Todas queremos ser a mãe do comercial

10 10 2015

amamentacaoQuando meu filho nasceu, ele mamou assim que o colocaram nos meus braços, ainda dentro da sala de parto.

Foi um momento inesquecível em que eu senti toda a felicidade e toda a dimensão do que era ser mãe. Horas depois, já limpo e vestido, ele veio para o quarto e mamou de novo, aumentando ainda mais a minha sensação de plenitude. Era como se meu corpo tivesse nascido para aquilo, foi tão natural que em nenhum momento parei para pensar na mecânica da coisa: ela simplesmente acontecia, naturalmente, e  o encaixe era perfeito.

E assim seguiu a experiência, cada dia mais enriquecedora e nos aproximando ainda mais. Ele mamou até os oito meses no peito, exclusivamente, e nenhum de nós nunca teve nenhum problema. Eu tinha muito leite e adorava amamentar. Eventualmente, até guardava o excedente para doar para um banco de leite, o que tornava tudo ainda mais gratificante. Ainda quando voltei a trabalhar, deixava já várias mamadeiras com meu leite para ele.

Minha dedicação em amamentar e a saúde do meu filho eram elogiadas por todo mundo – por isso eu digo: só é mãe de verdade quem amamentou.

.

.

.

.

Mentira.

Toda essa linda fábula é mentira. Comigo, infelizmente, isso nunca aconteceu.

.

Muito pelo contrário, quando meu filho nasceu, apesar de toda a minha torcida, levou dias para ele mamar no peito. Fiquei numa expectativa enorme em poder amamentá-lo, mas o leite custou a aparecer. Enquanto isso, para que ele não ficasse com fome, foi preciso entrar com os tais leites em pó. O médico orientou usar um copinho desses de café para dar o leite “para ele não desacostumar com o seio”, mas como fazer se o pobrezinho gritava de fome? Ao fim de alguns dias, não teve jeito: entrei com a mamadeira.

Uns 10 dias depois, o leite apareceu. Mas saía pouco, empedrava frequentemente (o que me dava febre e muita dor) e, para piorar, mesmo com todo o meu empenho em fazer tudo certo, o bico dos seios feriu e a dor era insuportável. Com o gosto de sangue e das pomadas cicatrizantes, o bebê não mamava – o que me levava de volta para a mamadeira. Bicos de silicone, adaptadores, bombinhas para tirar leite, tutoriais – tentei de tudo para contornar a situação. Coroando tudo isso, eu recebia olhares velados de reprovação e me cobrava cada vez mais. Com o stress e a frustração, o leite sumiu de vez. Os soutiens com abertura na frente, a poltrona de amamentação, os travesseiros que separei para ele se apoiar enquanto mamava – tudo praticamente sem uso.

Minha história real é essa, e a de milhares de mães também é. Mães que são tão boas mães quanto quaisquer outras e que também sonhavam em fazer tudo certinho, como manda o figurino.

Porque resolvi contar isso? Porque, cada vez que vejo uma mulher (ou até mesmo homem!) crucificar uma mãe por não ter amamentado, sofro tudo de novo e me revolta tanta falta de empatia em um momento em que, ainda que tenhamos mais de um filho, ficamos sempre meio perdidas. Não vou entrar nos méritos de porque cada uma não amamenta; não pretendo julgar ninguém.

Essa semana mesmo vi uma mãe ser crucificada na internet por cobrar do pai do filho de dois meses dinheiro para comprar o leite dele. Em uma das críticas, uma mulher diz: “só queria saber porque ela não está dando o peito, que é de graça”. Seguiu-se um debate e eu, que queria ter vivido essa linda história de comercial que inventei acima, me reconheci em vários relatos de mães que, assim como eu, não conseguiram amamentar. Teve mãe que tomava remédios fortes e não pode; outras tinham problemas nos seios; e outras ainda que tiveram partos complicados que acabaram interferindo nisso.

Em todos os relatos, a mesma frustração que eu tenho até hoje e a mesma sensação de sofrer de novo pelo julgamento de quem, na maioria das vezes, nem filho tem – mas é expert nas teorias que no papel sempre funcionam. O ponto é: ser mãe é muito mais do que dar o peito e eu tenho CERTEZA que cada uma que não consegue amamentar já se cobra o suficiente por isso, porque é uma barra não corresponder à imagem da mãe de propaganda que acreditamos que seremos.

Fernanda Gentil, jornalista da Rede Globo, também teve problemas ao amamentar e resolveu dividir a história no perfil dela no Facebook. Mais polêmica e acusações (e olha que ela ainda foi um pouco poupada por ser famosa). Novamente, não pretendo julgar; o que me importa é que é mais um caso em que miramos em uma coisa, e acertamos em outra – e nos culpamos eternamente por isso. Aproveitando o gancho, o Saúde Plena, do Portal Uai, fez uma reportagem muito boa sobre mitos e verdades da amamentação e um trecho me chamou especialmente a atenção:

A pediatra Paula Marconi lembra ainda que as campanhas de amamentação que mostram a mulher sempre feliz com um bebê gordinho no colo reforçam essa ideia de que amamentar é algo automático: “Não é assim. O bebê não nasce sabendo mamar, ele tem reflexos de sucção e de busca pelo peito materno, mas ele precisa de ajuda para aprender a pega correta e vai precisar sugar algumas vezes para também aprender que precisa parar para respirar. É natural, mas não é automático. A mulher que deu à luz não necessariamente foi bem orientada em relação à amamentação e ela pode, sim, ter dificuldades e se sentir culpada por se espelhar numa imagem perfeita propagada por essas campanhas”.

Ou seja: nos cobramos e somos cobradas sem dó por um ideal que não corresponde à realidade. E essa cobrança afeta negativamente o que poderia ser um período de aprendizagem e descoberta em tornar-se mãe.

Fernanda_Gentil_FB

Quem nos dera o corpo fosse uma equação matemática, sempre exata e previsível. Quem nos dera todos que nos rodeiam quando nasce um filho compreendessem que queremos fazer o melhor, mas muitas vezes não temos experiência para saber como. Cada filho é uma experiência única, cada gravidez é diferente da outra, cada mãe passa de um jeito por tudo isso e todas erram tentando acertar.  A amamentação é a mesma coisa: para cada uma é de um jeito, mas todas nós queremos que dê certo – que nem na propaganda da TV.

Anúncios

Ações

Information

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




%d blogueiros gostam disto: