Pedal na Bahia: Barra Grande a Boipeba

16 01 2017

Confira todas as partes:

Mapa e altimetria - via Strava

Mapa e altimetria – via Strava

O primeiro dia de 2017 nos achou pedalando já cedo rumo ao píer de Barra Grande, famoso pela vista do pôr do sol na praia, para cumprirmos a segunda metade da viagem. Esse foi um dia de muitas aventuras, então senta que lá vem textão.

A faixa de areia ainda estava curta, mas deu pra começar a pedalar assim mesmo

A faixa de areia ainda estava curta, mas deu pra começar a pedalar assim mesmo

Atravessamos com a lancha para Barra de Serinhanhém (quase nove quilômetros, é a mais cara), que ainda curtia a ressaca da festa de réveillon. O plano era achar a padaria, tomar o café da manhã e enrolar por lá até a maré chegar no seu ponto mais baixo e podermos pedalar. Acontece que a padaria não abriu e nosso café foram rosquinhas e uma garrafa de suco mesmo. Sem muito mais o que fazer, fomos para a praia e vimos que a areia estava firme o suficiente mesmo com a maré alta, então começamos já o pedal. Esse trecho de praia tem 20 quilômetros e foi legal ver as pessoas começando o ano com disposição e fazendo suas caminhadas já cedo – velhos, crianças, e até uns golfinhos deram as caras no mar. Por outro lado, os carros usam a praia também, então você precisa estar atento ao “trânsito”.

Romaria de barcos no primeiro dia de 2017

Romaria de barcos no primeiro dia de 2017

Como começamos cedo, chegamos a Ituberá, onde iríamos achar quem fizesse nossa segunda travessia de barco do dia, bem antes do almoço. Pensamos que seria difícil achar um barqueiro porque era dia 1º de janeiro, mas demos sorte: no mesmo dia estava acontecendo uma romaria de barcos em homenagem ao Bom Jesus dos Navegantes, então barqueiro era o que não faltava. Conhecemos o Alaor e seu barco laranja todo enfeitado com balões coloridos, e combinamos dele nos deixar em Cova da Onça, já na Ilha de Boipeba, a 4 quilômetros dali. Ainda tem dinheiro em espécie? Você vai precisar de novo.

Vista do mangue do restaurante Toca da Onça, enquanto esperávamos a MELHOR MOQUECA EVER da viagem

Vista do mangue do restaurante Toca da Onça, enquanto esperávamos a MELHOR MOQUECA EVER da viagem

Chegamos em Cova da Onça na hora do almoço e como não achamos o restaurante do qual Rogério se lembrava, sentamos em um chamado Toca da Onça, um lugar fresco e com uma vista linda para o mangue, onde comemos a melhor moqueca de camarão de toda a viagem, EU JURO POR DEUS. Quase me escorre uma lágrima de tanta saudade dela, do arroz, da saladinha, do pirão e do feijão. Inesquecível. Vai lá, sério.

O Caminho da Tereza

Originalmente, o caminho para Boipeba a partir dali é por uma estrada de areia fofa que vai dar em Moreré, de onde você atravessa mais um rio (andando mesmo) e termina de chegar pelas praias. Por essa estrada não tem muita escolha a não ser empurrar a bike, mas, conversando com Coelho, do restaurante, Rogério ficou sabendo de uma trilha pelo meio da mata usada pelos nativos e que daria no mesmo lugar. Imbuídos do espírito de roubada aventura, decidimos seguir o Caminho da Tereza.

Caminho da Tereza

Caminho da Tereza

A escolha foi realmente melhor do que empurrar a bike por seis quilômetros de areia escaldante. O caminho é muito bonito, todo sombreado e todo pedalável, uma beleza. Só no final, já praticamente na vila de Moreré, tem trechos de areia em que você precisa empurrar. No mais, tem alguns lugares onde você precisa literalmente abrir caminho na raça, pois o mato é fechado. Também é preciso ter atenção com os trechos de mangue e espinhos das plantas.

Infelizmente, chegamos a Moreré muito tarde e a maré subiu. Esse último rio parece inofensivo na maré baixa (chega até a metade da canela), mas na maré alta a água a água chega até o pescoço, o que torna impossível a travessia – tendo tempo, o ideal é esperar ela baixar. No nosso caso, não tínhamos tempo para isso e só podíamos fazer duas coisas: ir de trator para Boipeba ou dormir ali. E foi aí que eu estressei de novo.

Perrengue em Moreré

Lembra a dica que eu dei sobre fazer a viagem com gente relax que gosta de conversar e negociar? Jamais se esqueça dela.

Nossa primeira e óbvia escolha foi pegar um trator, o único meio de transporte que resiste à areia. Cada passagem custa R$ 10, mas tínhamos dois problemas: nenhum queria embarcar as bikes e nosso dinheiro em espécie não dava para nós dois. Chegamos a olhar hospedagem para passarmos a noite, mas estava tudo cheio, então voltamos aos tratores.

Lembrança do Caminho da Tereza, hahaha

Lembrança do Caminho da Tereza, hahaha

Tentamos convencer os motoristas de todas as formas, mas eles desconversavam, simplesmente negavam, ou queriam que esperássemos a última viagem do dia (lá pelas 21h) ou pagássemos pelos assentos que as bikes ocupariam, mesmo a gente se propondo a desmontá-las. Não adiantou. Fomos então procurar formas de conseguir dinheiro em espécie, mas todo mundo também tinha uma desculpa para não passar o cartão – para piorar, o lugar estava sem sinal de internet e celular.

Eu já estava num nível de stress e raiva gigantescos, porque eu simplesmente não conseguia entender porque os caras não poderiam ter a boa vontade de levar as bikes tendo tanto espaço nas carrocerias. Porra, uma viagem só! A gente desmontaria elas, ninguém além de nós ia ter trabalho! Ainda bem que Rogério manteve a calma e tivemos a sorte de topar com a loja da Karen quando já estávamos desanimando.

A Karen e suas cangas

A Karen e suas cangas

A Karen é uma paulista que largou a capital há 13 anos para viver nas praias vendendo suas cangas. Primeiro ela foi para Jericoacoara, no Ceará, mas foi em Moreré que se encontrou. Lá ela tem uma lojinha onde vende de tudo e também administra um camping, e topou passar o cartão pra gente ter dinheiro vivo e voltar a tentar convencer os tratoristas a nos levarem. Ainda encontramos com ela outras vezes e conversamos muito, ela é uma pessoa ótima – mais pra frente conto.

Sentamos numa mercearia para descansar e um rapaz que observava nossa conversa se propôs a ajudar. Rogério e ele conversaram com um dos motoristas e mostraram que podíamos amarrar as bicicletas na frente da carroceria onde ele carregava os passageiros. Olhados com curiosidade pelas pessoas, tiramos os alforjes, desmontamos as duas e as amarramos (lembra das cordas e extensores que eu falei que não podiam faltar na sua mala? Pois é) lá na frente, equilibradas no encaixe entre o trator e a carroceria. Esse trator tinha uma carroceria com os bancos encostados nas beiradas e um espaço no meio – na minha cabeça, poderíamos ter colocado as bikes ali e segurado, mas se desmontar era a forma de conseguir embarcar, então ia ser aquilo mesmo.

Finalmente, Boipeba

Pousada Velha Boipeba

Pousada Velha Boipeba

Meu stress já tinha se transformado em vergonha pela tempestade em copo d’água quando chegamos a Boipeba. Remontamos as bicicletas e depois de pedalar um pouco conseguimos vaga na Pousada Velha Boipeba, um lugar bem confortável e bem localizado administrado pela Vera, que nos deu lugares para lavar as bicicletas e nossas roupas. Além de espaçosa e arejada, o wi-fi funciona lindamente e o café da manhã é maravilhoso.

Boipeba a noite: mesas na rua e ventinho no rosto

Boipeba a noite: mesas na rua e ventinho no rosto

Em Boipeba tem muita coisa pra fazer. A vila é calma, bonitinha, com mesas nas ruas e calçadas, e é fácil chegar às praias. Lá não circulam carros, então as crianças ficam soltas nas ruas. Além disso, a comida é barata e gostosa, o que torna o lugar um grande programa familiar. De cara conhecemos um casal com uma história muito legal de coragem, o Jackson e a Fernanda, que administram o Quintal da Ilha. Todas as nossas idas lá eram regadas a cervejas artesanais e bate-papos muito legais com os dois, que são uma simpatia.

Não é porque é meu xará não, mas... a comida vale a pena

Não é porque é meu xará não, mas… a comida vale a pena

Também comemos muito bem no restaurante que – oh! – tem o meu nome, haha. Na Pousada e Restaurante Janaína, uma das mais antigas da ilha, comemos uma deliciosa moqueca (mas não supera a de Cova da Onça, sorry) por um precinho bem camarada e o atendimento foi ótimo.

O melhor Quintal da Ilha

Tal qual a Karen, Jackson e Fernanda também deixaram São Paulo para trás em busca de tranquilidade. Frequentadores assíduos da Bahia, o plano era se aposentar e morar em Boipeba, mas um problema de saúde fez com que adiantassem tudo para o final de 2016 mesmo. Quando conhecemos o restaurante deles, tinha só três dias que eles tinham aberto e 18 que tinham se mudado para lá – tanto que ainda nem têm fanpage ou divulgação do lugar.

O cardápio é um vinil e a cerveja artesanal vale muito a pena!

O cardápio é um vinil e a cerveja artesanal vale muito a pena!

Fernanda, fisioterapeuta, e Jackson, engenheiro eletricista, moram no segundo andar da casa, que tem petiscos e sanduíches no cardápio e – MARAVILHA – uma deliciosa cerveja artesanal que o Jackson fabrica, a Bier-Brand. Ainda por cima a trilha sonora é de rock e pop dos anos 80 e 90, um prato cheio pra mim, saudosista confessa, haha. O Quintal ainda tem o Canto Zen, onde Fernanda faz sessões de fisioterapia e acupuntura quando o restaurante está fechado.

As lagostas da Praia de Cueira

Seu Guido e sua bacia de R$ 1.500 de lagostas

Seu Guido e sua bacia: a R$ 150 cada lagosta, estamos ostentando com uns R$ 1.500 nas mãos :O

A praia de Cueira é talvez a mais conhecida de Boipeba. Todos os dias, próximo à hora do almoço, várias lanchas e barcos aportam lá para os turistas nadarem nas águas quentes e calmas e comerem as famosas lagostas do seu Guido. O acesso à praia se dá por uma trilha cheia de sombras que passa na porta de algumas pousadas. Tudo bem de boas, facinho, seja a pé ou pedalando. Foi lá que encontramos novamente com a Karen e suas cangas, que chamam muito a atenção dos turistas. Ela anda o dia todo pelas praias sempre tratando todo mundo com simpatia e conhece muito da ilha – nos falou até de casas para alugar por temporada e outras praias legais para conhecermos.

Catioro esperto seduzindo o Rogério em troca de petiscos do Guido's

Catioro esperto da praia de Cueira seduzindo o Rogério em troca de petiscos

O Guido’s Restaurante deve ser um dos lugares mais famosos da Bahia e está logo no início da praia. Lá, o seu Guido, um baixinho torcedor do Bahia, está sempre numa bancada do lado de fora, na areia, onde prepara as famosas lagostas num fogão a lenha. Tem gente que nem vai pra comer, mas só pra tirar foto – inclusive eu, haha. Ele recebe todos muito bem, está sempre conversando com os clientes e tem prazer em posar ao lado das pessoas com uma bacia de lagostas. Há outras barracas na praia e o cardápio do Guido’s também tem várias outras opções, mas sem dúvida os grandes crustáceos são as estrelas da área.

Bônus: Se você for além das praias de Cueira e de Moreré vai achar a praia de Bainema, que muita gente elogia também. Fomos lá um dia mas não ficamos muito, porque ela não tinha nenhuma barraca ou lugar para lanchar (ok, tinha um restaurante, mas ele não estava funcionando). Para quem quer sossego, no entanto, é perfeita. Praticamente ninguém nas areias, só mesmo o céu azul e mar calmo.

Despedir de Boipeba foi até triste, de tão relaxante que foi nossa estadia. Mas ainda faltava Morro de São Paulo e então combinamos com um barqueiro para nos atravessar de uma margem à outra do rio, por onde chegamos à Ilha de Tinharé – no norte dela fica a fervilhante Morro de São Paulo.

Clóvis, the Crab, um guaiamum saído de um buraco na pousada, gostou do ambiente fedido e úmido das sapatilhas

Clóvis, the Crab, um guaiamum saído de um buraco na pousada, gostou do ambiente fedido e úmido da minha sapatilha

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