O melhor presente para a mãe

10 05 2013

Dia das mães está aí, né. Já é neste domingo.

Estou vendo as lojas com dezenas de liquidações, desde roupas, jóias e viagens até os velhos clichês de panelas e máquinas de lavar para presentear a mãe no dia dela. Também tenho visto filhos entre o desespero por não ter grana e a resignação por não ter ideia de nada diferente para presentear.

Também sempre tem as flores, os bombons, os colares de macarrão e bolinhas de argila (eu tenho um!). Pois eu, pensando na minha experiência como filha e agora como mãe, comecei a pensar no que seria um bom presente. Pensei em algumas coisas que são fáceis, qualquer um pode dar, custam quase nada, duram muito e todo mundo sai tranquilo.

[Ok, há mães e mães. Como disse uma conhecida minha pelo Twitter, dia desses, tem gente que é filha da p*ta ao extremo, ruim desde a medula, mas o senso comum acha que, se é mãe, está tudo bem, pode abraçar, perdoar e dar presente, porque isso compensa tudo. Não, não compensa. Ser  mãe tem a ver com amor, mas não vou entrar nesse mérito porque é um assunto bem amplo, assim como as gradações de mães são bem amplas - tirando essas que são claramente fpds, lógico. Enfim, divago.]

Mas vejamos:

  • dia_da_maeAtenda ao telefone quando ela te ligar, mesmo que seja para dizer que você não pode/não quer falar;
  • Diga a ela onde você vai. O que que custa? É assim que se constrói confiança (e ela dorme a noite);
  • Comente da sua vida com ela, deixe-a participar – e pergunte pela vida dela;
  • Cuide das suas próprias coisas – saiba onde está sua carteira, seu celular, suas chaves, seus documentos;
  • Arrume a sua cama. Sério, você deveria fazer isso desde os oito anos de idade!
  • Recolha as suas coisas e guarde, você sabe melhor do que ninguém onde cada uma deve ficar;
  • Não reclame da comida;
  • Faça melhor: porque não saem todos para almoçar de vez em quando? (se você pagar a conta, o efeito é melhor)
  • Peça desculpas, ainda que não seja fácil;
  • Responsabilize-se pelo que for responsabilidade sua, desde o cachorro que você quis adotar até a sua conta de celular;
  • Respeite os gostos da sua mãe – vocês são de gerações diferentes, o que você esperava?
  • Ao invés de reclamar que a casa está uma bagunça, deixe de sair um fim de semana e pague uma diarista com esse dinheiro;
  • Mora fora, longe da sua mãe? Passe por cima do constrangimento que certas reuniões familiares causam e volte para vê-la sempre que puder;
  • Ouça muito e pense mil vezes antes de falar. Talvez nem fale.

Tem muitas outras coisinhas, mas até então eu lembrei dessas. Pensei nisso com base em muitas pessoas que eu conheço e já observei, adultas e crianças, que acham que agradar a mãe se resume a dar um presente em UM dia do ano e achar que a tarefa está feita, enquanto nos outros 364 dias a mãe serve só para preparar a jantinha quando o filhão chega da balada ou para recolher a roupa suja atrás da porta do quarto – e sem reclamar! Para esses filhos, sinto muito, mas preciso dizer uma coisa: olha, sua mãe te ama sim, mas isso não a obriga a suportar um filho/filha mala.

maeEu tenho um filho de nove anos e nos tratamos mais como amigos do que como mãe e filho mesmo. É claro que o “tá na hora do banho!”, “cadê seu para-casa?”, “vai comer tudo sim!”, “chega de videogame, vai dormir” e o “já escovou os dentes?” permanecem (são clássicos obrigatórios), mas meu maior foco na criação dele é ajudar na construção de uma pessoa que sabe de seus direitos e deveres, uma pessoa responsável e respeitadora. Não quero meu filho achando que sou empregada dele e nem gritando “manhê, cadê meu RG?” toda vez que sair de casa.

Eu derrapo no tratamento com a minha mãe de vez em quando, eu sei. Mas ser mãe me mostrou que as mães não têm que ser inimigas ou donas dos filhos (nem empregadas, lembrem-se). Se você praticar isso desde agora, no dia das mães não vai fazer diferença se você (caso seja mãe) ou a sua mãe ganharem ou não umas flores ou uma panela, porque todo o resto vocês já vão ter.





8 de março: eu quero é paz para ser mulher

9 03 2013

Todo ano eu fico tensa no Dia Internacional da Mulher. Na verdade, constrangida. Sei que as intenções da grande maioria das pessoas que dão bombons, balas, flores e cartões é boa, é para valorizar, mas a gente que é mulher sabe que isso não resolve o problema, que é muito maior, que não sara com um chocolate (quem dera!).

Quis escrever algo a respeito. O texto acabou saindo só tarde da noite, porque, confesso, fiquei com medo de deixar chateados aqueles que me abraçaram no 8 de março. Mas entendam, amigos, não é pessoal, de forma nenhuma. Conheço vocês e sei que a ideia era agradar. Sei que muitos de vocês não tem a mesma visão que eu sobre Dia da Mulher, sobre ser mulher, etc., devido a uma série de contextos e coisas em que somos diferentes.

Clique para ver maior - vale a pena.

Clique para ver maior – vale a pena “sentir o drama”. (arte de Paula Berlowitz)

O caso é que me incomoda sobremaneira isso de, até hoje, o senso comum achar que para fazer uma mulher feliz é só dar descontos em compras, vales-qualquer-coisa-de-beleza, levar para jantar, lavar a louça do dia. É mais, gente… queremos outras coisas, e são coisas tão simples, mas tão simples, tão fáceis de serem implementadas, que vocês não acreditariam. Lá no meu mural do Facebook eu escrevi só sobre aquelas cotidianas, porque me falta arcabouço para tratar de política para as mulheres com a argumentação que o assunto merece (nota mental: estudar mais sobre isso).

Para saber como tornar a vida de uma mulher melhor agora mesmo, com o que você tem aí à mão, é só ler abaixo o que eu postei na rede; para todo o resto, eu gosto muito desse texto da Marjorie Rodrigues, onde ela sintetiza muito bem o lugar que (ainda) temos de verdade na sociedade, um da Carmen Guerreiro que passeia por diversos pontos importantes, e também esse da Cynthia Semíramis em que ela rebate os clichês sobre a data.

“Agradeço muito a todos que me abraçaram, me deram agradinhos e sorrisos hoje, mas olha, francamente, não vejo nada para comemorar no Dia da Mulher. Muito pelo contrário, me constrange existir um dia disso, porque é prova de que ainda somos algo aparte no fluxo das coisas. A título de comparação, pense no Dia do Índio, Dia da Consciência Negra, etc. – todos são segmentos que ainda precisam lutar para ter respeito.

Obrigada mesmo pelas gentilezas, que eu adoro e valorizo muito, mas eu ficaria infinitamente mais feliz se, ao invés de flor, me fosse dada paz para andar na rua sem medo do cara que vem em sentido contrário me passar a mão ou me falar uma grosseria; se eu pudesse ficar em um lugar sozinha sem ter que explicar (às vezes rudemente) que estou só porque quero, e não porque estou esperando/procurando um homem; se eu pudesse voltar para casa sem ficar tensa, pensando se vou chegar intacta; se eu pudesse ficar num lugar cheio sem medo de me bolinarem; se eu pudesse dizer para um homem que estou interessada nele sem ele achar que quero só sexo.

8_marco_facebookAo invés de distribuir bombons, eduque seu filho para ser um homem melhor no futuro, a começar pelo modo como trata a própria mãe: ela não é uma empregada, mas uma mulher que rala muito, diariamente, e teve que abrir mão de muita coisa pela maternidade – às vezes nem porque quis, mas porque sofreu uma imposição de alguém. Crie um filho/filha para respeitar, para não julgar, mas sim compreender e contribuir com a mudança dos abusos que sofremos até hoje.

E não me olhe torto porque eu falei isso. tenho certeza que muitas mulheres também sentem esse desconforto com esse dia “tão especial” mas preferem não dizer, porque né, aos olhos da maioria, é feio não achar que um doce e um cartão cor-de-rosa são o máximo do privilégio de ser mulher.”





De pérolas e pessoas

28 02 2013
“Pérolas são feridas curadas.”

Achei essa frase tão simples e tão linda.

Eu a vi lendo um texto sobre como as pérolas se formam (veja aqui) e fiquei pensando nela. Li, reli e li de novo e achei que realmente as coisas são assim mesmo.

Retirado de Diário de Biologia

Nunca fui muito crente nessa filosofia de que o sofrimento nos faz melhores. Mais fortes sim, nunca duvidei – mas melhores? Eu achava estranho, mas essas coisas que acontecem na vida me mostraram que é assim mesmo.

Mas ao ler como as ostras cobrem os “intrusos” que entram em suas conchas com camadas de madrepérola, material originalmente usado para revestir essa concha de modo a torná-la mais confortável para o molusco, pensei que o processo com a gente é o mesmo.

Sofremos, achamos que nada mais vale a pena, que o mundo vai acabar, queremos o mal e não vemos mais sentido no bem. Daí o tempo passa – ou ele ou a nossa necessidade de não perder tempo bate – e acabamos por cobrir nossas feridas para seguir em frente. Aprendemos com elas e agregamos experiência.

Hoje eu vejo que é assim mesmo. Não é fraqueza transformar nossas feridas em pérolas. Não que seja fácil, tampouco rápido, mas é o que fazemos. É o que precisamos fazer.

Assim como as pérolas têm vários formatos e preços, as pérolas que criamos também têm múltiplas “caras” e só quem as criou sabe o seu valor. Só a própria ostra sabe a dor de fazer sua pérola.

É uma qualidade rara reconhecer o valor das pérolas alheias. Não espere achar o valor das suas pérolas aos olhos dos outros.





James Bond, o traíra educador

14 02 2013

Qual a relação entre o agente 007 e a criação de meninos hoje em dia? Eu achei uma.

JAMES_BOND_TRAIRA

Sou fã de James Bond e há algum tempo comprei uma caixa com 23 filmes dele (minha melhor aquisição dos últimos anos, diga-se de passagem). Meu filho de oito anos, curioso, me perguntou tudo que pode sobre o agente mais famoso do mundo e quis assistir os filmes comigo. De férias em casa, fui selecionando os que eu considerava mais “leves” e assistíamos a noite.

Um dia ele escolheu “007 contra o Homem com a Pistola de Ouro” e foi ver com o avô. Relaxei – “esse é um dos filmes mais tranquilos do 007”, pensei – e fui ler no meu quarto. No entanto, qual não foi a minha surpresa quando ele entrou p* da vida porta adentro gritando “mamãe, o James Bond é um traíra!”.

Indignado, ele continuou seu protesto: “ele é um traíra, um safado! Começou o filme namorando uma mulher e agora está com outra! DUAS mulheres!”. Demorei um pouco para assimilar.

[ele se referia, na verdade, às primeiras cenas desse filme, onde primeiro Bond tem um affair com Andrea (Maud Adams) para conseguir informações sobre o vilão Scaramanga (Christopher Lee), mas, logo depois, engata um flerte com Goodnight (Britt Ekland), também agente do MI6]

Depois que ele repetiu isso mais algumas vezes, eu e ao avô explicamos que não era bem assim *cof-cof* e que o fato ali é que com a primeira mulher era só fingimento, para conseguir informações, que com a segunda mulher sim, ele tinha algo, digamos, mais correto. “Coisas da vida de espião, filho, e é no filme, é mentirinha”.

Esse episódio me fez pensar em muitas coisas, mas todas relacionadas com a criação e a educação de uma criança, especificamente um menino, nesses dias de hoje. Sou extremamente preocupada em dar para o meu filho conceitos que o façam ser um homem livre de preconceitos, companheiro, respeitador e honesto. Sempre falo com ele sobre a importância de falar a verdade, de estudar, de conversar ao invés de brigar ou pirraçar e de compartilhar comigo e com o pai dele a vidinha dele, para que possamos sempre trabalhar em conjunto e resolver o que precisar.

Sempre falo com ele sobre relacionamentos também, até sobre os meus (guardadas as devidas proporções). Sempre digo a ele que, quando namoramos/casamos com uma pessoa, temos uma grande responsabilidade, pois é alguém que confia em nós e que nos ama, a quem nós devemos, no mínimo, respeito. E uma das facetas do respeito é estar só com essa pessoa, monogamia, fidelidade (ok, tem quem pense diferente, mas não vou entrar nesse mérito) – e foi essa a causa da revolta dele com James Bond e seu triângulo com Andrea e Goodnight.

Sempre comento com outras mães que ser mãe de menino hoje em dia é um desafio, porque os homens do futuro estão em nossas mãos. Numa sociedade que ainda acha normal um homem abordar mulheres com piadas e cantadas grosseiras (tentaram uma vez ensiná-lo a gritar “gostosa” para meninas na rua – cortei a aula na raiz), discriminar e oprimir o diferente, brigar por causa de futebol, beber até cair, “pegar” quantas puder e quiser à revelia de ter ou não uma parceira, é uma tarefa árdua ensinar a um menino que nada disso é bonito.

Lutamos contra uma horda de tios/tias, padrinhos/madrinhas, amigos dos pais, avôs e vizinhos que acham “bonito” ver a criança passar a mão na bunda da empregada e sair correndo, gritar “viado!” pela janela do carro para alguém com a camisa do time rival e adoram ficar falando que vão levá-los na “zona” quando chegarem aos 13, 14 anos. Esses são os piores, por estarem mais próximos, mas tem mais: na escola, os professores não estão preparados (e nem têm tempo) para lidar com profundidade com essas questões, e os coleguinhas nem sempre têm pais preocupados com isso, o que faz com que essas crianças sejam repetidoras de comportamentos nocivos que passam como normais nesse nosso cotidiano veloz e entorpecido.

Quando você reclama dessas coisas, a defesa é sempre a mesma: “ah, fulano estava brincando, qual o problema?” – muitos, meu amigo, muitos. Porque o cérebro das crianças absorve tudo que lhe chega e, quanto mais eles gostam da pessoa, mais fácil essa absorção é. Da mesma forma que meu filho se indignou com James Bond por sempre me ouvir falar de como é triste ser enganada(o) em um relacionamento, ele poderia ter fixado o contrário. É nessa idade que eles aprendem conceitos e comportamentos que levarão para sempre, então é melhor que seja algo bom.

Toda vez que alguém tenta ensinar um comportamento desses para o meu filho, eu seguro a raiva do tamanho da ignorância da pessoa sobre os efeitos disso no futuro e depois sento e converso muito com ele. Papo sério mesmo, olho no olho. Também costumo fazê-lo pensar no “e se fosse com você, você gostaria de ser tratado assim?” (no caso de mexer com mulheres na rua, pergunto se ele gostaria que fizessem isso comigo) – não sei se é a melhor estratégia, mas acredito que fazer a pessoa sentir empatia pelo outro é uma boa forma dela pensar duas vezes antes de agir.

Não é fácil, mas acho que tenho feito progressos em ser mãe de menino (e agora com a ajuda de James Bond). Noto que meu filho, apesar das peculiaridades de um menino de oito anos, tem uma enorme capacidade de entender, respeitar e amar antes de julgar e, ainda que julgue, mostra-se muito aberto a rever sua posição. Acho lindo e acho um prazer. Sinto-me feliz por ser parte na formação de um adulto melhor, do tipo que eu gostaria de ter encontrado muito mais vezes por aí. É uma tarefa delicada e de muita responsabilidade, mas extremamente gratificante.





A “profissão mais antiga do mundo” também é profissão

31 01 2013

[gostaria de não levantar polêmicas – por pura preguiça – mas... é um risco que se corre]

Tenho acompanhado a discussão e a histeria geradas em torno do projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) – também conhecido como Lei Gabriela Leite – que regulamenta o exercício da prostituição no Brasil e, devido a tudo que já vi sobre grupos historicamente marginalizados e sempre pré-julgados (obrigada, estágio no Conselho Regional de Psicologia-MG), quis dar minha humilde opinião também.

Jean Wyllys

Jean Wyllys chocou ao dizer que 60% dos parlamentares contratavam prostitutas. Mas quem é que ainda tinha alguma dúvida disso?

Na verdade, não é bem uma opinião, é mais uma pequena introdução a um texto muito bom da Monique Prada, ela mesma profissional do sexo, a respeito do tema. O texto foi publicado no blog da Cynara Menezes, o “Socialista Morena” e eu acho que ele se explica por si mesmo – como disse Cynara, “quem melhor para falar sobre a regulamentação de uma profissão do que uma profissional da área?”. [leia o post original aqui e o Projeto de Lei 4.211/2012 – Lei Gabriela Leite, aqui]

Têm me incomodado as manifestações indignadas ao redor da proposta (não vou nem comentar o quanto me incomoda a discriminação com as prostitutas em si, que, antes de serem prostitutas, são mulheres como quaisquer outras). Quero crer que é por desconhecimento que as pessoas continuam confundindo as coisas a ponto de achar que o projeto “incentiva” a prostituição. Isso não existe, em absoluto – o que o projeto visa é garantir aos profissionais do sexo o acesso à saúde, aos direitos trabalhistas e à segurança pública. Ou seja, a dignidade que esperamos como trabalhadores, com direito a aposentadoria e respaldo da Justiça trabalhista.

Como dito em vários textos a respeito da Lei Gabriela Leite, com a proximidade da Copa do Mundo e da Copa das Confederações, certamente a demanda pelos serviços dessas profissionais aumentará bastante (haja vista a fama que imputaram às brasileiras lá fora de serem mulheres sensuais e “sempre disponíveis”) e é preciso que essas trabalhadoras (e trabalhadores) tenham seus direitos resguardados.

Distrito da Luz Vermelha, em Amsterdam

Em países como Holanda, Alemanha, Áustria e Suíça a prostituição é legalizada – e nem por isso o país “piorou”, ou houve mais ou menos prostitutas.

Sim, trabalhadores: oferecem uma habilidade/serviço em troca de dinheiro, exatamente como eu, você e seu colega da mesa ao lado. É bom lembrar que se prostituir não é crime – o que é crime é explorar a prostituição, como cafetões/cafetinas e alguns bordéis fazem. O projeto de Jean Wyllys também contempla o combate a isso, que é quase a mesma coisa que trabalho escravo, se você pensar bem.

Aos apavorados, vale dizer que não vai acontecer um cataclisma se o projeto passar. Tudo vai continuar exatamente igual na sua vida – quem é profissional do sexo vai continuar sendo e quem não é vai continuar não sendo. A mudança virá é para aqueles que sofrem por trabalharem e pagarem suas contas como todo mundo, mas, ainda assim, são considerados não-trabalhadores, não cidadãos.

Sem mais, leia abaixo o texto da Monique e pense a respeito. Pense até que ponto é preciso ser contra algo que não interfere em nada na sua vida, mas melhora a de milhares de pessoas:

O direito de existir (eu, como você)

Por Monique Prada*

O senso comum trata a prostituição como a mais antiga das atividades remuneradas. 
Embora eu não estivesse lá para testemunhar, meus parcos conhecimentos da História
 da humanidade não me dão base sólida para contestar tal informação – de modo que a tomaremos como verdade, de momento. Fato é que a prostituição existe desde há muito 
e, por mais estigmatizada, discriminada, isolada que seja a pessoa que a exerce, segue
 existindo, sem dar sinais reais de que sua extinção esteja próxima.

Assunto em voga hoje em dia, o projeto de lei que visa regulamentar a atividade vem 
encontrando apoio e oposição em vários setores da sociedade organizada. É um projeto 
bastante inteligente, conectado à realidade. Um dos pontos mais importantes em seu texto é a legalização das boates, clínicas e casas de prostituição, estipulando inclusive
 valores percentuais para determinar o que se pode considerar “exploração” – a qual passa 
a ser o crime – e o que seria lucro aceitável a uma empresa destinada à diversão adulta e
 à comercialização de serviços sexuais. Seus maiores opositores, além dos tradicionais
 grupos religiosos de matizes variados, devem estar justamente nos donos dos bordéis e 
afins. Situação análoga a de qualquer tentativa de regulação do trabalho em qualquer 
época em nosso país, vide o ocorrido na década de 1940.

Incrivelmente, algumas pessoas reagem como se o projeto “criasse uma nova profissão”, 
e não simplesmente regulamentasse o que já temos por aí, funcionando dia e noite à
 revelia da lei – o que pode, em muitos casos, dar margem inclusive a outras ilegalidades e a uma situação de vulnerabilidade real e segregação ao profissional, que não tem a quem 
recorrer na hora de fazer valer seus direitos. O projeto praticamente não afeta em nada a
 vida das chamadas “acompanhantes de luxo” (luxo, aliás, é um termo até irônico quando 
aplicado ao ramo…) que atuam de modo independente através de sites e comunidades na 
Internet, ou mesmo em casas mais conceituadas, que não costumam perceber 
remuneração direta sobre o valor cobrado pela profissional.

Entretanto, é de grande 
importância para proteger as prostitutas em situação de maior vulnerabilidade social. Não 
regulamentar não acabará com os prostíbulos baratos e insalubres. A não 
regulamentação apenas favorece o trabalho das máfias, o tráfico humano, a escravidão (e 
lembremos que trabalho escravo não é acontecimento inerente apenas à prostituição: há 
mão-de-obra escrava farta na indústria da construção civil, do vestuário, da mineração… E
 a situação do trabalhador doméstico nos pontos mais longínquos do país, como anda?).

Os efeitos positivos da regulamentação talvez não sejam visíveis a curto prazo, não cabe 
ilusão a esse respeito. O projeto de lei não é perfeito, tem suas falhas – coisa que não 
ficou clara para mim, por exemplo, é como se daria a cobrança pelo serviço em caso de não pagamento pelo cliente: haveria um contrato escrito entre as partes? E no que
 consistiria o trabalho “em cooperativa” proposto? O texto precisa ser melhor estudado, 
aperfeiçoado, ajustado à diversidade de situações regionais. Mas é um puta avanço – com 
o perdão do trocadilho, babaca e quase inevitável.

Lembremos sempre: todos nós, quando “decidimos” trabalhar, o fazemos pela 
necessidade de nos sustentarmos, e aos nossos. Não importa em que área trabalhamos, 
o fazemos pela grana – e, quem sabe, por alguma satisfação pessoal também. Exploração é regra nas relações que regem nossa sociedade, não exceção, os mais
 conscientes sabem muito bem. Somos contra, mas, até o momento, leis, regras e 
fiscalização foi a solução que amenizou o problema, para todos.

Feliz é aquele que trabalha no que gosta. Assim é com o profissional do sexo também. A
 prostituição é, sim, “um trabalho como outro qualquer”, porém com suas peculiaridades.
 Manter a “profissão” à sombra da legalidade, negando direitos, negando regulamentação,
 só contribui pra que se trabalhe em um ambiente de violência, exploração,
 SEGREGAÇÃO. Além do mais, já passou da hora de sermos vistas – nós, meretrizes – 
como cidadãs responsáveis por nossas escolhas e donas de nossas vidas.

Muitos movimentos nos tratam como seres incapazes de escolher nossos
 caminhos, vítimas de um trabalho que nos oprime, ignorantes sobre o mundo que 
nos cerca. O que verdadeiramente nos oprime é estar à margem, é o trabalho mal
 pago, é a invisibilidade forçada, esse vitimismo imposto, aliado a uma romântica 
compreensão de que sexo é algo pelo qual não se pode cobrar sem uma vaga 
sensação de erro, de pecado, de culpa. Somos nós, meretrizes, também, donas e 
senhoras de nossos corpos, mesmo durante nosso período de trabalho. Percebam:
 alugar seu tempo não é equivalente a alugar ou vender seu corpo, como pensam 
tantos/as. Quem contrata os serviços de uma prostituta não tem direito ao abuso 
ou à violência. Há uma diferença sensível, porém importante, entre um conceito e 
outro.

Alguns, com boa intenção talvez, mas desconhecendo a realidade, dizem que é uma atividade “indigna” e, portanto, não passível de direito. Dignidade é liberdade. Exercer seu ofício de modo digno e ter seus direitos de trabalhador respeitados, isso é libertar o profissional do sexo. Exigir que um profissional abandone seu trabalho não o liberta de 
nada. É, sim, interferir vergonhosa e autoritariamente na vida de pessoas adultas e com
 condições de decidir. Eu, como você.

*Monique Prada é porto-alegrense, blogueira, tuiteira e ativista de sofá. Ou de cama, se assim preferirem.





Uma história de viagem: “Que dó, ela está sozinha!”

14 01 2013

Tem pouco mais de um ano que eu viajei sozinha para o exterior pela primeira vez, numa experiência que me marcou para sempre e deixou um gostinho (ou melhor, “gostão”) de quero mais. Esses dias, vendo a quantidade de acessos aos meus posts sobre essas viagens e conversando com uma pessoa sobre Paris, lembrei-me de mais uma história, que não é fofa como a dos mendigos ou interessante como a do polonês da RSPCA, mas é curiosa.

Como eu contei naquela época, eu viajei sozinha não porque eu quisesse, mas simplesmente porque as circunstâncias não permitiram que eu tivesse companhia. No começo fiquei meio triste, mas passou rápido. O problema é que as pessoas ao redor não acreditaram nisso. Virei uma atração de freak show desde a hora em que contei para a primeira pessoa: “Queeeeee? Como assim você vai sozinha para a Europa?” foi a frase que mais ouvi. Mas podia piorar.

sozinha_em_Paris

Ao descer no aeroporto de Paris, peguei minha mala e me juntei ao grupo de brasileiros da agência para esperar o traslado para o hotel. Vendo que meu celular não funcionava, comecei a conversar com um casal – visivelmente em lua de mel, dados os arrulhos – ao meu lado a respeito. Resolvi então pedir à moça que fizesse uma foto minha no aeroporto e seguiu-se o seguinte:

- Bah [eram gaúchos, os dois], então, quem está contigo?

- Ninguém, vim sozinha. [sorri]

- Como assim, sozinha? Cadê teu namorado, marido?

- Não vieram, porque não tenho nenhum deles.

- [Chocada, me olhando com uns olhões azuis arregalados] O que? Tu veio pra Paris SOZINHA???

- Pois é… veja só. [sorri amarelo]

- Benhê [virando-se para o marido], vem cá ver! Ela falou que está SO-ZI-NHA em Paris! Dá pra acreditar? Bah [olhando para mim de novo e apertando o marido – acho que ficou com medo d’eu pedi-lo emprestado], tu é muito maluca! Vir para a cidade mais romântica do mundo sozinha!

Que bom que os outros falantes de português estavam entretidos comprando nas lojinhas ao redor, senão acho que o estrago teria sido maior.

Tem aí duas premissas que as pessoas precisam de vez largar. A primeira é de que é um assombro uma mulher (ou qualquer pessoa) viajar sozinha para tão longe. Lá mesmo, na própria Europa, isso é muito comum – haja vista a quantidade de mochileiros daquelas terras que aportam aqui todo ano. Então porque o assombro? Imagino que isso seja uma coisa nossa, aqui no Brasil, porque lá na Europa, ninguém deu a mínima, fosse nos hotéis, restaurantes ou quaisquer outros lugares por onde passei. Fui muitíssimo bem tratada e andei por onde eu quis.

A segunda premissa é essa de que Paris é lugar para casais apaixonados. Só porque eu não tinha um homem ao meu lado, aquelas pessoas me olhavam como se eu tivesse uma doença contagiosa, ou, pior, como se eu fosse uma pobre solteirona que não conseguiu “dar um jeito na vida” e estava ali, pagando de independente. Se as pessoas que ainda pensam assim lessem mais livros de História ao invés de ver novelas e comédias românticas, veriam que Paris, enquanto capital da França, tem uma História fantástica por trás e um papel muito importante na sociedade ocidental como conhecemos hoje. Só para você ter uma ideia, nossa Constituição foi inspirada na francesa.

Como eu disse, foram inúmeras as vezes em que as pessoas ficavam “com pena” da moça sozinha na Europa. Eu aguentei bem, mas, lá pelas tantas, uma senhora de uns 45 ou 50 anos e carregada de sacolas de grife no ferry que nos levou à Inglaterra me tirou do sério. Quando eu disse que estava sozinha, ela me olhou com pena, sorriu e disse “coitadinha… mas não fica assim não, você é jovem ainda, vai encontrar um marido legal para fazer dessa uma viagem ótima!”. Ah, não. Assim não, né? Poxa, a viagem JÁ ESTAVA ótima! Certa de que eu nunca mais a veria, suspirei fundo e disse: “ah, mas na verdade, era para o meu marido estar aqui… não está porque eu o peguei com a nossa madrinha de casamento na nossa cama depois da festa. Terminamos tudo, mas, como a viagem já estava paga, quis vir assim mesmo”. Eu queria ter fotografado a expressão dela, juro.

Meus auto-retratos são sempre assim: com cara de lua. Tsc, tsc.

Meus auto-retratos são sempre assim: com cara de lua. Tsc, tsc.

Acredite ou não, a única coisa que me incomoda de fato em viajar sozinha é não ter como aparecer direito nas fotos. Sim, porque eu adoro fotografar e adoro estar nas fotos, o que é bem difícil de fazer sozinha (tendo um bom resultado). Então eu preciso contar com a boa vontade de um ou outro passante e torcer para não acontecer o mesmo que aconteceu quando, ao abordar um homem em frente à Igreja de Saint-Sulpice e pedir (em francês) para ele tirar uma foto minha, ele desviou apressado e disse “não, eu não tenho dinheiro”. Hein?  Estou até hoje tentando entender qual palavra eu usei que deu a ele essa ideia…





Os números de 2012 – o ano do engajamento

31 12 2012

Eu adoro esses relatórios do WordPress no fim do ano.

Esse de 2012 não trouxe muitas surpresas em comparação com 2011, mas fiquei feliz em ver que o big hit esse ano foi o meu post sobre a polêmica da laqueadura para mulheres solteiras. As dúvidas e opiniões nos comentários vieram mostrar que, no Brasil, muito se fala, mas pouco se discute de fato – enquanto isso, as mulheres pagam, e bem caro. E, detesto dizer, mas a tendência parece piorar, com o alastramento do discurso religioso fundamentalista – inclusive (e perigosamente) na política brasileira. Triste. Pelo menos o post rendeu uma ótima matéria no jornal Estado de Minas e várias menções em outros blogs, ampliando o debate.

Fora isso, as pessoas continuam vindo muito aqui em busca de modelos de cartões de natal para suas empresas e cartões para amigos com gatos. Se eu fosse fazer uma busca na web e cobrar por cada cartão copiado, eu seria rica, certeza. Apesar disso, a quantidade de visitas por esse motivo prova que, apesar d’eu não ser designer nem publicitária, tive sorte nos meus palpites da época de estagiária. #orgulhinho

Outras estatísticas que achei curiosas: meus textos sobre o Dia do Trabalhador (2011) e o terremoto no Haiti (2010) continuam sendo bastante acessados – tomara que isso signifique uma tomada de consciência geral; o Facebook e as buscas no Google continuam sendo a grande fonte de visitantes do site/blog; e tem aparecido muita gente da Europa, especialmente de Portugal, me lendo – talvez isso seja um sinal de que as terras d’além mar devam ser meu próximo destino europeu, ao invés da Grécia. Por falar nisso, os posts sobre minhas viagens para Paris e Londres, assim como as minhas impressões pré-viagem, continuam muito bem também, obrigada.

Dê uma olhada no material preparado pelo próprio WordPress:

Aqui está um resumo:

4,329 films were submitted to the 2012 Cannes Film Festival. This blog had 21.000 views in 2012. If each view were a film, this blog would power 5 Film Festivals! [4,329 filmes foram inscritos no Festival de Cannes em 2012. Esse blog teve 21.000 visualizações em 2012. Se cada visualização fosse um filme, esse blog teria abastecido 5 festivais!]

Clique aqui para ver o relatório completo

É isso aí – que 2013 seja bacana e inspirado!








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