Bem vindo à minha ficção IV: Querida Moyra

15 06 2016

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Junho. 2016, A.D.

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Querida Moyra.

Há quanto tempo não nos vemos? Acredito que há muitos meses… não, anos.

Mas o que são anos ou meses para criaturas como nós? Nada mais que horas para essas pessoas que vemos todos os dias pelas janelas e esquinas, talvez. Mas enfim – sinto sua falta. Sinto falta de nossas longas conversas sobre coisas que só nós nos lembramos e compreendemos. Coisas que só nós temos condições de conversar, por termos uma visão completa do quadro – por já termos visto seu princípio e seu fim.

Onde você está agora? Você ficou aqui tão pouco tempo! A única coisa boa que enxerguei depois que me recuperei de sua rápida e marcante passagem é que senti algo, o que eu chamaria de algo bom. Creio que estava desacostumado com essa sensação, enferrujado todo esse tempo, por isso custo tanto a definir. Foi estranho, mas eu gostei. Enfim.

Não tenho saído muito, nem mesmo para minhas observações ou para comer. Sei que preciso de ambas as coisas, mas simplesmente não tenho vontade. Perhaps estou cansado até disso. Tenho interagido pouco com as pessoas também. Acho-as chatas, repetitivas, pouco dispostas a realmente dialogarem. Só repetem coisas que vêem na televisão ou ouvem outros falarem, ou lêem em computadores ou naqueles jornais dependurados na rua. Da primeira vez eu ouço, por educação e por precisar me informar, ainda que minimamente; mas a partir da segunda já é como se eu soubesse tudo que elas dirão – e normalmente estou certo. É tudo vaidade; o que fazem, esses macacos amestrados aqui embaixo, é pura vaidade vazia de significado. Fazem porque acham bonito fazer, porque alguém que eles consideram referência fez. Puppets. Desconsidere esse arroubo, por favor.

De vez em quando encontro algum alento em minha vizinha. É uma mulher bonita e algo jovem. Vejo-a sempre só – já a vi chegar acompanhada de homens, mas nunca nenhum vem até o apartamento. De vida lá dentro, só mesmo ela e um cacto, que já vi em cima de uma mesa pela porta entreaberta. Às vezes ouço música vindo de lá e já a vi com livros. Ela sorri sempre que me vê e me deseja um “boa noite” cortês. Nas breves conversas que temos quando ela aparece, creio que retornando do trabalho, percebo que ela também busca fugir desse lugar comum onde estamos mergulhados. Vejo que pensa diferente – ouso dizer que é o mais próximo de você que tenho aqui.

Apesar de, para mim, política, economia e violência não fazerem mais nenhuma diferença, converso com ela sobre estes temas. Vejo a inquietação e a impotência em cada palavra que ela diz. E lamento. Lamento uma pessoa assim sozinha, é um desperdício – apesar de reconhecer que as grandes mentes se sentem mais à vontade sozinhas. Ela merecia vir para junto de nós… mas não sei se ela enxergaria esse futuro com os mesmos olhos que eu, se veria nessa oportunidade a mesma vingança da mesmice que eu vi quando tive meu momento. Prefiro não arriscar, não a quero infeliz.

Mas o que seria a infelicidade para ela? E se ela já está infeliz? Creio que sua infelicidade é agora. É o hoje, o hoje do jeito que está. Eu não sei. Ela me parece conformada. Talvez isso seja um dos caminhos para estar feliz: aceitar o que não pode ser mudado, respirar fundo e sorrir. E, Moyra querida, acredito que nem se minha bela vizinha de porta vivesse como nós, ela veria as mudanças que almeja e considera importantes. É. De fato, ela não merece essa espera eterna. Sua finitude é o caminho para a felicidade, indeed. Para pessoas tão sensíveis, que tanto sofrem com o que não podem mudar, o consolo é que um dia isso tudo acaba e nada mais nos afeta. Ou seja…

***

Minha solidão é quebrada pela peluda presença de Gato, recém-adicionado a esse apartamento. Como todo gato, ele tomou a liberdade de me escolher como seu “humano”. Entre aspas, porque sabemos que não é exatamente isso que sou. Divago.

Há uma semana, eu estava voltando para casa de uma caminhada pelo parque. Quase chegando aqui, percebi que era seguido furtivamente. Olhei para trás com mais atenção e a primeira coisa que vi foi um par de pontos brilhantes no escuro; então, um felino preto e branco saiu da sombra em um trote desenvolto e relaxado, se aproximou e esfregou-se em minhas pernas.

Nunca tive nenhum animal próximo, de estimação, você sabe. Acredito que o mais perto disso a que cheguei foi minha égua que montava nas caçadas, Fúria, a quem gostava de visitar no estábulo quando o resto me parecia muito tedioso. Porém, ao ver a confiança com que o gato me afagava, pensei que seria uma experiência interessante essa convivência. Peguei-o do chão, olhei-o nos olhos e ele não ofereceu resistência; muito pelo contrário, quando perguntei-lhe “você tem certeza?” ele devolveu-me o olhar e, com aquela tranquilidade que só os gatos conseguem demonstrar, respondeu-me: “sei bem o que você é e não tenho medo; sei que a mim você não fará mal”. Li naquela afirmação o medo que ele tinha das pessoas e a estupefação que sentimos quando somos atacados sem motivo, simplesmente por existirmos. Vi que éramos iguais. E iguais se unem para se proteger e se consolar em um mundo onde diferenças atraem temor e violência.

Gato é extremamente carinhoso e crítico. Ao mesmo tempo em que ronrona no meu colo, critica as efêmeras vitórias e falsas alegrias de uns e outros por causa de futebol e política. Quando eventualmente um vizinho o vê, ele espreguiça com uma certa simpatia, mas logo sai de vista deixando escapar um suspiro de enfado pelos seres humanos. Ele daria um ótimo ator. Seria uma presença constante nas elegantes casas da nossa época. Quase um Dorian Gray. Talvez eu devesse até mudar seu nome para Dorian… mas percebo que ele já se acostumou com o próprio nome. Gosta de sua objetividade e minimalismo.

Nesse exato momento em que te escrevo essa missiva, meu amigo felino está aqui, sentado na mesa, observando a pena se mexer enquanto as palavras surgem. O carinho que Gato tem comigo aquece meu outrora coração, em contrapartida ao enorme frio que tem feito de uns dias para cá. Às vezes ele deixa escapar que sente falta do sol, mas é solidário a mim na minha impossibilidade de conviver com tal luz. Em troca de tamanha gentileza, passei a abrir as cortinas a noite e, quando começa a amanhecer, fecho-me em outro quarto para que ele possa se esticar no calor. Ele gosta. E eu me sinto mais vivo, pode-se dizer assim, quando percebo que fui a causa dessa felicidade.

Querida Moyra, creio que você gostaria de nos ver agora. Tenho certeza que você e Gato se dariam muitíssimo bem: ambos tão elegantes, tão blasé, tão críticos e tão atraentes. Tão confortáveis em um mundo tão sem graça, tão conscientes de pairar acima de tanta mediocridade, inimputáveis, inatingíveis, intocáveis. Tão imbuídos da certeza de superioridade e da paz advinda disso. Às vezes paro para pensar quão engraçado é que eu até hoje não tenha chegado nesse patamar, mesmo tenho renascido tão antes de você. Talvez no fundo eu não sirva para o ofício – esse é o problema de tomar determinadas atitudes sob fortes paixões (a paixão originária de pathos, não do amor, frise-se). Com tanto tempo disponível, tudo um dia volta-se contra nós, até o que fizemos na certeza de um acerto.

Espero ansioso que esta carta te encontre, de alguma forma. Espero imensamente vê-la de novo. Espero que sintas o mesmo.

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Eternamente seu, Mathias.

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