Assisto novela sim, me deixa

5 07 2018

De tempos em tempos, uma das coisas mais prazerosas do meu dia é recostar na minha cama, ligar a TV e assistir à novela da vez na última faixa de horário.

Ator Emilio Dantas faz cantor de axé protagonista na novela 'Segundo Sol'

Beto Falcão tá vivo sim, como não?

Pode criticar, eu não ligo. Eu fazia a mesma coisa até relativamente pouco tempo atrás, te entendo.

À parte a discussão sociológica da influência das novelas na percepção das pessoas sobre isso ou aquilo na sociedade, ver novela me relaxa. Sou jornalista e, depois de um dia inteiro lendo todo tipo de desgraça anunciando o apocalipse na economia, na saúde, no mundo e nas relações humanas, eu dou graças por poder escapulir disso assistindo takes cuidadosamente coloridos por computador das praias da Bahia. É como meditação: as imagens vão passando e, no final, me sinto leve e sossegada.

Jornalista, esse “arauto da verdade”, assistindo novela é um contrassenso, uns dirão; pois eu digo que as pessoas são uma miríade de contrassensos e às vezes é isso que nos mantém sãos, que nos lembram que somos humanos, reais. Continue lendo »

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A reunião dos Alisados Anônimos

26 09 2013

placa_AlisAnO barulho das cadeiras se arrastando na sala para e o anfitrião começa:

– Boa noite a todos. Para quem está aqui hoje pela primeira vez, somos um grupo de cabelos que quer deixar o vício em alisantes e tratamentos afins. Nós trocamos experiências para nos fortalecer e nos ajudarmos uns aos outros. Sejam todos bem vindos a nossa reunião.

Murmúrios respondendo ao “boa noite” do anfitrião são ouvidos pela sala e ele retoma a palavra, apontando para um novato sentado na cadeira oposta à sua na formação em círculo:

– Vejo que você está vindo pela primeira vez – gostaria de se apresentar ao grupo?

O novato se ajeita na ponta da cadeira, meio sem jeito, e começa a falar: Continue lendo »





James Bond, o traíra educador

14 02 2013

Qual a relação entre o agente 007 e a criação de meninos hoje em dia? Eu achei uma.

JAMES_BOND_TRAIRA

Sou fã de James Bond e há algum tempo comprei uma caixa com 23 filmes dele (minha melhor aquisição dos últimos anos, diga-se de passagem). Meu filho de oito anos, curioso, me perguntou tudo que pode sobre o agente mais famoso do mundo e quis assistir os filmes comigo. De férias em casa, fui selecionando os que eu considerava mais “leves” e assistíamos a noite.

Um dia ele escolheu “007 contra o Homem com a Pistola de Ouro” e foi ver com o avô. Relaxei – “esse é um dos filmes mais tranquilos do 007”, pensei – e fui ler no meu quarto. No entanto, qual não foi a minha surpresa quando ele entrou p* da vida porta adentro gritando Continue lendo »





A “profissão mais antiga do mundo” também é profissão

31 01 2013

[gostaria de não levantar polêmicas – por pura preguiça – mas… é um risco que se corre]

Tenho acompanhado a discussão e a histeria geradas em torno do projeto de lei do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) – também conhecido como Lei Gabriela Leite – que regulamenta o exercício da prostituição no Brasil e, devido a tudo que já vi sobre grupos historicamente marginalizados e sempre pré-julgados (obrigada, estágio no Conselho Regional de Psicologia-MG), quis dar minha humilde opinião também.

Jean Wyllys

Jean Wyllys chocou ao dizer que 60% dos parlamentares contratavam prostitutas. Mas quem é que ainda tinha alguma dúvida disso?

Na verdade, não é bem uma opinião, é mais uma pequena introdução a um texto muito bom da Monique Prada, ela mesma profissional do sexo, a respeito do tema. Continue lendo »





Quem tem medo do Rio de Janeiro?

5 06 2011

Quando soube que cobriria um evento em um hotel no Centro do Rio de Janeiro, minha primeira reação foi pensar em como me proteger da propalada violência urbana da capital carioca. Antes disso, eu só tinha ido ao Rio duas vezes, sempre fora do centro e sempre de carro, indo só aos lugares para turistas, digamos (mas não conheço o Cristo Redentor até hoje) – e como lá o bicho já pegava, achava que no Centro a coisa seria pior. Continue lendo »





O Monteiro Lobato que eu não conhecia

22 11 2010

Eu já li vários livros de Monteiro Lobato e cresci com a turma do Sítio do Pica Pau Amarelo na minha estante, que reli muitas vezes. Sempre gostei das histórias e nunca entendi direito porque a literatura de Lobato não era adotada com mais frequência nas escolas brasileiras, em se tratando de livros legitimamente brasileiros e com tantas referências ao nosso folclore.
Tento isso em vista, minha primeira reação à polêmica sobre a adoção de Caçadas de Pedrinho no ensino público pelo fato do livro conter racismo foi pensar “ah, gente, pelamordedeus, é só um livro para crianças”. Mas logo depois pensei “peraí, preciso ler sobre isso melhor, porque algum motivo, depois de tantos anos [o livro é de 1933], deve ter”. Comecei a me informar, mas, confesso, ainda não entedia a questão em sua plenitude. Como assim Monteiro Lobato é racista? E o Saci? E a Tia Nastácia? E o Tio Barnabé? Estão todos lá e todos têm papéis importantes nas histórias, como assim? Eu não conseguia enxergar.
Mas eis que, depois de ler o texto brilhante da escritora Ana Maria Gonçalves, publicado no blog O Biscoito Fino e a Massa e encaminhado a uma lista de discussão da qual participo pela Érika Pretes, eu descobri porque não entendia a causa da celeuma. O primeiro motivo é que tem muito tempo que eu li Caçadas de Pedrinho – eu devia ter uns 10 ou 11 anos, logo, estava totalmente alheia às misérias desse mundo no que concerne à discriminação e crimes de ódio. Dia desses até tentei entusiasmar meu filho de seis anos para lermos juntos e eu relembrar a história, mas ele não se interessou… e talvez tenha sido melhor assim. O segundo motivo é que eu não tinha pensado nas conexões possíveis entre o livro, o racismo no Brasil e as crianças que o leriam, especialmente as crianças negras. Como a autora diz, o caso não é o que VOCÊ pensa e lembra do Monteiro Lobato, mas o que AQUELAS crianças sentirão ao ter em cima delas os olhos dos colegas ao ouvirem termos como “carne preta” (isso está no livro).
O texto de Ana Maria abriu meus olhos para isso tudo, ao contextualizar Caçadas de Pedrinho com a época em que ele foi escrito e com o posicionamento de Moteiro Lobato sobre o lugar dos negros na sociedade. Eu não imaginava nada daquilo e foi uma decepção muito grande para mim saber que meu autor preferido na infância era um racista de carteirinha e, pior, expressava essas idéias pela boca da boneca Emília, tão adorada por muitos da minha geração. Não vou retirar o mérito de Lobato pelas suas obras, mas agora não vou mais conseguir vê-lo com os mesmos olhos.
Sempre me causa indignação pensar que em pleno 2010 ainda possam haver manifestações de racismo (e todos os outros tipos de intolerância e crimes de ódio) nesse país. Me assutam demais as últimas notícias e, sinceramente, o sentimento de impotência é grande: como saber se estamos fazendo a nossa parte para extinguir esses comportamentos? Como saber se meu filho está entendendo que somos todos iguais e que discriminação é a coisa mais triste que existe? Espero ter respostas positivas com o passar do tempo.

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Pegando carona no assunto, compartilho o vídeo postado no Facebook pelo amigo e jornalista Roberto Reis sobre as manifestações homofóbicas no Twitter assim que a hashtag #HomofobiaNao alcançou os trending topics brasileiros. Ao assisti-lo, lembrem-se que poucas semanas antes o alvo eram os nordestinos, com uma enxurrada de tweets preconceituosos na rede logo após as eleições. É triste ver a humanidade regredir assim.

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Não basta apoiar, tem que conhecer [ou] #FAIL pra mim

28 07 2010

Semana passada, mais precisamente na quarta-feira, 21, fui ao lançamento do Manual de Comunicação LGBT lá no Sindicato dos Jornalistas. O lançamento foi uma das atividades da Semana BH Sem Homofobia, que acontece todos os anos e culmina com a Parada do Orgulho LGBT de Belô. Fui por me acrescentar conhecimento como jornalista, pelo trabalho que faço com o Gudds! e por acreditar na luta LGBT por direitos e cidadania.

Além do lançamento, foi feito um seminário com um pesquisador que acompanhou os jornais O Globo e Folha de São Paulo por seis meses, para apurar a relação desses veículos com a representação dos homossexuais – aliás, a matéria sobre o lançamento e o seminário está aqui. Além do pesquisador, também estavam na mesa outras três pessoas que falaram sobre o mesmo assunto, grande mídia versus representação LGBT.

Eu me considero uma apoiadora da causa LGBT, apesar de não ser lésbica – aliás, preciso desabafar: acho um saco ter sempre que repetir que a gente não precisa ser homossexual para defender os direitos deles, basta ter respeito, bom senso e empatia pelo próximo. Ou por acaso eu também preciso ser presidiário para defender um tratamento digno para essas pessoas? Não. Mas aprendi, durante o seminário, que não basta eu dizer que apóio, eu preciso aprender mais sobre as particularidades do movimento LGBT no Brasil.

Sim, colegas, estou fazendo um mea culpa. E não pensem que isso é fácil para mim, pois como boa virginiana que sou, não gosto de errar e nem gosto de admitir ignorância nos assuntos que me interessam. Mas fato é fato: durante o debate, após o seminário, acabei cometendo uma gafe digna de apedrejamento ao criticar a participação do Serginho (ex-BBB) no programa Zorra Total. Eu disse que o quadro não acrescentava nada à luta LGBT, que apresentava o gay como algo estereotipado e caricatural e que, por mim, aquilo deveria ser retirado do ar.

O problema é que, mais uma vez, eu não me expliquei direito. Daí, ficou parecendo que eu estava dizendo que o “caricatural” e “estereotipado” que não acrescentava nada à luta era o jeito afeminado (ou delicado, como os participantes disseram) do Serginho. Em troca, tive que ouvir que esse tipo de idéia era “policialesca” e “discriminatória” e que todo gay ou lésbica tinha o direito à sua aparência, fosse feia, bonita, afeminada ou masculinizada. É claro que eu concordo com isso, mas, àquela altura, com que cara eu levantaria a mão e diria “erm, pessoal, não foi bem isso que eu quis dizer, na verdade…”? É, #FAIL pra mim.

Acho que só não foi pior porque as falas não foram direcionadas para mim, mas sim para todos, como uma exposição mesmo. Me senti muito constrangida, mas mantive a cabeça erguida, porque não é isso que me incomoda no quadro do programa de TV, mas sim a perpetuação dessa idéia na mídia de que todo gay é fútil e escandaloso. Isso eu não engulo. Mesmo assim, saí do evento me sentindo mal, pra não dizer burra mesmo. Como é que eu me deixei trair pelas minhas próprias palavras? Distorci tudo sem querer.

O que me consola é que muita gente ali já me conhecia de certa forma (me chamavam de “a Janaina do Gudds”), por causa do trabalho da Comunicação no ENUDS 7 e pela repercussão do Twitter e do atual blog do Gudds!, que mantenho com o maior carinho e com muito orgulho, porque todo dia eles me mostram que mesmo tendo a voz cerceada nas grandes mídias, é possível se fazer ouvir – e muito bem – por outros canais com um bom feedback.

Acabei ganhando um exemplar impresso do Manual (a versão online você baixa aqui) e tenho certeza que ele vai me ajudar a melhorar minha atuação nessa área. Fora isso, é ler mais, aprender mais, ouvir mais e me policiar para não dar mais bolas fora como essa, porque né? Ninguém merece.








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