Assisto novela sim, me deixa

5 07 2018

De tempos em tempos, uma das coisas mais prazerosas do meu dia é recostar na minha cama, ligar a TV e assistir à novela da vez na última faixa de horário.

Ator Emilio Dantas faz cantor de axé protagonista na novela 'Segundo Sol'

Beto Falcão tá vivo sim, como não?

Pode criticar, eu não ligo. Eu fazia a mesma coisa até relativamente pouco tempo atrás, te entendo.

À parte a discussão sociológica da influência das novelas na percepção das pessoas sobre isso ou aquilo na sociedade, ver novela me relaxa. Sou jornalista e, depois de um dia inteiro lendo todo tipo de desgraça anunciando o apocalipse na economia, na saúde, no mundo e nas relações humanas, eu dou graças por poder escapulir disso assistindo takes cuidadosamente coloridos por computador das praias da Bahia. É como meditação: as imagens vão passando e, no final, me sinto leve e sossegada.

Jornalista, esse “arauto da verdade”, assistindo novela é um contrassenso, uns dirão; pois eu digo que as pessoas são uma miríade de contrassensos e às vezes é isso que nos mantém sãos, que nos lembram que somos humanos, reais.

“É tudo mentira!” Sim, eu sei. “Ninguém tem esse sotaque!” Sei também. “Vê se no século XIX iam beijar na boca assim!” Provavelmente não. “Que perda de tempo gastar quase um ano vendo isso!” Ahn-ham – como se a sua série (a novela da geração internet) com 18 temporadas da Netflix fosse muito diferente, né? Estamos de olho. Mas, por outro lado, que produção bem feita, não? E essa praia, onde fica? É maravilhosa! Uau, esse figurino é fantástico, como conseguiram? Nossa, tem tantas formas de enxergar a mesma coisa, e geral estressando…

Enfim. Hoje, assistir novela e reconhecer que ela me distrai me mostra que eu aprendi (e a gente está sempre aprendendo, né) a detectar e eliminar um preconceito meu.

Até uns 19 anos, eu era obcecada em ser inteligente, parecer inteligente, me apartar totalmente de qualquer coisa que eu (frise-se o “eu”) não considerasse inteligente.

Lia muito, de tudo, só ouvia bandas europeias, assistia todo tipo de filme considerado “de arte”, frequentava exposições, mostras, teatro, entrava em salas de bate-papo do UOL (sou dessa época, hahaha) com nomes do tipo “Cinema francês”, “Arte Barroca” e por aí vai. Abominava tudo que tivesse qualquer sombra de ser “popular”: novela, axé, sertanejo, pagode, funk, filme nacional, programas de domingo na tv (menos o Sílvio Santos, é de família) – tudo era alvo dos meus impropérios. Entre o 8 e o 80, eu não aceitava estar no meio, não tinha cinza na minha escala.

Me afastava sistematicamente desses conteúdos e de quem falava deles – resultado? Vivia reclamando de estar sempre sozinha. O papo extremamente estratificado afastava as pessoas, ninguém queria conversa com alguém que a qualquer hora podia corrigir
seu português ou sentar a marreta no seu pagodinho com um sermão erudito. Ainda mais se você tinha 14 anos e estudava em escola pública num bairro afastado de Belo Horizonte… os professores deviam me achar um caso estranho.

Eu achava que o mundo tinha que se adaptar a mim. Mas então eu um dia entendi que eu é que tinha que fazer concessões, porque uma exceção não ia conseguir criar uma regra naquele contexto. Quem destoava ali era eu – eu não estava errada em querer coisas diferentes das pessoas da minha idade, mas também não era certo eu menosprezar o timing e desconsiderar o universo dos meus colegas. Eu podia ao mesmo tempo ter meus gostos e interagir com as pessoas que não tinham.

Quando eu entendi isso, fez-se a paz na minha vida.

Com o tempo, conheci outras pessoas, estudei noutros lugares, trabalhei, estudei mais, arrumei outros hobbies e a turma em que eu me encaixava apareceu naturalmente. Todos os meus livros, filmes e músicas cabeçudos continuam sendo muito queridos e solicitados, ao lado de bibelôs kitsch e referências absolutamente nonsense que me fazem rir de mim mesma.

Principalmente pela minha profissão, eu busco sempre conhecer ANTES de julgar – e para mim isso sempre agrega: em conhecimento, em entendimento, uma risada depois de finalmente entender qual o meme do dia.

Toda novidade é uma moedinha no cofre da cabeça.

A mesma coisa da minha relação com as novelas aconteceu com músicas, leituras, eventos. Posso não curtir, mas não me importo em saber do que se trata. Se tem tanta gente comentando, alguma relevância tem, não? Como jornalista e cidadã, parte da
sociedade, saber o que anda movendo as pessoas e pautando suas vidas e suas atitudes me faz participante do meu tempo, agente das mudanças.

… além disso, onde mais eu, moradora do caos urbano de Belo Horizonte e parca conhecedora de axé music, ia conhecer uma delícia de música como “Rega” do Jammil, sem ser por meio da trilha sonora de “Segundo Sol”? De nada:

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