Amor é verbo que exige coragem

30 03 2022

Sou Florentino Ariza andando em pleno século XXI, mas queria mesmo era ser Fermina Daza.

Florentino chegou a dizer ao pai de sua amada que seria uma honra morrer por amor – “Atire. Não existe glória maior do que morrer por amor”, ele disse, tranquilo. A paz de quem tem fogo dentro de si, mas quer ser consumido até o pó.

Mas Fermina… ela amava também, mas, quando viu que aquele amor não teria futuro (o futuro que queriam para ela), soube guardá-lo numa gaveta e viver o que estava disponível. O melhor que poderia ter naquele momento. E viveu suas lutas sem olhar para trás, porque sabia que aquela era a caixa onde deveria caber agora. Fechou os olhos e se jogou. Sorveu daquilo até a lembrança do que houve ficar tão apagada que mal ocupava espaço na vida que tinha agora. “Florentino não é um homem. É uma sombra”.

Enquanto isso, Florentino vivia. Pela metade. “Minha vida é amar Fermina”. As 622 amantes que teve ao longo dos 51 anos, nove meses e quatro dias em que esperou por ela não puderam afogar todo o sentimento que ele manteve virgem por Fermina. Florentino também tentou caber na caixa que apareceu, mas ela tinha buraquinhos por onde apareciam uma foto, uma mecha de cabelo, um banco em frente a uma janela específica, conectada para sempre a uma lembrança, um sentimento que se aprende a sublimar porque não cabe no mundo das coisas que existem.

Como se tornar Fermina? Como sufocar com tanta altivez? Como se resignar com tanta classe, dedicação e disciplina? Como trancar um quarto tão querido no coração para que o resto da casa se torne habitável para si e para os outros? Como domar o mar revolto dentro de si para entregar o que esperam que você seja?

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Bem vindo à minha ficção IV: Querida Moyra

15 06 2016

meu-gato-e-sabio-de-noite-se-enrosca-nos-minhas-pernas-e-consegue-se-aquecer-na-sombra-de-aimara-schindler-frase-2900-9896

Junho. 2016, A.D.

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Querida Moyra.

Há quanto tempo não nos vemos? Acredito que há muitos meses… não, anos.

Mas o que são anos ou meses para criaturas como nós? Nada mais que horas para essas pessoas que vemos todos os dias pelas janelas e esquinas, talvez. Mas enfim – sinto sua falta. Sinto falta de nossas longas conversas sobre coisas que só nós nos lembramos e compreendemos. Coisas que só nós temos condições de conversar, por termos uma visão completa do quadro – por já termos visto seu princípio e seu fim.

Onde você está agora? Você ficou aqui tão pouco tempo! A única coisa boa que enxerguei depois que me recuperei de sua rápida e marcante passagem é que senti algo, o que eu chamaria de algo bom. Creio que estava desacostumado com essa sensação, enferrujado todo esse tempo, por isso custo tanto a definir. Foi estranho, mas eu gostei. Enfim. Continue lendo »








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