Todo amor é coisa séria

3 11 2019

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Todo mundo gosta dessa frase do Pequeno Príncipe, né? Muita gente a tatua, coloca no status do WhatsApp, na bio do Facebook ou do Instagram, nas selfies sem assunto. Mas a verdade é que pouca gente sabe seu real significado e se importa de fato em ser responsável pelo amor que desperta nos outros.

Estou falando de um amor muito mais puro, intenso e desinteressado do que o de pessoas; estou falando do amor dos nossos bichos. Melhor dizendo, daquele que ainda nem é bicho de ninguém, daquele que está exatamente à espera de sua cara-metade, de um humano pra chamar de seu.

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Conheço muitas pessoas que resgatam, cuidam e doam animais. Acompanho o trabalho delas e as admiro profundamente por se doarem a uma causa que custa muito tempo, dinheiro, desgaste emocional e não dá nada em troca, a não ser o alívio por ter salvo uma vida que não tinha mais nada a que se agarrar. Essas pessoas, que muitas vezes não têm sequer a ajuda da família para fazer isso, se dividem entre pagar as próprias contas e se dedicar a seus animais, mas o amor que carregam dentro de si fala sempre mais alto.

Estive envolvida em um resgate recentemente. Meu filho viu uma gatinha vagando na escola, magra, ferida e faminta, no meio de adolescentes sádicos que sentiam prazer em vê-la correr deles, assustada, depois de receber um chute ou um grito ao invés de comida ou carinho. Desesperado, ele a levou para um lugar seguro e me ligou, implorando para eu fazer alguma coisa.

Naquela hora, no trabalho, o que pude fazer foi acionar uma amiga protetora que foi lá mais tarde e a buscou. A situação da pobrezinha era mesmo grave: muito magra, suja, com marcas de tiros de chumbinho e uma grande ferida na pata que poderia ser um atropelamento, além das tetinhas cheias de leite empedrado, o que sugere que ela teve filhotes, alguém sumiu com eles e a pôs pra correr de onde ficava na base da bala. De cortar o coração. Mas o que mais me machucava era ver que, apesar de tanto sofrimento, de tanta maldade humana, a gatinha ainda confiava em gente e se esfregava em qualquer mão, com aquele olhar de quem diz “olá!” sem nunca esperar o mal de outrem.

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Olá! Essa é a minha casa?

“Ain, porque não deixou lá mesmo? Gatos se viram, bicho de rua sempre dá um jeito”. Se você já parou para olhar para algo mais além do celular nessa vida, já viu que isso é mentira. Eles não se viram, eles sobrevivem da pior maneira possível, sem poder sequer dormir com a certeza de acordar. Sabe aquele cachorro que revirou seu lixo e você desejou que morresse? Foi um desses que você achou que se viraria. E, não sei você, mas a partir do momento em que sou solicitada a ajudar numa situação dessas, se eu posso fazer, eu faço; não suporto ser cúmplice de algo pior por ter me omitido.

O processo de recuperação da mocinha, que ganhou o nome de Janinha, foi demorado: exames veterinários, remédios para secar o leite empedrado, pomadas para curar as feridas, comida e água fartas para ela se fortalecer, um lugar seguro para ela descansar e castração. Agora era hora de curar a ferida do coração procurando uma casa amorosa para ela viver.

Esse é um processo ainda mais difícil do que sarar os machucados do corpo. Não são muitas as pessoas que têm uma casa segura para um gato e estão dispostas a adotar um felino adulto, sem raça e vindo da rua. A maioria dessas já tem pelo menos um gato e não quer outro, seja por espaço, pelas correrias da vida, pelo custo – que sim, existe, se você quer ter um animal com responsabilidade -, ou por ter mais gente morando na casa que não concorda com outra adoção. Mas começamos, divulgando no Facebook, no WhatsApp, no Instagram, junto aos amigos, com cartazes…

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Até que a nossa resgatada teve sorte: em pouco tempo apareceu o primeiro interessado. Casa grande, dona amorosa, e uma gata já idosa. Ela chegou na casa nova do mesmo jeito que foi resgatada: se esfregando em todo mundo e com aquele olhar amistoso de “Oi! Vou ficar aqui, tá?”. Infelizmente, a gata idosa e ela não combinaram e ela foi para um lar temporário. Optamos por não insistir além do que a adotante já tinha insistido, pois o stress para a senhorinha felina de 16 anos não seria nada saudável. Ok, vamos continuar procurando.

Apareceu então outra pessoa. Recém-chegada a Belo Horizonte e com um gato jovem que se sentia sozinho, por isso ela queria adotar outro. Animadas, conversamos bastante com ela e agendamos a entrega. Nossa gatinha chegou nessa outra casa com a mesma animação de sempre: entrou como se já conhecesse tudo e logo estava ronronando no sofá. Casa grande, toda telada… Respiramos aliviadas e fomos cuidar das nossas vidas, mas… três dias depois, recebemos a triste notícia de que ela novamente seria devolvida.

O que poderia ser? Nem tinha dado tempo dela explorar a casa…! Sequer conhecer o outro colega direito! E era esse mesmo o problema: o adotante não teve paciência. Não entendeu que os gatos, diferente dos cachorros, têm personalidades únicas, são extravagantes, cheios de amor próprio e amor para distribuir sem medida, mas exigem seu tempo e seu espaço. Essa é uma das primeiras coisas que aprendemos ao nos apaixonarmos por um felino. Conversamos com a pessoa, explicamos… mas ela não quis mesmo aprender, não quis dar tempo para isso.

Adocao 3Fui buscá-la e novamente meu coração se partiu ao vê-la sair tranquilamente pela porta da casa para me receber com o mesmo olhar amistoso de “oi! Bem-vinda à minha casa!” – mal sabia a pobrezinha que a próxima casa dela seria, novamente, uma caixa de transporte, e, depois, outro lar temporário. Conversei de novo bastante com a pessoa, que até se mostrou meio arrependida da escolha – mas, honestamente, não lembro sequer uma palavra da conversa. O que eu lembro foi da dificuldade para colocar a Janinha na caixa, da resistência dela enquanto olhava ao redor sem entender nada. Para mim, um misto de raiva, de dó, de tristeza. Fazer o que, né.

A Janinha foi para outro lar temporário com uma pessoa que está adorando a companhia dela, e que, no fim, peitando tudo e todos, tornou-se a família eterna que ela tanto queria e precisava. Está lá como sempre esteve em todos os lugares, agindo de forma doce e amistosa, dessa vez muito querida e bem-vinda. Trata os humanos como ela gostaria de ser tratada. Pena que esse final feliz ainda não é regra.

Essa história é a história de milhares de outros animais que esperam uma família e acham que encontraram cada vez que entram em uma caixa de transporte. Do amor que carregam consigo cada vez que chegam em uma casa nova e não sabem o que aconteceu quando precisam ir embora. De como a cada viagem renovam suas esperanças, de novo, de novo e de novo. É de uma tristeza sem fim assistir isso e ainda falta muito para um humano entender esse amor.

Talvez por essa falta de compreensão as devoluções sejam tão frequentes. A capacidade de amar e de se entregar não é para todos – os animais a conhecem bem, a gente ainda tem muito chão para andar até aprender. Enquanto isso, nós, seres ditos “pensantes”, poderíamos ao menos exercitar a responsabilidade, a empatia, o cuidado com esse amor que despertamos tão fácil e descartamos ao menor sinal de contrariedade.

Amar é para poucos. Chegar lá é para poucos, querer chegar lá quase ninguém quer. Ninguém quer ser responsável pelo que cativa. Para muita gente, muita mesmo, a frase do príncipe só é bonita legendando fotos na internet.

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(Imagem: Prefeitura de Francisco Morato – SP)





Notas de viagem: os mendigos de Paris

26 06 2012

Paris, ah, minha Paris…

Estive lá de férias em novembro do ano passado e até hoje as fotos que ficam se revezando no meu desktop me arrepiam e enchem de nostalgia. Não sei explicar: foram só quatro dias, mas foi como se eu pertencensse à Cidade Luz, como se ali fosse a minha casa.

Mas o que eu queria dividir com vocês foi uma particularidade que eu achei muito fofa e interessante na cidade – os mendigos. “Até mendigo em Paris tem glamour”, comentou uma amiga em uma das fotos no álbum da viagem no Facebook – eu ri. Realmente, os mendigos lá tem um “quê”: seja pelas plaquinhas pedindo ajuda, pela tranquilidade no sorriso estampado no rosto ou seja pelos animais que sempre os acompanham. Continue lendo »





Uma história de Londres: o polonês defensor dos animais

27 02 2012

Semana passada escrevi sobre as iniciativas para promover o respeito e a proteção aos animais, daí me lembrei dessa história, que aconteceu quando eu andava pela Strand Street, em Londres.

Ano passado, nas minhas férias, fui passar uns dias em Paris e Londres. Nas duas cidades, uma coisa que me chamou muito a atenção foi a total ausência de animais soltos nas ruas. Mesmo com seus donos, vi pouquíssimos – a não ser com os mendigos de Paris, que sempre tinham um cachorro, gato ou coelho(!) consigo em seus tapetes nas ruas – mas isso eu conto depois.

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Aliás, ÚNICO gato que vi em Londres, morador da Greenwich University. Muito falante, ele tinha na coleira uma plaquinha: “Não me alimente. Se me encontrar, ligue para (telefone)”

Achei curioso, mas essa ausência era uma coisa que eu já esperava, posto que os europeus têm uma visão muito diferente da nossa quanto a animais de estimação. Lá, “estimação” tem o sentido literal da palavra – os bichos são tratados como membros da família, no que tange a cuidados e responsabilidades dos donos. São mais respeitados do que aqui, e quem não cuida bem deles recebe a devida “puxada de orelha” das autoridades. Continue lendo »





Animais, animais!

20 02 2012

Ok, admito que esse é um dos trocadilhos mais infames de que se tem notícia, mas a causa é nobre. Estou falando das recentes conquistas dos protetores de animais Brasil a fora no que tange à leis e protestos contra a crueldade que pipoca dia após dia na mídia: cães arrastados pelos próprios donos, gatos mortos para servirem de ingredientes em rituais de gosto (e eficácia) duvidoso, cavalos e afins atados à carroças até morrerem de exaustão sob o jugo do chicote, pássaros contrabandeados das formas mais incríveis possíveis e onças mortas em safaris clandestinos em fazendas do interior (nunca tive coragem de assistir aos vídeos).

Manifestantes tomam a avenida Paulista, em São Paulo, em 22 de janeiro (foto: Estadão)

Manifestantes tomam a avenida Paulista, em São Paulo, em 22 de janeiro (foto: Estadão)

Nos dois últimos exemplos que citei, ainda temos a vantagem da mídia pegar pesado e de haver leis que protegem os animais selvagens e em extinção. Mas Continue lendo »





Cat Lovers Day!

29 09 2010

Oh, yes!

Hoje foi o dia escolhido para homenagearmos os bigodes de todo mundo, o #CatLoversDay! Se você não entendeu, entre aqui e leia, está sendo divulgado em várias redes sociais – e pare de me olhar com esse nariz torcido, porque todo mundo já sabe que EU SOU GATEIRA e com muito orgulho! 😉

A vida sem um bichinho de estimação, seja gato ou cachorro, é muito sem-graça… afinal, quem é que te recebe sempre feliz e com saudades depois do trabalho, independente do seu humor? Como contribuição ao Cat Lovers Day, separei umas fotos de gatos que são e foram especiais na minha vida. Foram taaaaantos… brancos, pretos, amarelos, escaminhas, tigrados, cinzas, tartaruguinhas, malhados… lembro-me de todos, apesar de não ter todas as fotos.

Os donos da casa

Hoje são dois os peludos que mandam aqui em casa. Bruce, que chegou primeiro, há uns três anos, e Manteiga, que adotei em agosto – ambos já são estrelas no Flickr! Desde a chegada do Manteiga eu tenho praticado mais os conceitos de posse responsável, que conheci melhor depois que me assumi gateira de carteirinha. Os dois são castrados, vacinados, vermifugados, dormem dentro de casa, a salvo de brigas, atropelamentos, cachorros, maldades e doenças, só comem ração, têm uma caixinha de areia e vão ao veterinário sempre que necessário. O resultado é o melhor possível: dois gatinhos gordos, saudáveis, bem-humorados e brincalhões, que me esperam voltar do trabalho todo dia e estão sempre me seguindo e “conversando”. O bom de se tomar todas as providências quando se tem um animal em casa é que ele pode ser efetivamente um “membro da família”, podendo até conviver numa boa com crianças – meu filho que o diga. =)

Bruce, o meu Chitos, meu xodó. Apareceu aqui em casa machucado e resolvi ficar com ele. Virou um gatão grande e gordo que me espera voltar do trabalho e me segue por todo canto. Já temos nossos "códigos" e, às vezes, basta um "miau" para eu saber o que ele quer ❤

Manteiga acabou de chegar, mas já age como dono. No mesmo dia em que o adotei, ele já expulsou todo mundo da cama - mas era só fachada, porque nunca vi gato tão carinhoso! A única coisa que eu ainda não aprendi a lidar é mania dele de miar até me convencer a dormir e depois miar até me acordar (às 6h da manhã!)

Boas lembranças e saudades

Foram dezenas, quiçá centenas de gatos que já passaram pela minha vida. Muitos sumiram, foram envenenados ou roubados – daí a importância da posse responsável e dos cuidados com eles – se naquela época eu já soubesse de tudo que sei hoje sobre ter e manter um gato, as coisas teriam sido diferentes e eu teria vários “velhinhos” aqui esquentando meus pés. Eu convivo com gatos desde criança – aliás, desde antes de nascer! Minha avó já tinha gatos, minha mãe herdou dela o gosto por eles e quando ela se casou tinha um amarelo que morava lá em casa (meu pai nunca gostou, mas ele não maltrata e até alimenta se precisar). Ela conta que ele gostava de ficar no colo dela enquanto ela costurava. Quando nós nascemos ele ainda estava lá e, segundo o “álbum de família”, ele ficava escondido esperando quando eu ou minhas irmãs passássemos engatinhando ou ensaiando os primeiros passos para ele pular em cima nos dando um grande susto – rs!

Isso tudo foi moldando o meu amor pelos bichos, inclusive cachorros – e para quem ainda tem aquele pensamento maniqueísta de que quem gosta de um não pode gostar do outro, eu gosto de cães, só prefiro não ter em casa hoje em dia. Quando eu era criança, queria ser veterinária. Mesmo ficando de coração partido quando via os gatinhos sofrendo, eu fazia de tudo para tentar resolver os problemas deles. Eu sempre levava todos que achava na rua para casa e contava com a minha avó para ficar com eles – até “amansadora” de gatos eu fui! As cicatrizes que tenho nas mãos até hoje provam que eu era corajosa: não tinha gato bravo que eu não encarasse. Onde quer que ele aparecesse, lá estava eu subindo em algum lugar para tentar alcançá-lo, dar comida e ver se não estava machucado. Com o tempo eu desisti da profissão, mas não dos gatos – nós crescemos e eles sempre juntos, indo em cada mudança, muitos ou poucos, adultos ou filhotes. Tenho lembranças boas de todos… separei umas fotos de alguns que marcaram:

Theodoro foi o gato mais lindo e mais manso que já vimos. Até quem não gostava de gatos era conquistado por ele e sua mania de rolar para as visitas. Era tão mansinho que foi roubado.

Essa era a Tuata. A encontrei no meio da rua a noite, tão fraca que nem conseguia andar. Era tão pequena que só percebi que era um gato porque pessoas faziam sinal na rua para que os carros não a atropelassem - quando diminuí a velocidade e percebi o que era, pedi para me darem a gatinha, que era uma fofa com um olho verde e outro azul. Um xodó, mas morreu duas semanas depois sem sabermos porque.

Padreco. O nome original era Amaro, devido ao livro do Eça de Queiroz. Gordo e dorminhoco, simplesmente desapareceu daqui de casa.

A Catita - ou Cacá - viveu conosco 17 anos e era a prova viva de que não tem essa de que gato gosta é da casa: em três mudanças, ela sempre veio conosco. Era mais gente do que gato e morreu de velhice.

Capitu, a princesa. Linda e aristocrática, tivemos que optar pela eutanásia devido a um câncer de pele que se espalhou depressa demais.

Esse era o Simba, um gatão enooorme e macio, que nasceu aqui mesmo. Infelizmente o coitadinho foi envenenado por um vizinho maldoso.

Esses gêmeos foram colocados na nossa porta uma noite e ganharam os nomes de Ding e Dong. Faziam tudo juntos e foram doados também juntos, não lembro mais para quem. Vamos considerá-los representantes das dezenas de gatos preto-e-brancos que já passaram por aqui. =)





Feliz Natal com bom-humor

1 01 2010

Eu sei que o Natal já vai longe e que já estamos em 2010 há quase dois dias, mas eu só descobri esse vídeo divertidíssimo no YouTube hoje e eu simplesmente TINHA que compartilhá-lo de mais formas, além do Twitter e dos meus favoritos no site.

Por isso, divirtam-se com os animais falantes do YouTube (incluindo Jupiter, a estrela do vídeo What cats are really thinking e de outros hilários) desejando um feliz natal a todos. Ah, e aproveitem para explorar o canal Talking Animals, de onde tirei esse vídeo – eu recomendo!

A propósito, feliz natal e feliz ano novo (atrasado) a todos e todas, que possamos sempre nos tornar pessoas melhores e mais tolerantes, que possamos sempre fazer o bem para colher o bem. =)








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