You can be anything sim

13 12 2018

Ouça a Kennedy!

Kennedy é uma boneca Barbie da série Made To Move que enfeita minha mesa de trabalho. Sempre sorridente, ela segura uma plaquinha que diz “You can be anything” e ler isso na mãozinha dela me anima dia após dia.

Hoje a plaquinha da Kennedy é quase banal, um discurso meio vazio que dizemos a todo mundo todo dia para fazer as pessoas se sentirem bem. Mas eu, que sou jovem há mais tempo que vocês, lembro bem quando essa frase era uma utopia: bastava ela aparecer para alguém vir estilhaçá-la com um porrete escrito “isso não vai te dar sustento” e/ou “isso é impossível”.

Todas as coisas que eu quis ser na vida foram mortas a porretadas verbais antes que eu tivesse discernimento suficiente para entender porque elas “não valiam a pena”. Cresci meio perdida nesse campo, vendo meus colegas de escola orgulhosamente dizerem que iriam ser dentistas ou advogados, enquanto eu gostava muito de escrever e desenhar (“mas você vai morrer de fome!”) e queria aprender a tocar guitarra (“isso não é coisa de menina!”). Eu não me via em nenhuma dessas carreiras que eram, em teoria, garantia de sucesso. Muitas vezes eu achava que ia ser mais uma perdida na vida mesmo.

Aí eu cresci.

Vagando ainda pelo que fazer para o resto da minha vida, fui de Administração de Empresas a Secretariado Executivo Bilíngue, passando por épocas em que eu achava que nem ia fazer graduação nenhuma, ia só mesmo trabalhar no que aparecesse e pronto. Mas aí eu um dia pensei que o meu gosto pela escrita poderia sim render alguma coisa e por acaso fui fazer Jornalismo.

No curso, tinha pessoas que queriam apresentar o Jornal Nacional, pessoas que queriam narrar futebol em rádio AM, pessoas que queriam trabalhar na editoria de polícia do jornal para poder ver gente morta, pessoas que queriam virar jornalistas detetives e os perdidos – esses ficaram pelo caminho no segundo semestre, mas eu gostei e continuei.

Mesmo não enxergando direito onde eu ia me encaixar nessas expectativas, eu pela primeira vez sentia que estava em um rumo.

Curioso que, mesmo dentro do curso, era gente demais para me desanimar. Incontáveis vezes eu ouvi que Jornalismo não dava dinheiro, que a gente morria de trabalhar pra ganhar pouco e aguentar muita encheção de saco, que não tinha mercado direito, que humilhação e assédio de todo tipo era o prato do dia, e muito mais. Mas, por outro lado, alguma coisa também me dizia que eu ia me dar bem na área: eu gostava das aulas, tinha boas notas, uma boa relação com os professores, meu desempenho era elogiado e, quando comecei a estagiar, não parei mais.

E o que a plaquinha da Kennedy tem a ver com isso?

Bom, lá pelo sétimo período, quando você já vislumbra qual vai ser o seu destino na carreira, nós tivemos uma disciplina chamada Assessoria de Comunicação. Na minha opinião, inclusive, ela tinha que ter sido ministrada já no começo do curso, porque é a área mais rentável do Jornalismo e onde sempre tem lugar para quem quer trabalhar, especialmente por conta própria. Meus estágios sempre foram nisso e até hoje estou aqui, muito satisfeita, por sinal.

Ainda assim, ninguém dava muita atenção para a aula. Todo mundo já estava mais preocupado em preparar seu TCC, ou só empurrando com a barriga até a formatura, então a sala era pura conversa ou absenteísmo nessas horas. Melhor para quem ficava, porque a professora, a Marili de Souza Gomes, além de dar o conteúdo, contava cases e dava dicas preciosas.

Um dia, conversando com uns poucos alunos que tinham ficado na sala, ela começou a falar de quando começou no Jornalismo. Trabalhava em redação de veículo grande e sempre escutando que aquela carreira era um fracasso, que pagava pouco, que tinha muita aporrinhação para pouco dinheiro. Tinha tudo isso sim, mas o que ela queria era ser jornalista e ela abriu seu caminho no mercado e na vida acadêmica e até hoje eu consigo vê-la sentada na beirada da mesa, pernas cruzadas, pincel na mão, aquele olhar blasé de quem não ia ficar mandando aluno calar a boca, falando: “mal ou bem, nunca me faltou trabalho. Teve uns em que eu ganhava mais, outros menos, trabalhei em lugar bom e ruim, mas sempre aprendi muito. Não fiquei rica mesmo não, mas foi o Jornalismo que me deu meu apartamento e hoje meus dois filhos estão formados por causa dele. Não tenho do que reclamar”.

Esse papo dela me marcou muito, porque ali eu vi que poderia sim construir uma vida trabalhando no que eu gostava de fazer. Vi um caminho real, palpável, ali, ao meu alcance. Eu não ia ser uma fracassada ganhando mal e odiando cada minuto da minha semana, eu não queria ser isso não! A Marili me inspirou a ser o que eu queria – queria um dia saber onde ela está e poder falar isso para ela.

Hoje eu sou o que eu quero. Eu poderia até sentar numa mesa para falar a mesma coisa que a professora me disse anos atrás. Não fiquei rica e ainda não tenho um apartamento meu, mas o resto eu consegui. Acredito piamente no “querer é poder” e de certa forma, consigo sentir que vou realizar tudo que um dia me disseram que nunca ia acontecer. As palavras têm poder, a plaquinha da Kennedy tem poder.

Toda vez que eu desanimo, lá dentro alguma coisa me diz que não é para sempre. Eu lembro da professora da faculdade, imagino ela construindo a vida dela, aos poucos, um passo de cada vez, mas chegando lá. “You can be anything”, diz a Kennedy – pode deixar.

De novo, para não esquecer!


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