Jovens bruxas de araque

20 10 2019

Como boa cria dos anos 80/90, me delicio relembrando a cultura pop daquela época. Vivi tudo que pude intensamente: Xou da Xuxa, Os Trapalhões, disquinhos coloridos, Balas Soft, mochila da Company e todo tipo de filme, literatura e música que eu podia absorver via locadora de vídeo, biblioteca pública e MTV.

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Hoje acho essas lembranças em perfis no Instagram e dia desses uma dessas URLs me trouxe o filme Jovens Bruxas (The Craft – EUA, 1996) junto com uma história que naquela época parecia ridícula, mas hoje seria capaz até de transformar aquela turma em celebridade do YouTube.

O filme chegou aqui no Brasil em 1997. Eu estava no 2º ano do ensino médio em uma escola pública de Belo Horizonte com todo tipo de estereótipo possível em suas versões tupiniquins. Tinha os populares que ‘transgrediam’ as normas fumando; tinha as gostosas que bebiam sem ter idade e ‘namoravam’ caras mais velhos que tinham carros; tinha os nerds estranhos com caspa e óculos quebrados (JURO); tinha os otários ultra babacas torcedores de futebol; tinha os CDFs e tinham aqueles que não cabiam em lugar nenhum porque eram muito apagados para terem qualquer rótulo. Nessa faixa aí, quase no time dos CDFs, estava eu.

Meus amigos transitavam nessa área comigo. Tinha o meu ‘melhor amigo’ (um dia conto porque as aspas), Guilherme, que era um menino muito branco e magro que gostava de meninos, mas brigava com isso para ser aceito como ‘macho’ na turma dos babacas; tinha a Cíntia, que tinha tomado umas cinco bombas na vida e sonhava em casar, uma das pessoas mais esforçadas que eu já vi; Tinha a Dani, que só queria saber de sertanejo e ídolos teen das revistas; e tinha a Laís, uma figura com nariz de porquinho que nunca sorria a não ser para ser sarcástica com alguém. Era super antipática, mas como tinha grana e um namorado com carro, se achava no direito de ser insuportável.

Laís não gostava de mim e nem eu dela, mas, para manter a boa vizinhança, eu não a hostilizava – ela não tinha esse cavalheirismo comigo, mas, por preguiça de discutir por algo tão nonsense, eu fingia que não percebia as patadas dela. 

Só que a Laís tinha em casa uma tv grande, um DVD player e um som estéreo, coisas de rico na época – e foi por esses atrativos que um dia a Laís anunciou que tinha ganhado do namorado o DVD de Jovens Bruxas e todos combinaram de assistir ao filme na casa dela depois da aula.

Eu ouvi o papo de esguelha e já imaginava porque ninguém tinha falado comigo, mas resolvi perguntar assim mesmo. Muito constrangido, Guilherme me anunciou:

– Laís não quer que você vá. Ela falou que se alguém te chamar ela cancela o filme.

Ok. Não me surpreendeu.

Mas confesso que secretamente desejei que a tv pegasse fogo e o DVD player explodisse com o filme dentro. E, de certa forma, creio que fui ouvida.

Uns dias depois, notei aquelas quatro pessoas diferentes. Todo mundo usando preto e trocando olhares e sorrisinhos de lado entre eles, encarando o resto da sala como se tivessem tido uma epifania. Até o crucifixo que a Cíntia usava com tanta devoção tinha sumido e a Dani, sempre risonha com aqueles olhos verdes dela, estava séria. Passaram a se isolar das outras pessoas e as meninas só conversavam comigo por meio de evasivas enigmáticas (a não ser quando precisavam copiar de alguém os exercícios de Inglês).

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Novamente, dei uma de desentendida e fui perguntar ao Guilherme sobre a sessão pipoca que me excluiu. Ele demorou a responder, depois de encarar a parede atrás de mim longamente:

– Nós tivemos uma revelação no filme. Somos bruxos. 

Meu Deus do céu. Que bom que eu não fui.

– Depois de ver o filme a gente percebeu uma força na sala. Era Manon falando com a gente, ele quer que a gente o invoque.

Solenemente, ele colocou a mão na minha mesa e mostrou no dedo indicador um anel prateado com um furinho. O mesmo que as três meninas também estavam usando.

– Compramos esses anéis dos quatro elementos e também já temos as velas. Agora eu fiquei encarregado de procurar o Livro de São Cipriano e as meninas vão atrás do incenso e dos animais. A Cíntia falou que pode levar o peixe dela e a Dani falou que a mãe dela tem um livro do Paulo Coelho.

Eu tinha assistido o filme uns dias depois graças à locadora do bairro e, como boa virginiana que sempre fui, assim que ele começou a criar buzz eu fui atrás de toda leitura possível sobre ele, sobre rituais pagãos e Wicca. E com isso tudo eu sabia que São Cipriano e Paulo Coelho não tinham nada a ver com essa viagem.

– Uau. Mas como vocês vão fazer isso? – eu realmente queria entender.

– Vamos ao Parque das Mangabeiras no sábado. Vamos levar coisas de piquenique para ninguém ficar enchendo o saco e vamos fazer o ritual de invocação.

– Oh. Não é perigoso?

Ele riu, desdenhoso.

– Claro que não. Manon não machucaria quem está seguindo o chamado dele.

Na sexta-feira, Guilherme, Dani, Cíntia e Laís estavam sentados lado a lado no fundo da sala vestidos exatamente iguais e com aqueles olhares estranhos de novo. No intervalo, Guilherme sentou na minha mesa e veio me contar que tinha visto seu Mensageiro depois de ler um ritual em O Diário de um Mago e ele tinha confirmado seu dever de seguir Manon.

– Ele me apareceu no meio de duas colunas de fogo e me falou o nome dele.

– E qual é?

– Não posso falar. O nome do mensageiro é secreto. Apenas quem o invocou deve saber.

– Oh. Entendi. – não, eu não estava entendendo.

Ele ainda me falou que as meninas também tinha feito o ritual e que a Cíntia não viu o dela, mas não tinha problema, porque o Mensageiro, na verdade, não era coisa do filme, então não era obrigatório.

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Na segunda-feira, notei os quatro sentados no fundo da sala de novo, mas visivelmente preocupados. Taciturnos. Foi Guilherme quem veio contar que o ritual tinha saído, mas não exatamente como planejado: faltava um elemento.

– Manon não apareceu. Mas mandou sinais de que não gostou da gente ter um elemento repetido no grupo.

– Sério? Quais sinais?

– Bom, um quati quase comeu o peixe que a Cíntia levou, um passarinho cagou no cabelo da Laís e começou a chover quando acendemos as velas.

Acontece que duas das meninas eram de Água e não tinha ninguém de Terra para fechar o círculo. E nessa hora alguém lembrou de mim.

– Vou ver com Laís se a Dani pode trocar com você para a gente fazer de novo.

Não. Pelamordedeus, não. Não sei o que me soava pior: fazer parte do circo místico adolescente ou ter que ser ‘liderada’ pela Laís.

– Você quem sabe. Se ela deixar… – que atire a primeira pedra quem nunca falou uma bobagem para pertencer à panelinha.

Nos dias seguintes, o pessoal mal se falava e mal falavam com os outros. Laís passou dois dias sem aparecer na escola e notei que a Dani não estava usando preto. 

E o Guilherme de novo sentou na minha mesa:

– A Laís não deixou você entrar. Falou que se você fizer parte do grupo ela sai, e ela não pode sair porque é ela que tem o filme e ela é de Ar e não tem mais ninguém de ar pra chamar.

– Tá bom. Mas como vocês vão fazer sem a pessoa de Terra? 

– Ela falou que vai ver se a vizinha dela é de Terra e topa, mas ela é crente, não sei se vai querer.

– E a Dani? Ela não está de preto hoje.

– Acho que ela vai sair, porque o menino que ela gosta falou que isso é coisa do capeta, aí ela ficou puta com a gente.

Por dentro, eu ri.

Mas Guilherme estava chateado. A Laís é que mantinha o nariz de porquinho dela em pé, soberana.

– Também não vamos mais poder sair para fazer os rituais. O namorado da Laís não vai mais levar e a gente não pode ficar indo de ônibus porque não tem nada a ver pegar busão depois de invocar Manon.

– Vai no Parque Municipal, uai. É aqui do lado.

– A gente foi, mas o vigia mandou a gente sair e falou que lá não era lugar de macumba.

Eu ri de novo. Por dentro.

Manon estava mesmo de zoeira.

A semana de provas começou e, mesmo na escola pública, estava todo mundo concentrado nisso e empenhado em passar – por isso mesmo, demorei a reparar que Guilherme, Cíntia, Dani e Laís tinham voltado ao ‘normal’. A Dani tinha até cortado o cabelo e as patadas da Laís em mim voltaram – eu as rebatia mentalmente pensando “pelo menos eu não tomei uma cagada no cabelo tentando invocar um personagem de filme, imbecil”.

Guilherme voltou à falação sem freio de costume e me disse que a última tentativa deles de invocar Manon tinha posto um fim definitivo da carreira de feitiços deles. Tinha sido o derradeiro e mais forte sinal. Um apocalipse.

– A gente foi para a casa da vó da Cíntia, que tem um quintal, para fazer o ritual de novo, porque a Laís falou com a Dani que, se ela ficasse, a gente podia pedir pra Manon fazer o Douglas namorar com ela. Mas não rolou.

– O que foi agora? Outro bicho cagou em vocês?

– Não. O negócio é que o cachorro da vó da Cíntia subiu no altar que fizemos enquanto a gente estava de olho fechado fazendo a invocação e comeu o peixe que a Cíntia tinha levado. O aquário caiu, quebrou e os livros molharam, a gente não conseguia mais ler direito. Aí a Dani resolveu tentar secar o do Paulo Coelho, que é da mãe dela, com uma das velas, mas quando chegou perto para ver se estava funcionando o fogo pegou no cabelo dela e ela começou a gritar e bater na cabeça para apagar, mas ela tropeçou no tapete no chão, caiu na mesinha e desmaiou. Eu corri para ajudar ela, mas o cachorro começou a me morder, a Cíntia começou a chorar e a Laís começou a gritar que ela estava ordenando que Manon aparecesse e obedecesse ela.

– Caralho. E aí?

– Véi. Nessa hora a Dani abriu o olho e começou a falar estranho. Falou com uma voz grossa que a gente não era digno de Manon, que ele jamais ia revelar poder nenhum para a gente porque nós enganamos ele querendo fazer a inovação com dois elementos iguais e que ninguém ali tinha poder para mandar ele fazer nada. Daí começou a tremer e desmaiou de novo.

– Véi… 

– Aí a Laís começou a gritar que a gente era incompetente, que ela tinha feito tudo certo que nem no filme mas a gente não sabia fazer nada. A Cíntia então colocou ela pra fora da casa da vó dela e a Laís saiu xingando, e falando que pelo menos ela nunca tinha tomado bomba e tinha um namorado que tinha carro.

– Nossa.

– A Dani começou a acordar e perguntar o que que tinha acontecido e onde ela estava. Eu contei e ela começou a chorar e falar que queria ir embora, aí eu levei ela em casa. A Cíntia falou que no meio da confusão o cachorro ainda comeu os incensos, e o resto das coisas ela jogou fora no Arrudas.

– Uau. E agora?

– Agora nada. – e deu de ombros com um sorrisinho, como se tentar virar bruxo fosse a coisa mais corriqueira na vida.

***

Uns anos atrás, 20 anos depois desse caso, encontrei com a Dani em um casamento: mesmos sorriso e olhos verdes, mas casada (não com o Douglas) e com um filho pequeno. Enquanto eu procurava o perfil dela no Instagram para seguir, passou na minha timeline um post de um perfil de cinema falando de Jovens Bruxas e eu comecei a rir – perguntei pra ela sobre esse caso e sobre a ‘possessão’ dela na confusão do último ritual.

Ela riu até sentar na cadeira e falou que tudo não passou de um ‘basta’ que ela resolveu dar na palhaçada – especialmente porque, um dia antes, a Laís tinha dado um esporro nela dizendo que só mesmo sendo muito burra para trocar Manon por um namorado em potencial.

– Ah, eu até estava achando legal aquela conversa toda, os rituais, os livros, mas quando a Laís falou isso, eu fiquei puta com ela. Daí, quando eu comecei a voltar do desmaio e ouvi o desespero deles, lembrei do povo ‘possuído’ nas igrejas e fiz igual. Fiquei com dó foi do Guilherme. Desesperou de verdade. Mas Laís? Ah, se eu pudesse, tinha mandado era tomar no cu de uma vez.

Risos, risos e mais risos.

A Dani, sempre tão doce e feliz, foi quem pôs fim na história de bruxaria da turma fazendo um cosplay de demônio. 

O resto da turma seguiu como deu: Guilherme se assumiu e foi morar em Sete Lagoas com um namorado; Cíntia casou e descasou; e Laís… bom, Dani me disse que, pouco tempo depois de terminarmos o ensino médio, a empresa do pai dela faliu e eles foram morar em Contagem. Achando ruim de bater até lá de carro, o namorado terminou com ela. E, para fechar com chave de ouro, ela se meteu numa briga com a nova namorada do ex e tomou um soco no nariz – agora, além de ser de porquinho, ele é torto.

Talvez Manon realmente tenha dado uma passada no último ritual – e não estava brincando.


Ações

Informação

3 responses

21 10 2019
lucaspinduca

Rapaz! Adorei! Dava para fazer um seriado no YouTube com esta história toda!

22 10 2019
Janaina Rochido

Hahahaha, que bom que você gostou! Eu também pensei nisso, um dia ainda vou transformar num roteiro! Imagina?

22 10 2019
lucaspinduca

Faça isso querida! Vai ser melhor que muitos enlatados adolescentes que estão aí!

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