A arte de habitar

25 09 2017

Eu gosto muito da minha casa. Sempre que estou morando em um lugar, automaticamente passo a enxergá-lo como uma extensão minha, um porto seguro onde me reconheço em todos os cantos e onde tenho o controle (pelo menos ali) do ambiente. Esse controle é bom porque nele você relaxa: na certeza de saber onde está tudo e como tudo funciona, você pode fechar os olhos e se desligar do resto.

Alguém compartilhou o texto abaixo, de Onides Bonaccorsi Queiroz, no Facebook e eu reconheci nele imediatamente todo o bem-estar que sinto quando estou em paz, em casa. Pedi a ela autorização para reproduzir aqui e ela deu – o original você lê aqui. Os grifos  (e a foto da gata, rs) são meus:

IMG_2645

“Tenho um caso de amor com a minha casa. Me dá alegria ali despertar, tudo tão em paz. Cedo abro as janelas, que venha o perfumado frescor da manhã e o canto dos pássaros tomar conta de todo o meu dentro.

O segundo aroma, ansiado e imperioso, sou eu que preparo: café. Bom na solitude. Bom no encontro. Evoca aconchego e preenche todos os cômodos.

Em cada porção do espaço de morar está tudo declarado. No que é visível ou não, os valores, os desejos, as dores, as crenças, os vazios, as vitórias, as pretensões, as possibilidades, os temores, os afetos. Casa é a foto psíquica de quem vive nela.

Parecem-me entediantes vivendas meramente utilitárias, previsíveis, do modelo “aqui eu sento”, “aqui eu cozinho”, “aqui eu durmo”. Casas interessantes contam histórias. O que demanda que o dono assimile a própria identidade, conheça seus trunfos e fragilidades, saiba de onde veio, onde está e vislumbre perspectivas futuras, planos e sonhos.

O que desejo viver? O que gosto de fazer? Quem eu quero perto de mim? É fundamental refletir sobre isso. Quanto mais estampa esses anseios, mais força e presença o lar ganha.

Pois não há quem transforme qualquer lugar em um encanto? Não há pessoas que sabem produzir beleza e harmonia com os recursos que têm à mão, ainda que escassos? Um amigo me contou que conheceu um sobrado simples onde, além da escada, havia um escorregador para as crianças descerem ao pavimento inferior. Um presente de pais para filhos e sinal inequívoco de que nessa família reinava generosidade, humor e imaginação.

Por outro lado, não há quem viva em domicílios tão sem alma, sejam palácios ou barracos, que a gente tem vontade de sair correndo? Porque o que conta é a riqueza do coração! E penso mesmo que seja do feminino, como aspecto nutridor da vida manifesto no homem ou na mulher, a capacidade de animar a própria habitação.

É saudável que a casa seja dinâmica. Que seja periodicamente repensada, rearranjada, que receba detalhes e que outros sejam retirados. Plantas e animais, do lado de dentro ou de fora, vivificam o espaço e são boa companhia.

E, por falar em convivência, acolher e confraternizar são práticas profícuas para o ambiente caseiro e para todos os envolvidos. O tempo que se passa perto de amigos fertiliza a vida. Mas não se abre a porta a pessoas cuja frequência ou comportamento não se aprecia. Cada um é guardião da sua morada e ali só deve permitir o que deseja.

Silêncio, tanto quanto possível, é fundamental. Mas música é tudo de bom. Porque há músicas que nos fazem sentir em casa, às vezes uma casa familiar, outras, uma casa adorável que a gente havia esquecido que vivia em nós.

E, assim, em sinal de gratidão por este teto sobre a minha cabeça, pelas paredes que abrigam minha intimidade e por este temporário chão que recebe meus passos, o centro da minha sala permanece sem móveis. Para que eu possa lembrar, a qualquer momento, que a vida é pra ser celebrada e, enquanto eu estiver de pé, sempre é tempo de dançar.”

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