Sapatoterapia

9 02 2020

“Ah, não! Compraram meu Prada! Não, não!”, gritei eu no meio do expediente num longínquo dia 30 de agosto de 2019, por sinal véspera do meu aniversário.

Eu não podia acreditar. Apertei F5 no teclado várias vezes, fiz logoff e login no site outras tantas, mandei mensagens pelo WhatsApp para a loja perguntando se ele realmente tinha sido vendido, mas era verdade: alguém chegou antes e comprou meu sapatinho vermelho. Logo agora, que ele parecia tão próximo!

Sapato Prada Verniz Vermelho 37

Amore mio!

Calma. Vamos do começo.

Eu tenho cadastro em alguns brechós e lojas de luxo na internet que uso para ficar namorando sapatos da Christian Louboutin, Prada, Jimmy Choo e outras marcas que as blogueiras celebram como mimos, mas os modelos mais baratos custam meu salário de um mês (o valor bruto, sem desconto nenhum).

Prada shoes salto baixo fivela pretoEm um desses brechós, eu não só tenho uma conta, como uma lista de favoritos. Nela tinha esse sapato de verniz vermelho da Prada que custava R$800,00 e eu o namorava todo dia, a ponto de salvar a foto e colocar na minha lista de tarefas do Trello como uma compra que eu ia realizar.

Essa lista de favoritos começou a ser feita num momento em que minha vida estava num azedume tal que eu acordava todos os dias já fazendo uma contagem regressiva para a semana, os meses e os anos acabarem – mais baixo astral (para os meus parâmetros), impossível. Nessa época, olhar para a lista logo de manhã me dava um alento de que em algum momento as coisas iriam melhorar a ponto de eu poder comprar aqueles sapatos – ou pelo menos o da Prada, que era o mais barato.

A perspectiva de comprar esse sapato andava junto com a minha perspectiva de deixar para trás todo o aborrecimento diário, de poder relaxar dos problemas de novo, de ter condições melhores para curtir a vida. Ele era um símbolo de esperança muito próximo, muito palpável.

Eu podia SENTIR ele chegando! Podia VER ele nos meus pés, montava looks reais com ele e as roupas que eu tenho, podia OUVIR o barulho dos saltos no piso de madeira do trabalho, podia quase CHEIRAR o couro bege do forro dele, ver o brilho do verniz bem de perto. Para mim, ele era real.
Prada shoes slingback rosa

Sempre que eu tinha um dia ruim em casa ou no trabalho, eu olhava para o sapato vermelho e me sentia melhor.
Na verdade, eu inclusive estava a ponto de comprá-lo, mesmo que isso significasse apertar o cinto mais um pouco e mandar às favas todas as contas que eu tinha que pagar em troca de um pouco de prazer pessoal.

Até um dia eu abri a lista e tinham comprado ele.

Meus olhos se encheram de lágrimas na mesma hora. Foi como se tirassem de mim algo muito querido, que estava comigo! Eu me senti como se fosse o mundo me dizendo que nada nunca ia melhorar, que eu não podia ter esperança nessas coisas.
Fiquei tão desgostosa que desativei o Trello e passei meses sem entrar no site do tal brechó de novo.
Parece drama de pessoa fútil, mas eu realmente estabeleci uma relação com a possibilidade de comprar o Prada vermelho – era como se comprar o sapato fosse comprar minha alegria de volta e por isso eu desabei quando ele se foi para os pés de outra pessoa.

Muito tempo e muitas reviravoltas depois, eu prestei atenção no site da loja na minha barra de favoritos e resolvi entrar de novo. Compraram mais dois sapatos da minha lista de favoritos, mas dessa vez não doeu – porque a vida já era outra e as perspectivas de eu adquirir um deles voltaram a ser reais. Agora não é mais uma questão de grana, mas sim de tempo e prioridades.

[… mas eu queria mesmo era o Prada vermelho.]


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