Comer, amar e lembrar

21 06 2020

Comida é uma das formas mais simples de demonstrar apreço por alguém ou de querer mimar a si mesmo. Seja um ato de educação (*), de caridade, ou uma refeição cuidadosamente pensada para agradar outras pessoas, cozinhar (ou comprar pronto, não tem problema) é se importar. Comida é afeto.

O waffle de Amsterdam, 2013

Todo cozinheiro famoso diz que cozinhar é um ato de amor. Os mais novos acrescentam que cozinhar também é um ato político. Antigamente, as mães diziam às filhas para aprenderem a cozinhar, porque o caminho para o coração do homem era o estômago. Hoje, os homens perceberam que saber cozinhar e fazer isso com alegria muitas vezes chama mais a atenção das mulheres do que ter um carro caro, por exemplo – pode ser o fiel da balança entre ele e um outro pretendente.

Eu amo comer. Todo mundo que me conhece sabe disso. Amigos e familiares sabem que me presentear com comida não tem erro. Para mim, é um verdadeiro prazer reunir as pessoas para comer e conversar.

Quantas vezes alguém demonstrou que gostava de mim por meio da comida? Quantas vezes alguém se doou em prol de me agradar assim? Tenho tantas memórias boas desses momentos que quis tirar alguns da caixa. Mereciam.

Meu primeiro jantar

Quando eu estava no ensino médio, namorava um colega que me sacaneou de todas as formas que pode, mas foi quem me deu meu primeiro jantar surpresa: me fez fechar os olhos e me conduziu até uma sala da casa onde ele tinha montado uma mesa com velas acesas e aqueles pratos e talheres bonitos que a mãe da gente só guarda, nunca usa.
No menu, macarrão com almôndegas, Coca Cola (ele adorava) e, de sobremesa, pudim de leite condensado. Ele mesmo serviu a gente. Fiquei com os olhos marejados – do ‘alto’ dos meus 17 anos, nunca achei que ganharia algo assim um dia! Mesmo com tudo que ele me fez chorar depois, lembro com carinho desse momento, porque li sinceridade nos olhos dele. Naquela hora, ele realmente gostava de mim.

Pão de Beatles

Um tempo depois, namorei uma pessoa que não morava na mesma cidade que eu e era difícil a gente se encontrar, conseguir conciliar nossas vidas comuns com viagens entre as cidades e tempo de qualidade juntos. Mas lembro bem de uma vez em que cheguei na casa dele e fomos ao mercado, onde ele comprou batatas, queijo, bacon, polvilho e outras coisas para fazer pão de queijo. Um amigo passou uma receita diferente da convencional e ele queria testar.
Foi tão divertido! Ele colocou Lou Reed e Beatles (“Beatles é música de cozinhar”, dizia) pra tocar e ficamos lá a tarde toda conversando (sempre fomos bons em conversar – até hoje, nossos papos rendem) enquanto ele, preciosista, ralava o queijo, amassava os ingredientes e enrolava as bolinhas, umas comuns e outras com um cubinho de bacon em cima. Eu tirava fotos do processo o tempo todo – para mim, registrar as coisas boas é imprescindível.
Comemos pão de queijo tomando um café que ele passou, separamos para congelar e ainda levei uns para casa quando voltei para Belo Horizonte. Guardo essa lembrança com muito carinho. Tão simples e tão bom.

O Jardim de Cogumelos

Tempos depois, namorei um cara que tinha o mesmo apreço que eu pela boa comida. Acho que foi a época que mais comi coisas diferentes na vida – e aprendi sobre vinhos. Num de nossos programas, ele me levou a um restaurante noutra cidade chamado Bistrô da Marta (com ou sem H? Não sei mais) e lá eu comi um prato que NUNCA me saiu da memória (nem das papilas gustativas): o Jardim de Cogumelos.
Que explosão de sabores! E que apresentação linda! Eu nunca tinha comido um cogumelo na vida além do champignon do estrogonofe e nem estado em um lugar tão chique. Meu prazer em comer uma coisa tão boa com ele deixou ele feliz. Aquele foi um momento feliz. A Mart(h)a do bistrô saiu da cozinha para conversar com os clientes e abriu um sorrisão ao ver um prato – que para ela deveria ser muito simples – deixar alguém tão extasiado.

Os quatro cometas

Depois, outras quatro pessoas passaram pela minha vida num mesmo ano como cometas: rápido, porém deixando um rastro de memórias e sabores que guardo com cuidado e revisito quando quero pensar nas coisas boas que já vivi.

A primeira delas me mostrou como caramelizar cebolas e comer com queijo brie e castanhas – e eu, que bravateava que nunca misturava doce com salgado, me apaixonei por esses sabores juntos. Ele tinha modos muito refinados, morava num apartamento pequeno e tinha utensílios de cozinha chiquérrimos, que eu tinha vergonha de não saber para que serviam – ficava observando ele usar para então palpitar como se entendesse alguma coisa, hahaha. Ficávamos sentados no chão comendo, tomando vinho e ouvindo música velha. Não raro, o dia raiava e a gente nem via – então a gente já emendava com o café da manhã, que ele fazia questão que fosse farto também.

A segunda eu conheci batendo boca no Facebook (risos nostálgicos) e nunca esqueci dos jantares que ele me fez ao som de violão e Thievery Corporation na casa dele. Era um cara sussa e muito inteligente, que me despertava também muita ternura. Cultivava seus próprios temperos, tinha um cachorro e o mesmo fascínio que eu por Caloi 10 antigas. Estar com ele era um hiato de paz na vida corrida. Era relaxar. Eu me sentia muito cuidada. Foi tudo rápido demais, e talvez por isso mesmo me marcou para sempre – assim como o macarrão com molho de tomate e manjericão e a sopa de cebola que eu nunca consegui reproduzir. Há coisas que realmente só passam na sua vida uma única vez.

O terceiro me apresentou chimarrão da forma certa e finalmente eu gostei. Achava engraçado ele circular carregando sempre a cuia, um saquinho de mate e uma garrafinha térmica com água quente e curtia observar o ritual que ele repetia em todo lugar, fosse bar, restaurante ou praça, em preparar a bebida. Foi também quem me convenceu a provar bolo de milho, receita facinha (e gostosa!) que ele sempre fazia usando só três ingredientes. Era um cara que estava sempre com o astral lá no alto até quando tinha um revés. Daquelas pessoas que ainda não aprenderam a temer antes de experimentar. Eu o vejo por aí de vez em quando e ele sempre me cumprimenta e abraça. É uma recarga de energia boa de alguém por quem fico sinceramente feliz ao ver que alcançou tudo que planejou – inclusive o amor da vida dele.

O último me conhecia bem antes da gente se encontrar e sabia precisamente como me agradar: nos dias que passamos juntos, entre andar de bike, discutir cultura e ir à praia, ele me levou cada dia num lugar diferente para comer e me apresentou quitutes que, se entregassem aqui, eu pediria todo dia. Caranguejo (“comer caranguejo é uma terapia, porque o tempo que você leva é o que você precisa para pensar na vida”, dizia ele, martelando a casca), amendoim cozido, pimentas, peixes, pastel de camarão com camarões ‘de verdade’: tudo com tempero do Nordeste, de sol e daquele cara de tiradas inteligentes, opiniões fortes e barba bem cuidada. Uma lembrança que me faz sorrir de lado até hoje.

Comida é amar também.


* Sim, tem seu lado ruim: a comida feita com má vontade serve apenas para matar a fome do estômago; não tem gosto de congregação, de encontro bom, de vontade de alimentar também a alma junto com o corpo. Mesmo a fome do estômago corre o risco de não ser satisfeita, porque quando a gente não está bem, como colocar algo bom no que estamos fazendo? Benditos sejam os que conseguem separar uma coisa da outra – eu, se não estiver bem, não faço nem um miojo: tudo fica com um gosto mal resolvido de fel e tristeza.
Da mesma forma, não aceito comida de quem eu sei que não gosta de mim. É claro que ali não vai ter nenhum veneno que vem num vidrinho lapidado em forma de gota, mas como posso colocar dentro do meu corpo algo recheado de energias ruins?


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