Amor é verbo que exige coragem

30 03 2022

Sou Florentino Ariza andando em pleno século XXI, mas queria mesmo era ser Fermina Daza.

Florentino chegou a dizer ao pai de sua amada que seria uma honra morrer por amor – “Atire. Não existe glória maior do que morrer por amor”, ele disse, tranquilo. A paz de quem tem fogo dentro de si, mas quer ser consumido até o pó.

Mas Fermina… ela amava também, mas, quando viu que aquele amor não teria futuro (o futuro que queriam para ela), soube guardá-lo numa gaveta e viver o que estava disponível. O melhor que poderia ter naquele momento. E viveu suas lutas sem olhar para trás, porque sabia que aquela era a caixa onde deveria caber agora. Fechou os olhos e se jogou. Sorveu daquilo até a lembrança do que houve ficar tão apagada que mal ocupava espaço na vida que tinha agora. “Florentino não é um homem. É uma sombra”.

Enquanto isso, Florentino vivia. Pela metade. “Minha vida é amar Fermina”. As 622 amantes que teve ao longo dos 51 anos, nove meses e quatro dias em que esperou por ela não puderam afogar todo o sentimento que ele manteve virgem por Fermina. Florentino também tentou caber na caixa que apareceu, mas ela tinha buraquinhos por onde apareciam uma foto, uma mecha de cabelo, um banco em frente a uma janela específica, conectada para sempre a uma lembrança, um sentimento que se aprende a sublimar porque não cabe no mundo das coisas que existem.

Como se tornar Fermina? Como sufocar com tanta altivez? Como se resignar com tanta classe, dedicação e disciplina? Como trancar um quarto tão querido no coração para que o resto da casa se torne habitável para si e para os outros? Como domar o mar revolto dentro de si para entregar o que esperam que você seja?

Gabo soube escrever sobre o amor que toca o foda-se e extrapola quando falou de José Arcádio e Rebeca, e soube escrever sobre o amor de Florentino e Fermina, que espera, paciente, em paralelo, o que ninguém sabe se virá e sequer acredita que seja possível. Mas teima em estar lá.

Tentamos afogar o que queima aqui dentro com bebida, beijos sem gosto, conversas sem sentido porém faladas em voz alta, gastos que nem desfrutamos, toneladas de horas-extras, notificações infinitas no celular, remédios, vícios e terapias bem propagandeadas mas com zero eficácia. O que Fermina realizou sem ter nem a dama de companhia como suporte, nós precisamos de ajudas infinitas para tentar conseguir. A gente só quer matar aquele capítulo para seguir vivendo, seja a que custo for.

Fermina e Florentino se amaram na virada do século XX e até hoje pessoas se sentam e choram pelas mesmas coisas. Porque queriam ser Fermina Daza, mas queimam por dentro como Florentino Ariza. A entrega dá medo e atrai julgamentos. Ridicularizamos nossos sentimentos porque sabemos que o preço é alto, muito, muito alto, para se pagar hoje em dia. É tudo tão corrido e ocupado, tem tanta coisa pra consumir – melhor ser blasé do que ser emocionado.

Mas cá, aqui dentro, bem entre nós: bom mesmo é ser Florentino Ariza. Bom mesmo é se consumir. É ficar embriagado. É ver tudo com outras cores e ter o dia mudado por um detalhe. Que se danem os julgamentos. Bater no peito com os braços abertos e dizer “atire aqui” frente a algo que se ama demais é de tanta coragem que não me espanta vermos tão pouco. Ser emocionado é bom demais, mas é solitário. O preço é alto, eu falei, por isso buscamos ser Fermina Daza a qualquer custo para termos paz e tentarmos descer e nos misturar, sumir na multidão.

(Créditos na imagem)

Eu queria aprender a ser Fermina, mas sou um Florentino perdido num mundo que rechaça os sentimentos que só se realizam em pares. “Tô nem aí se você não me ama!”; “Não dependa de ninguém!”; “Você se basta!”; “Seu único amor precisa ser você mesmo!” – mas estou sentado naquele banco buscando uma coisa que repudio. “Mas você precisa! Que bobagem! A vida é assim, não há tempo a perder!” – eu preciso é amar. Com tanta força que o tempo se torne irrelevante. Não existe tempo perdido em um amor que te alimenta e sacia seus dias.

“Love in the time of cholera” – Mike Newell, 2007

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Uma resposta

30 03 2022
lucaspinduca

Eu sou Florentino e acredito que morrerei sendo. Não tenho mais estômago para esta gente que vive de idealizações e vestindo um personagem, como se estivessem vivendo em stories no instagram.

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