Não ouço mais os teus sinais

28 01 2022

“Ai que saudade d’ocê”

Tenho dormido mal mesmo me sentindo tão bem. Mesmo olhando no espelho e não vendo nada de errado.

Descobri que é porque sua ida ainda não aconteceu aqui dentro. Do lado de fora, nós dois não existimos mais – mas dia e noite, o tempo todo, eu vivo a ansiedade de abrir a porta para você de novo.

(Foto: Pixabay)

Hoje cruzei com sua lembrança na rua, num detalhe que só tinha sentido pra gente. Que, se a gente estivesse junto ainda, seria notado com um olhar discreto e registrado com um sorrisinho de lado.

Toda hora eu abro a boca para te contar alguma coisa. Para te pedir uma opinião. Para te mandar uma piada que eu sei que ia te fazer rir. Pra reclamar e ouvir você me aconselhar. Para te relembrar o quanto você é importante para mim e saber que você vai sorrir daquele jeito em que dá para eu ler seus pensamentos e eles dizem: estou em paz contigo.

Mas você não está mais.

Eu não estou mais.

Talvez a gente nunca tenha nem sido.

Porque a gente era todo errado e sabia. Por fora a gente nunca foi, mas por dentro a gente era mais forte do que qualquer convenção. Mais real do que qualquer contrato.

A gente tentou fazer o que o mundo dizia que era certo, mas doeu tanto que a gente teve certeza que o mundo estava errado.

Daí pra frente, decidimos ignorar o mundo. E tudo foi como a gente bem quis. E foi maravilhoso. E por um tempo pareceu que seria eterno.

Mas não foi, porque você se foi.

Já são três as músicas que não posso mais ouvir, porque procuro o seu olhar para cantar comigo numa conexão só nossa e me dói o peito quando não encontro mais.

Falta um pedaço em mim que era a sua presença todo dia na minha vida. Um pedaço que eu sei que não volta e talvez seja uma bênção, ao invés de uma maldição.

Porque, se você não volta, a vida precisa seguir. Eu preciso reaprender. Preciso me renovar.

Dizem que mudar é bom, então vamos lá: como é a vida sem a sua cor? Vou ver.





Para nunca esquecer

9 01 2022

Fiz minha primeira tatuagem colorida essa semana: eternizei A Roda da Fortuna, décima carta do Tarot, no meu antebraço.

(Foto: Alexandre Barba – tatuador – BH/MG)

Tudo começou em 1978, quando meu pai comprou uma edição de “Cem Anos de Solidão” no aeroporto, em São Paulo. Eu nasci dois anos depois e, mesmo antes de saber ler, as cartas de Tarot na capa do livro (justamente A Roda da Fortuna e O Diabo) me fascinavam. As ilustrações internas também me hipnotizavam, ao invocar todo o misticismo da história da família Buendía gerações afora.

Já dominando a leitura, o livro me abriu as portas para Gabriel García Márquez, de quem li muita coisa – mas nenhuma como aquele primeiro livro. Minha ligação com ele é uma mistura do meu amor pelo meu pai e nossos gostos em comum, meu fascínio pelo misticismo, minha relação com a literatura e meu desejo de deter todo o conhecimento do mundo, de ler seus segredos para nunca ser pega de surpresa.

(Foto: Arquivo pessoal)

Só que isso é impossível – meu desejo por controle é impossível. A Roda da Fortuna não foi escolhida à toa: ela está no meu braço para me lembrar que controlar a vida é uma ilusão. A vida é cíclica e estamos o tempo todo à mercê de suas mudanças – especialmente as que você provoca pelas suas ações ou pela falta delas. O que nunca muda na vida é que tudo muda, não interessa o que você acha.

Aprendo todos os dias sobre abrir mão do controle e observar mais como tirar proveito dos caminhos que a vida vai desvelando para mim. As coisas podem ser mais leves se você não tentar desvendá-las antes da hora. Não e fácil para uma virginiana que nunca gostou de surpresas, porém a carta eternizada no meu braço vem me lembrar de que não tenho como controlar a roda da vida, mas posso agir com foco no que desejo colher lá na frente.





O amor faz o que quer; você que se vire

29 09 2021

Quisera a gente que o amor se explicasse por teoremas, que fosse como a matemática.

O que faz com que a gente se apaixone por esta ou aquela pessoa?

Porque a “Quadrilha” de Drummond ainda é mais comum do que o encontro com a reciprocidade?

Porque a gente não consegue se apaixonar por quem a gente deveria, racionalmente, se apaixonar? Gostar só de quem gosta da gente? Gostar de quem reúne as condições ideais para o sentimento nascer, crescer e seguir saudável e longevo?

E porque não conseguimos nos desapaixonar, mesmo quando cada pedra da rua sabe que aquela história não tem condições de existir?

A ciência pode tentar, todas as teses de doutorado do mundo podem esmiuçar isso, podemos gastar horas e horas de TED da vida debatendo, que a conclusão real é que o amor faz o que bem entende – e você que se vire.

Os psicólogos diriam que buscamos no outro o que nos falta e, quando o outro vai embora, é essa parte que a gente vê saindo das nossas vidas, por isso dói. Os amigos possivelmente diriam que é carência, e dói porque a perspectiva de estar sozinho é dura. A mãe da gente diria que “é assim mesmo, e isso também vai passar”, mas dói porque a gente não queria que passasse, a gente queria que nunca tivesse acabado – as mães nunca erram, mas as profecias delas costumam levar tempo para acontecer.

Se pelo menos a gente descobrisse o ponto “x” das paixões! O ponto exato em que a pessoa vira uma única pessoa para você! Era só chegar lá e apagar, desfazer, desdizer, desmistificar.

Foi um sorriso? Foi o tom da voz? Foi o corpo? Foi a cor dos olhos, do cabelo, o corte da barba? Foi o jeito que ela fala dos planos dela? Foi a risada? Foi a forma como ele passa a mão na nuca? Foi o jeito com que ela abotoa a presilha do sapato?

A gente não sabe nada e fica preso nesses pedacinhos de cenas que podem ser extremamente comuns, mas passam a se referir apenas àquela pessoa.

Teve uma vez em que eu me apaixonei por um cara. A gente não tinha nada a ver em praticamente nenhum ponto – quem visse os dois juntos iria achar que era uma miragem, porque não tinha como conectar um com o outro.

Mas o diabo mora nos detalhes, né.

A forma decidida como ele andava era magnética para mim. O jeito com que ele abria os braços e falava “uai, fulano! ” com uma risada era só dele. O corte de cabelo tão comum ficava bom só nele.

Um dia a gente estava batendo papo e ele recostou no sofá e colocou a mão atrás da nuca, fechou os olhos, fez uma pausa, suspirou, e continuou conversando com um sorrisinho de canto na boca. O diabo me deu uma grande cutucada aquele dia, porque eu nunca esqueci essa cena tão prosaica.

Eu não sei mais do que a gente estava falando, não sei que dia era, não sei nem porque ele estava lá em casa – mas, naquele exato momento, aquela combinação de movimentos virou uma pintura na minha memória. Eu sinto uma paz e uma ternura profundos ao lembrar desse pedacinho de tempo.

Eu tive que me desapaixonar por esse cara e foi uma das coisas mais difíceis que eu já tive que fazer na vida, uma das escolhas que mais me doeram.

O problema era exatamente esse: minha ‘eu razão’ dizia que era a decisão certa, e me apresentava argumentos irretocáveis para isso, mas a ‘eu sentimento’ queria desesperadamente reviver ele recostado no sofá de novo e ela também estava coberta de razão.

Devia ter como resetar o processo de gostar de alguém para a gente poder gostar diferente, gostar do jeito que dói menos no final, de um jeito que acaba rápido e sem muita coisa para arquivar depois. Ou simplesmente evitar o ponto “x” e nem começar a gostar.

Mas, ao mesmo tempo que a gente quer esquecer, a gente quer lembrar.

A gente quer, desesperadamente, se agarrar a cada memória e briga muito, até sem querer, para ela não sumir.








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