainda não tem computador nem internet (você não conhece isso ainda, mas são tecnologias que você vai ter o privilégio de ver se popularizar e mudar nossa História – você é de uma geração que pegou os dois mundos!). Mas eu sei que isso não será problema para você, que sempre gostou de ler e de escrever e tem uma coleção de papéis de carta. Inclusive eu guardei todos, assim como as bonecas, fica tranquila.

Não se assuste, mas hoje você também está fazendo 40 anos, mais do que a nossa mãe tem hoje. Tinha uma grande festa planejada para isso aqui em 2020, mas infelizmente esse ano estamos em meio a uma coisa chamada pandemia, que você vai estudar com mais detalhes quando tiver História na escola. Tem uma doença mortal circulando no mundo que as pessoas podem pegar se ficarem em lugares cheios. Então hoje talvez eu receba aqui em casa a nossa família e fale com todos os vários amigos que você fez ao longo desses anos pelo celular (ainda não tem isso em 1990 também, mas é um telefone portátil, sem fio, pequeno, do tamanho de uma fita k7).

1983 / 2013

Eu quis te escrever hoje porque eu sei que vai ser um dia tenso na escola e que você vai se questionar sobre o seu valor de novo. Sexta-feira, nosso aniversário, uns abraços das professoras, talvez um “Parabéns para você” na sala… mas tem aquela sensação constante de que ninguém lá gosta de você. Está com medo de alguém gritar um “cabelo de bombril!”, “banguela!”, “vassoura!” ou “sua feia!” no meio das palmas e de você acabar chorando ao invés de comemorar.

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Comer, amar e lembrar

21 06 2020

Comida é uma das formas mais simples de demonstrar apreço por alguém ou de querer mimar a si mesmo. Seja um ato de educação (*), de caridade, ou uma refeição cuidadosamente pensada para agradar outras pessoas, cozinhar (ou comprar pronto, não tem problema) é se importar. Comida é afeto.

O waffle de Amsterdam, 2013

Todo cozinheiro famoso diz que cozinhar é um ato de amor. Os mais novos acrescentam que cozinhar também é um ato político. Antigamente, as mães diziam às filhas para aprenderem a cozinhar, porque o caminho para o coração do homem era o estômago. Hoje, os homens perceberam que saber cozinhar e fazer isso com alegria muitas vezes chama mais a atenção das mulheres do que ter um carro caro, por exemplo – pode ser o fiel da balança entre ele e um outro pretendente.

Eu amo comer. Todo mundo que me conhece sabe disso. Amigos e familiares sabem que me presentear com comida não tem erro. Para mim, é um verdadeiro prazer reunir as pessoas para comer e conversar.

Quantas vezes alguém demonstrou que gostava de mim por meio da comida? Quantas vezes alguém se doou em prol de me agradar assim? Tenho tantas memórias boas desses momentos que quis tirar alguns da caixa. Mereciam.

Meu primeiro jantar

Quando eu estava no ensino médio, namorava um colega que me sacaneou de todas as formas que pode, mas foi quem me deu meu primeiro jantar surpresa: me fez fechar os olhos e me conduziu até uma sala da casa onde ele tinha montado uma mesa com velas acesas e aqueles pratos e talheres bonitos que a mãe da gente só guarda, nunca usa.
No menu, macarrão com almôndegas, Coca Cola (ele adorava) e, de sobremesa, pudim de leite condensado. Ele mesmo serviu a gente. Fiquei com os olhos marejados – do ‘alto’ dos meus 17 anos, nunca achei que ganharia algo assim um dia! Mesmo com tudo que ele me fez chorar depois, lembro com carinho desse momento, porque li sinceridade nos olhos dele. Naquela hora, ele realmente gostava de mim.

Pão de Beatles

Um tempo depois, namorei uma pessoa que não morava na mesma cidade que eu e era difícil a gente se encontrar, conseguir conciliar nossas vidas comuns com viagens entre as cidades e tempo de qualidade juntos. Mas lembro bem de uma vez em que cheguei na casa dele e fomos ao mercado, onde ele comprou batatas, queijo, bacon, polvilho e outras coisas para fazer pão de queijo. Um amigo passou uma receita diferente da convencional e ele queria testar.
Foi tão divertido! Ele colocou Lou Reed e Beatles (“Beatles é música de cozinhar”, dizia) pra tocar e ficamos lá a tarde toda conversando (sempre fomos bons em conversar – até hoje, nossos papos rendem) enquanto ele, preciosista, ralava o queijo, amassava os ingredientes e enrolava as bolinhas, umas comuns e outras com um cubinho de bacon em cima. Eu tirava fotos do processo o tempo todo – para mim, registrar as coisas boas é imprescindível.
Comemos pão de queijo tomando um café que ele passou, separamos para congelar e ainda levei uns para casa quando voltei para Belo Horizonte. Guardo essa lembrança com muito carinho. Tão simples e tão bom.

O Jardim de Cogumelos

Tempos depois, namorei um cara que tinha o mesmo apreço que eu pela boa comida. Acho que foi a época que mais comi coisas diferentes na vida – e aprendi sobre vinhos. Num de nossos programas, ele me levou a um restaurante noutra cidade chamado Bistrô da Marta (com ou sem H? Não sei mais) e lá eu comi um prato que NUNCA me saiu da memória (nem das papilas gustativas): o Jardim de Cogumelos.
Que explosão de sabores! E que apresentação linda! Eu nunca tinha comido um cogumelo na vida além do champignon do estrogonofe e nem estado em um lugar tão chique. Meu prazer em comer uma coisa tão boa com ele deixou ele feliz. Aquele foi um momento feliz. A Mart(h)a do bistrô saiu da cozinha para conversar com os clientes e abriu um sorrisão ao ver um prato – que para ela deveria ser muito simples – deixar alguém tão extasiado.

Os quatro cometas

Depois, outras quatro pessoas passaram pela minha vida num mesmo ano como cometas: rápido, porém deixando um rastro de memórias e sabores que guardo com cuidado e revisito quando quero pensar nas coisas boas que já vivi.

A primeira delas me mostrou como caramelizar cebolas e comer com queijo brie e castanhas – e eu, que bravateava que nunca misturava doce com salgado, me apaixonei por esses sabores juntos. Ele tinha modos muito refinados, morava num apartamento pequeno e tinha utensílios de cozinha chiquérrimos, que eu tinha vergonha de não saber para que serviam – ficava observando ele usar para então palpitar como se entendesse alguma coisa, hahaha. Ficávamos sentados no chão comendo, tomando vinho e ouvindo música velha. Não raro, o dia raiava e a gente nem via – então a gente já emendava com o café da manhã, que ele fazia questão que fosse farto também.

A segunda eu conheci batendo boca no Facebook (risos nostálgicos) e nunca esqueci dos jantares que ele me fez ao som de violão e Thievery Corporation na casa dele. Era um cara sussa e muito inteligente, que me despertava também muita ternura. Cultivava seus próprios temperos, tinha um cachorro e o mesmo fascínio que eu por Caloi 10 antigas. Estar com ele era um hiato de paz na vida corrida. Era relaxar. Eu me sentia muito cuidada. Foi tudo rápido demais, e talvez por isso mesmo me marcou para sempre – assim como o macarrão com molho de tomate e manjericão e a sopa de cebola que eu nunca consegui reproduzir. Há coisas que realmente só passam na sua vida uma única vez.

O terceiro me apresentou chimarrão da forma certa e finalmente eu gostei. Achava engraçado ele circular carregando sempre a cuia, um saquinho de mate e uma garrafinha térmica com água quente e curtia observar o ritual que ele repetia em todo lugar, fosse bar, restaurante ou praça, em preparar a bebida. Foi também quem me convenceu a provar bolo de milho, receita facinha (e gostosa!) que ele sempre fazia usando só três ingredientes. Era um cara que estava sempre com o astral lá no alto até quando tinha um revés. Daquelas pessoas que ainda não aprenderam a temer antes de experimentar. Eu o vejo por aí de vez em quando e ele sempre me cumprimenta e abraça. É uma recarga de energia boa de alguém por quem fico sinceramente feliz ao ver que alcançou tudo que planejou – inclusive o amor da vida dele.

O último me conhecia bem antes da gente se encontrar e sabia precisamente como me agradar: nos dias que passamos juntos, entre andar de bike, discutir cultura e ir à praia, ele me levou cada dia num lugar diferente para comer e me apresentou quitutes que, se entregassem aqui, eu pediria todo dia. Caranguejo (“comer caranguejo é uma terapia, porque o tempo que você leva é o que você precisa para pensar na vida”, dizia ele, martelando a casca), amendoim cozido, pimentas, peixes, pastel de camarão com camarões ‘de verdade’: tudo com tempero do Nordeste, de sol e daquele cara de tiradas inteligentes, opiniões fortes e barba bem cuidada. Uma lembrança que me faz sorrir de lado até hoje.

Comida é amar também.


* Sim, tem seu lado ruim: a comida feita com má vontade serve apenas para matar a fome do estômago; não tem gosto de congregação, de encontro bom, de vontade de alimentar também a alma junto com o corpo. Mesmo a fome do estômago corre o risco de não ser satisfeita, porque quando a gente não está bem, como colocar algo bom no que estamos fazendo? Benditos sejam os que conseguem separar uma coisa da outra – eu, se não estiver bem, não faço nem um miojo: tudo fica com um gosto mal resolvido de fel e tristeza.
Da mesma forma, não aceito comida de quem eu sei que não gosta de mim. É claro que ali não vai ter nenhum veneno que vem num vidrinho lapidado em forma de gota, mas como posso colocar dentro do meu corpo algo recheado de energias ruins?








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