O amor faz o que quer; você que se vire

29 09 2021

Quisera a gente que o amor se explicasse por teoremas, que fosse como a matemática.

O que faz com que a gente se apaixone por esta ou aquela pessoa?

Porque a “Quadrilha” de Drummond ainda é mais comum do que o encontro com a reciprocidade?

Porque a gente não consegue se apaixonar por quem a gente deveria, racionalmente, se apaixonar? Gostar só de quem gosta da gente? Gostar de quem reúne as condições ideais para o sentimento nascer, crescer e seguir saudável e longevo?

E porque não conseguimos nos desapaixonar, mesmo quando cada pedra da rua sabe que aquela história não tem condições de existir?

A ciência pode tentar, todas as teses de doutorado do mundo podem esmiuçar isso, podemos gastar horas e horas de TED da vida debatendo, que a conclusão real é que o amor faz o que bem entende – e você que se vire.

Os psicólogos diriam que buscamos no outro o que nos falta e, quando o outro vai embora, é essa parte que a gente vê saindo das nossas vidas, por isso dói. Os amigos possivelmente diriam que é carência, e dói porque a perspectiva de estar sozinho é dura. A mãe da gente diria que “é assim mesmo, e isso também vai passar”, mas dói porque a gente não queria que passasse, a gente queria que nunca tivesse acabado – as mães nunca erram, mas as profecias delas costumam levar tempo para acontecer.

Se pelo menos a gente descobrisse o ponto “x” das paixões! O ponto exato em que a pessoa vira uma única pessoa para você! Era só chegar lá e apagar, desfazer, desdizer, desmistificar.

Foi um sorriso? Foi o tom da voz? Foi o corpo? Foi a cor dos olhos, do cabelo, o corte da barba? Foi o jeito que ela fala dos planos dela? Foi a risada? Foi a forma como ele passa a mão na nuca? Foi o jeito com que ela abotoa a presilha do sapato?

A gente não sabe nada e fica preso nesses pedacinhos de cenas que podem ser extremamente comuns, mas passam a se referir apenas àquela pessoa.

Teve uma vez em que eu me apaixonei por um cara. A gente não tinha nada a ver em praticamente nenhum ponto – quem visse os dois juntos iria achar que era uma miragem, porque não tinha como conectar um com o outro.

Mas o diabo mora nos detalhes, né.

A forma decidida como ele andava era magnética para mim. O jeito com que ele abria os braços e falava “uai, fulano! ” com uma risada era só dele. O corte de cabelo tão comum ficava bom só nele.

Um dia a gente estava batendo papo e ele recostou no sofá e colocou a mão atrás da nuca, fechou os olhos, fez uma pausa, suspirou, e continuou conversando com um sorrisinho de canto na boca. O diabo me deu uma grande cutucada aquele dia, porque eu nunca esqueci essa cena tão prosaica.

Eu não sei mais do que a gente estava falando, não sei que dia era, não sei nem porque ele estava lá em casa – mas, naquele exato momento, aquela combinação de movimentos virou uma pintura na minha memória. Eu sinto uma paz e uma ternura profundos ao lembrar desse pedacinho de tempo.

Eu tive que me desapaixonar por esse cara e foi uma das coisas mais difíceis que eu já tive que fazer na vida, uma das escolhas que mais me doeram.

O problema era exatamente esse: minha ‘eu razão’ dizia que era a decisão certa, e me apresentava argumentos irretocáveis para isso, mas a ‘eu sentimento’ queria desesperadamente reviver ele recostado no sofá de novo e ela também estava coberta de razão.

Devia ter como resetar o processo de gostar de alguém para a gente poder gostar diferente, gostar do jeito que dói menos no final, de um jeito que acaba rápido e sem muita coisa para arquivar depois. Ou simplesmente evitar o ponto “x” e nem começar a gostar.

Mas, ao mesmo tempo que a gente quer esquecer, a gente quer lembrar.

A gente quer, desesperadamente, se agarrar a cada memória e briga muito, até sem querer, para ela não sumir.





Todo amor é coisa séria

3 11 2019

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Todo mundo gosta dessa frase do Pequeno Príncipe, né? Muita gente a tatua, coloca no status do WhatsApp, na bio do Facebook ou do Instagram, nas selfies sem assunto. Mas a verdade é que pouca gente sabe seu real significado e se importa de fato em ser responsável pelo amor que desperta nos outros.

Estou falando de um amor muito mais puro, intenso e desinteressado do que o de pessoas; estou falando do amor dos nossos bichos. Melhor dizendo, daquele que ainda nem é bicho de ninguém, daquele que está exatamente à espera de sua cara-metade, de um humano pra chamar de seu.

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Conheço muitas pessoas que resgatam, cuidam e doam animais. Acompanho o trabalho delas e as admiro profundamente por se doarem a uma causa que custa muito tempo, dinheiro, desgaste emocional e não dá nada em troca, a não ser o alívio por ter salvo uma vida que não tinha mais nada a que se agarrar. Essas pessoas, que muitas vezes não têm sequer a ajuda da família para fazer isso, se dividem entre pagar as próprias contas e se dedicar a seus animais, mas o amor que carregam dentro de si fala sempre mais alto.

Estive envolvida em um resgate recentemente. Meu filho viu uma gatinha vagando na escola, magra, ferida e faminta, no meio de adolescentes sádicos que sentiam prazer em vê-la correr deles, assustada, depois de receber um chute ou um grito ao invés de comida ou carinho. Desesperado, ele a levou para um lugar seguro e me ligou, implorando para eu fazer alguma coisa.

Naquela hora, no trabalho, o que pude fazer foi acionar uma amiga protetora que foi lá mais tarde e a buscou. A situação da pobrezinha era mesmo grave: muito magra, suja, com marcas de tiros de chumbinho e uma grande ferida na pata que poderia ser um atropelamento, além das tetinhas cheias de leite empedrado, o que sugere que ela teve filhotes, alguém sumiu com eles e a pôs pra correr de onde ficava na base da bala. De cortar o coração. Mas o que mais me machucava era ver que, apesar de tanto sofrimento, de tanta maldade humana, a gatinha ainda confiava em gente e se esfregava em qualquer mão, com aquele olhar de quem diz “olá!” sem nunca esperar o mal de outrem.

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Olá! Essa é a minha casa?

“Ain, porque não deixou lá mesmo? Gatos se viram, bicho de rua sempre dá um jeito”. Se você já parou para olhar para algo mais além do celular nessa vida, já viu que isso é mentira. Eles não se viram, eles sobrevivem da pior maneira possível, sem poder sequer dormir com a certeza de acordar. Sabe aquele cachorro que revirou seu lixo e você desejou que morresse? Foi um desses que você achou que se viraria. E, não sei você, mas a partir do momento em que sou solicitada a ajudar numa situação dessas, se eu posso fazer, eu faço; não suporto ser cúmplice de algo pior por ter me omitido.

O processo de recuperação da mocinha, que ganhou o nome de Janinha, foi demorado: exames veterinários, remédios para secar o leite empedrado, pomadas para curar as feridas, comida e água fartas para ela se fortalecer, um lugar seguro para ela descansar e castração. Agora era hora de curar a ferida do coração procurando uma casa amorosa para ela viver.

Esse é um processo ainda mais difícil do que sarar os machucados do corpo. Não são muitas as pessoas que têm uma casa segura para um gato e estão dispostas a adotar um felino adulto, sem raça e vindo da rua. A maioria dessas já tem pelo menos um gato e não quer outro, seja por espaço, pelas correrias da vida, pelo custo – que sim, existe, se você quer ter um animal com responsabilidade -, ou por ter mais gente morando na casa que não concorda com outra adoção. Mas começamos, divulgando no Facebook, no WhatsApp, no Instagram, junto aos amigos, com cartazes…

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Até que a nossa resgatada teve sorte: em pouco tempo apareceu o primeiro interessado. Casa grande, dona amorosa, e uma gata já idosa. Ela chegou na casa nova do mesmo jeito que foi resgatada: se esfregando em todo mundo e com aquele olhar amistoso de “Oi! Vou ficar aqui, tá?”. Infelizmente, a gata idosa e ela não combinaram e ela foi para um lar temporário. Optamos por não insistir além do que a adotante já tinha insistido, pois o stress para a senhorinha felina de 16 anos não seria nada saudável. Ok, vamos continuar procurando.

Apareceu então outra pessoa. Recém-chegada a Belo Horizonte e com um gato jovem que se sentia sozinho, por isso ela queria adotar outro. Animadas, conversamos bastante com ela e agendamos a entrega. Nossa gatinha chegou nessa outra casa com a mesma animação de sempre: entrou como se já conhecesse tudo e logo estava ronronando no sofá. Casa grande, toda telada… Respiramos aliviadas e fomos cuidar das nossas vidas, mas… três dias depois, recebemos a triste notícia de que ela novamente seria devolvida.

O que poderia ser? Nem tinha dado tempo dela explorar a casa…! Sequer conhecer o outro colega direito! E era esse mesmo o problema: o adotante não teve paciência. Não entendeu que os gatos, diferente dos cachorros, têm personalidades únicas, são extravagantes, cheios de amor próprio e amor para distribuir sem medida, mas exigem seu tempo e seu espaço. Essa é uma das primeiras coisas que aprendemos ao nos apaixonarmos por um felino. Conversamos com a pessoa, explicamos… mas ela não quis mesmo aprender, não quis dar tempo para isso.

Adocao 3Fui buscá-la e novamente meu coração se partiu ao vê-la sair tranquilamente pela porta da casa para me receber com o mesmo olhar amistoso de “oi! Bem-vinda à minha casa!” – mal sabia a pobrezinha que a próxima casa dela seria, novamente, uma caixa de transporte, e, depois, outro lar temporário. Conversei de novo bastante com a pessoa, que até se mostrou meio arrependida da escolha – mas, honestamente, não lembro sequer uma palavra da conversa. O que eu lembro foi da dificuldade para colocar a Janinha na caixa, da resistência dela enquanto olhava ao redor sem entender nada. Para mim, um misto de raiva, de dó, de tristeza. Fazer o que, né.

A Janinha foi para outro lar temporário com uma pessoa que está adorando a companhia dela, e que, no fim, peitando tudo e todos, tornou-se a família eterna que ela tanto queria e precisava. Está lá como sempre esteve em todos os lugares, agindo de forma doce e amistosa, dessa vez muito querida e bem-vinda. Trata os humanos como ela gostaria de ser tratada. Pena que esse final feliz ainda não é regra.

Essa história é a história de milhares de outros animais que esperam uma família e acham que encontraram cada vez que entram em uma caixa de transporte. Do amor que carregam consigo cada vez que chegam em uma casa nova e não sabem o que aconteceu quando precisam ir embora. De como a cada viagem renovam suas esperanças, de novo, de novo e de novo. É de uma tristeza sem fim assistir isso e ainda falta muito para um humano entender esse amor.

Talvez por essa falta de compreensão as devoluções sejam tão frequentes. A capacidade de amar e de se entregar não é para todos – os animais a conhecem bem, a gente ainda tem muito chão para andar até aprender. Enquanto isso, nós, seres ditos “pensantes”, poderíamos ao menos exercitar a responsabilidade, a empatia, o cuidado com esse amor que despertamos tão fácil e descartamos ao menor sinal de contrariedade.

Amar é para poucos. Chegar lá é para poucos, querer chegar lá quase ninguém quer. Ninguém quer ser responsável pelo que cativa. Para muita gente, muita mesmo, a frase do príncipe só é bonita legendando fotos na internet.

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(Imagem: Prefeitura de Francisco Morato – SP)





Bem vindo à minha ficção III: a moça vazia

23 07 2013

Como já falei aqui outras vezes, às vezes me arrisco no campo da ficção pura e simples.

Eis algo do tipo, com um tema sobre o qual gosto de inventar (ou não) minhas histórias: o amor que acaba um dia e deixa um rastro de dor, despeito, vertigem e falta de ar atrás. Não me olhe assim, acontece com todo mundo e com você também – se já não aconteceu, um dia vai, acredite. Aproveite a leitura para estar preparado.

Esses dias sem ele

"Corações acidentais de primavera", do blog Diário Irregular, de Ângela Correia

“Corações acidentais de primavera”, do blog Diário Irregular, de Ângela Correia

Aquela minha bela amiga com cabelos esvoaçantes acabou de postar na internet uma foto dela junto com o namorado, na praia, tendo como legenda uma declaraçãozinha de amor – feita por ele, frise-se. Continue lendo »








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