O primeiro ano do resto da minha vida

1 01 2020

Dia 30 de dezembro entreguei o apartamento onde morei nos últimos anos e encerrei um amplo ciclo de aprendizado na minha vida. A última angústia que me consumia em 2019 foi embora com um “Nada consta de condomínio” assinado em duas vias.

Anastasia Pinterest

(Foto: Pinterest / Anastasia)

Saí da imobiliária como se tivesse acabado de dar à luz: zonza e cansada, mas imersa em paz e alívio. Foram quase três anos de perrengue, cujas causas e culpas não vêm mais ao caso.

Com certeza eu aprendi muito e cresci mais ainda. Mas foi esse tempo todo levando ao pé da letra a frase “se der medo, vai com medo mesmo”, sendo que a palavra medo podia ser substituída também por tristeza, cansaço, indignação, preguiça, falta de tempo e por aí vai. Eu não podia dizer “não” para nada, porque se eu me negasse a fazer, não tinha quem fizesse – e ficar sem fazer não podia, porque eu também seria vítima da “rebeldia”.

Muito tempo matando um leão por dia, forçando meu corpo e minha mente até eles me responderem com doenças, descobrindo um problema novo por dia e aprendendo a resolver na marra. “Trocando o pneu com o carro andando”, como dizem. Eu resolvia uma coisa e outra aparecia. Para cada alívio, vinham dois problemas. Eu já sabia que, se eu estava rindo num dia, podia ter certeza que no outro estaria chorando com as consequências de relaxar. Era uma constante sensação de nadar contra a corrente o tempo todo, bater braços e pernas sem parar para manter a cabeça fora d’água e respirar.

Eu tinha que tomar decisões toda hora e, meu Deus, como isso é desgastante – no wonder eu nunca ter tido vontade de ser chefe de nada. Tudo que eu queria era alguém que chegasse e dissesse: “deixa que eu resolvo” e resolvesse mesmo, de forma tão assertiva que eu nem precisasse perguntar se deu certo.

Tem gente que acha isso bonito. Fala que é coisa de gente forte, de gente corajosa, de gente de personalidade forte e por aí vai. Ouvi isso de muita gente muitas vezes e sei que a intenção delas era boa. Que eu era especial por segurar uma barra daquele tamanho e ainda continuar sendo simpática com todo mundo, tomando uma cerveja de vez em quando, pintando as unhas.

Mas as belezas da vida das pessoas são como a ponta de um iceberg, você nunca sabe o que está escondido. Ninguém posta suas agruras no Instagram, reclamar não dá like. Problemas afastam as pessoas, elas têm medo de, a partir do momento em que tomam ciência, eventualmente terem que assumir alguma parcela da sua carga. Estão erradas? Não posso julgar, talvez eu fizesse igual.

Quando me elogiavam por tudo que eu enfrentava, isso me lisonjeava e me dava algum conforto, mas não me deixava alegre – pelo contrário, eu me sentia ainda mais sozinha. A vontade de chorar com tanta responsabilidade era enorme. Nunca quis ser heroína, sorry. Essa sensação de voltar de uma guerra por dia não me agrada.

Ser forte o tempo todo não agrega ninguém, mas afasta. Porque quando alguém chega muito perto da sua “fortaleza” você quer desabar, desabafar, e isso ninguém espera, ninguém quer. As pessoas buscam na pessoa forte um exemplo, não outro ser humano cansado e louco para passar o bastão.

Eu achava (e em certos aspectos ainda acho, tenho que trabalhar mais isso em mim) que pedir ajuda fora seria uma vergonha, seria confessar minha incompetência para viver a vida que eu escolhi assim que assinei o contrato de locação daquele apartamento enorme. Achava que podia resolver tudo, que era minha obrigação resolver tudo, e que, àquela altura da minha vida, a regra era viver para resolver problemas e pagar contas, que a vida de uma pessoa da minha idade, com a minha trajetória, comprometida com outra, com filho e emprego de responsabilidades, era assim mesmo. Se eu era uma pessoa forte, era meu dever aguentar.

Mas porque eu não conseguia, então? Porque o tempo todo uma voz falava cada vez mais alto na minha cabeça que isso estava errado? Eu era mimada? Era despreparada? Era fraca? Estava fazendo pouco?

Não. Eu fiz tudo que podia e devia, mas era difícil mesmo. Esse 2019 foi um ano difícil demais, pelo amor de Deus. “Desafiador”, para usar a palavra que todo mundo gosta de usar para dourar a pílula quando o problema é grande.

Como disse um tweet de não sei mais quem, que eu li um tempo atrás e achei muito reconfortante, “não glamourizem o perrengue”. Relacionamentos sociais e amorosos acabam por falta de dinheiro, a saúde vai embora quando você não tem prazer em nada, a alegria sai pela porta quando você só tem obrigações e nenhuma perspectiva de retorno do seu esforço. Não se enganem. Não é bonito nem inspirador matar leão todo dia, eu tenho certeza de quem precisa fazer isso não escolheu fazer. Muito pelo contrário, não teve foi escolha.

Eu sobrevivi e aos poucos estou voltando aos eixos – mas a lição que tiro é: não tem nenhum glamour em passar aperto. Eu tenho rezado, vigiado e trabalhado todo dia para retomar o ponto da minha vida em que perdi o controle de tudo para não repetir isso mais e ter um 2020 em que eu possa respirar com calma e voltar a fazer planos, em que eu acorde todo dia podendo saber minimamente o que vai acontecer na minha vida.

Entregar as chaves daquele apartamento foi meu Réveillon. Feliz 2020.


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