O arroz é o sinal

5 07 2014

Depois de muito planejar, enrolar, adiar, desistir e retomar, finalmente vim morar sozinha.

Cheguei aqui depois de muita pesquisa e de muito esperar. E enfim achei! O apartamento é grande o suficiente para ter cara de casa própria, mas pequeno o necessário para me fazer sentir aconchegada; está rodeado por linhas de ônibus para praticamente toda a cidade e agora não levo mais que meia hora para chegar ao trabalho; está exatamente na metade do prédio, o que me dá uma boa vista e um isolamento razoável do som da rua; está perto de muitos comércios e das casas das pessoas que me importam – e ainda por cima não tem vaga de garagem, o que fez o valor do aluguel cair bastante. Ou seja, é o que eu precisava.

Esse é o espírito da coisa. :)

Esse é o espírito da coisa. 🙂

Ainda há móveis e utensílios faltando, livros e filmes fora do lugar, ainda não tenho noção de quantidade das coisas (ainda faço compras e cozinho tendo quatro pessoas como referencial), ainda não conheço meus vizinhos e continuo não reconhecendo cheiro de gás ou comida estragada, mas, até agora, tudo caminha maravilhosamente bem. Até me viro sem máquina de lavar, vejam vocês.

Apesar de ter me adaptado muito bem à vida sozinha, em alguns dias eu ainda sentia que faltava alguma coisa. Era como se a minha casa não fosse de fato uma casa, mas só um quartão com mais ambientes; como se a qualquer hora minha mãe fosse entrar pela porta perguntando se eu ia jantar, sabe? Até o dia em que eu fiz o arroz.

Antes de seguir, preciso explicar a simbologia do arroz na minha vida para que vocês entendam porque ele fez tanta diferença a ponto de merecer um texto só dele.

Desde criança, eu associo arroz às principais refeições do dia. Apesar de muitos darem esse lugar ao feijão, na minha cabeça sempre foi o arroz o personagem principal do meio do dia e do final dele. Arroz, para mim, era sinônimo de momento importante. Eu achava incrível quando minha mãe virava a água fervente no arroz torrado na panela e uma grande fumaça subia, acompanhada de um chiado. Para mim e minhas irmãs, era mágica – “olha a bruxa!”, gritávamos. O cheiro do arroz envolvia a casa toda e isso indicava que era hora de reunir todo mundo e sentar para comer. Todo prato tinha arroz. Mesmo quando tinha macarrão, tinha arroz também. E era sempre ele que ocupava a maior parte do prato.

Eu cresci e minhas tentativas de fazer arroz eram sempre canhestras – num dia ficava duro demais; no outro, empapava; em mais um, o tempero era pouco ou demais; em outro, eu errava a mão na quantidade. Era frustrante. Não conseguir fazer arroz me deixava com aquela sensação de ser incompetente, inútil, já que ele era a peça central da refeição lá em casa. Então, quando eu “estragava” o arroz, ficava faltando uma parte importante no prato de todo mundo.

Apesar de hoje em dia ter menos gente reunida em casa na hora do almoço, o processo de cozimento ainda é o mesmo e o sentido de “sustança” do arroz também. E foi com tudo isso em mente que eu preparei uma panela de arroz aqui em casa outro dia.

Enquanto eu lavava o arroz, eu lembrava do lavador de arroz e da paciência com que mãe ou pai mexiam os grãos e trocavam a água várias vezes até ela sair limpa; enquanto eu torrava o arroz na panela, eu ouvia pai dizer que “o segredo é torrar o arroz bem torrado e sem botar o tempero” e juntava mais um pouco de paciência à tarefa; paralelamente, em outra trempe do fogão, a água fervia e eu pensava na fumaça e no chiado que surgiriam quando eu a virasse à mistura; enquanto olhava a medida de arroz, pensava se dessa vez eu ia acertar a mão no tempero. Virei a água fervente no arroz torrado, me esquivei dos chuviscos que subiram da panela e coloquei tempero de alho. E esperei.

Quando a água secou, eu abri a panela e o cheiro de arroz novo inundou o apartamento. Quando provei e vi que ele estava branco, macio, com tempero no ponto e soltinho, como eu me lembrava dele na casa dos meus pais desde criança, exatamente o arroz que me lembrava as pessoas reunidas para a principal refeição do dia, eu pensei: “sim, estou em casa. De fato, na minha casa”.

O arroz perfeito diz: sim, você está em casa e esta é, de fato, uma casa.

O arroz perfeito diz: sim, você está em casa e esta é, de fato, uma casa.

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2 responses

16 03 2017
Adeus, querida Quebrada | Janaina Rochido, jornalista

[…] Morar sozinho me transformou em uma pessoa melhor, fortalecida. É uma experiência enriquecedora que todo mundo deveria poder experimentar um dia. De preferência, em um lugar grande o suficiente para ter cara de casa própria, mas pequeno o necessário para te fazer se senti…. […]

20 07 2014
E esses espaços todos? | Janaina Rochido, jornalista

[…] Como eu disse daquela vez, “o apartamento é grande o suficiente para ter cara de casa própria, mas pequeno o necessário para me fazer sentir aconchegada” – mas, ainda assim, estranho a quantidade de lugares vazios, sem nada neles. E sem precisar necessariamente ter alguma coisa neles. […]

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