Prazer, eu sou o cabelo real da Janaina – Parte 2

30 01 2014

Pois bem.

E eu continuo aqui, com cabelo crespo e curto, observando as mudanças no meu dia a dia e na forma como as pessoas me percebem agora – e sobre isso que eu quero falar nessa segunda parte do texto, depois de falar das questões mais técnicas, mais objetivas na primeira. O que não muda, de qualquer forma, é que eu continuo AMANDO ter cortado o cabelo e tê-lo assumido crespo. 🙂

Mas, como eu tinha adiantado naquele post, uma das coisas mais interessantes é a reação das pessoas ao meu visual novo. Muita, muita, muita gente mesmo achou lindo e veio me dizer que foi uma decisão excelente, que até combinou mais comigo, que me deixou mais jovem, mais alegre, destacou meu rosto, etc. Algumas dessas pessoas já me sugeriam usar o cabelo natural há muito tempo, mas né, como eu disse, antes o “contexto” não me era favorável.

Minha família…

Pessoal lá em casa ficou mais ou menos assim: entre o curioso e o horrorizado

Pessoal lá em casa ficou mais ou menos assim: entre o curioso e o horrorizado

Ficou chocada. Não comentei muito sobre o que iria fazer e eles não acreditavam muito que eu tivesse coragem. Achavam que ficaria horrível e que eu me arrependeria amargamente. Bem, eles saíram de viagem numa sexta me deixando com meu cabelão mezzo liso e mezzo estranho e, no domingo, quando retornaram, me encontraram com um cabelo crespo cheio de volume e pose, haha. Mas eu os compreendo: por anos e anos e anos minha mãe sofreu com as três filhas chorando pelos apelidos na escola e por não terem o cabelo liso como o dela; tentou e testou várias formas de amenizar a situação, mas somente quando crescemos é que conseguimos nos virar direito. “Então como é que uma delas vai e tosa o cabelo todo, voltando ao que ela tanto reclamava, depois de usar um cabelão alisado mantido com o maior cuidado por anos e anos?” – sim, foi meio demais para a cabeça dela. Todos me olharam meio de lado, estranhando, mas agora parecem já estar se acostumando.

Quer dizer, quase todos: meu filho de nove anos declarou que achou horroroso, que eu fiquei muito feia com um “black power” e que eu deveria voltar a ter o cabelo liso. Eu o entendo também: nos ambientes em que ele mais convive não há pessoas com cabelo crespo, tampouco negras. Nos jogos do videogame e do computador, as heroínas têm cabelos curtinhos à la Mayana Moura ou looooongos cabelos esvoaçantes que nunca ficam presos nas árvores e nem nas ruínas por onde elas correm e atiram (engraçado, né?). Logo, ele não acha bonito porque não tem essa vivência – o que não me impede de conversar com ele e explicar que as pessoas são todas diferentes e que a beleza depende da visão de cada um, não é uma coisa única, cristalizada. Também falei com ele para observar mais as pessoas, que, logo, logo ele verá mais mulheres como a mãe dele é agora. Ele ficou pensativo… rs.

E tem os homens… que não assobiam mais na rua!

Weeee! #Free #Vestidos

Weeee! #Free #Vestidos

Devo confessar que, apesar da minha autoestima ter dado um salto já há um bom tempo, sim, eu ainda tenho um pézinho bem discreto no campo das pessoas que se importam com o que as outras pensam delas. E, apesar de já ter passado muita chateação com homem (ih, falei), eles ainda me interessam e eu penso em aceitar um na minha vida de novo.

Confissão feita, teve dias em que me bateu uma insegurança danada sobre o corte. “Será que vou mesmo ficar bonita?”, “será que ainda serei atraente?” – sim, eu me perguntei essas coisas algumas vezes (mas calei todas e meti a tesoura do mesmo jeito). E o resultado me surpreendeu no quesito “como os homens me percebem” também: por exemplo, eu simplesmente PAREI de ouvir gracinhas/grosserias na rua. Oh!

Essa foi uma das coisas que eu achei mais legais em ter o cabelo curto e crespo. Coincidência ou não, não ouço mais os odiosos “goshtosa!”, “delícia!”, “te chupo toda!” quando ando na rua – eles me olham com um olhar entre o curioso e o desinteressado, alguns torcem o nariz, mas não dizem nada. É maravilhoso! Até fiz alguns testes: já saí para trabalhar com vestidos, saias, decotes, roupas justas e… NADA! Passei em frente às duas obras que tem perto de onde eu trabalho e… NADA também! Fiquei invisível! \o/

Eu, cá comigo, acredito que o estranhamento deles deve-se ao lugar que o cabelo comprido ocupa no imaginário masculino. A publicidade, a TV, as revistas de mulher pelada, os filmes pornôs, falam o que para eles o tempo todo? Que uma mulher, para ser feminina, cheirosa, doce, mansa e ‘quente’, tem que ter cabelão – um cabelão liso, brilhante, esvoaçante e jogado para um lado e para o outro o tempo todo, assim, acompanhado por um olhar meio enviesado e misterioso. Então, o que é uma mulher com um cabelo curto, crespo e volumoso? É qualquer coisa, menos uma mulher feminina, cheirosa, doce, mansa e ‘quente’, ao alcance das fantasias deles. O mais comum, aliás, é eles acharem direto que somos lésbicas (estou, inclusive, no aguardo do primeiro que vai tentar me atacar me chamando de “sapatão”, hahahahahaha). Independente disso, o que eu sei é que estou adorando estar [visualmente] diferente da maioria.

Salto de “qualidade”

Fiquei feliz também porque a, digamos, “qualidade” das interações melhorou bastante. Hoje, quando me abordam, tem sido para conversar (e sem meter a mão) – papos bons, coisas interessantes (e, vamos combinar, quer coisa mais linda do que um homem com uma conversa legal?). Minha irmã (que também já teve cabelo curto) acredita que isso acontece porque o cabelo curto está associado a mulheres inteligentes, sofisticadas, “de outro nível”, então isso seleciona melhor quem aparece. É uma teoria interessante, mas abro mão dela porque conheço mulheres que são tudo isso e têm longos cabelos de propaganda de shampoo.

Apesar de não ser exatamente verdade, essa teoria de que cabelo curto é coisa de mulher inteligente e sofisticada muito me agrada. :)

Apesar de não ser exatamente verdade, essa teoria de que cabelo curto é coisa de mulher inteligente e sofisticada muito me agrada. 🙂

Quanto aos homens mais próximos de mim, reparei que alguns que viviam flertando simplesmente sumiram. Pararam de enviar mensagens e até os “Curtir” no Facebook minguaram. Ok que eu nunca fui de manter ninguém “amarrado” a mim por meio de expectativas e promessas (acho muito desonesto), mas foi uma coincidência curiosa – talvez o cabelão ocupe um lugar importante nas fantasias deles também, e eu ter saído desse rol os deixou meio desiludidos. Por outro lado, alguns caras – que eu sempre achei sensacionais, diga-se de passagem – de repente parecem ter me reparado, ainda que só por uns momentos, no burburinho das fotos no Facebook e no Instagram; é mais uma faceta da melhoria da “qualidade” das interações, ao meu ver.

Ponho “qualidade” entre aspas porque não quero, de forma nenhuma, determinar do que o sujeito “tem” que gostar para ser visto como isso ou aquilo. Gosto é gosto, como dizem. Acho que a atração não pode ser regida pelos rótulos ou pelo que a moda, o politicamente correto, o partido, o movimento, whatever, mandam. Enfim.

E eu…

Quanto a mim, como eu disse lá na parte 1 desse texto, me sinto outra mulher: mais segura, mais autoconfiante, mais livre e mais serena. E, de repente, eu passei a ser convidada para fazer parte de grupos de mulheres que também resolveram assumir seus cabelos, seus crespos, seus cachos, sua negritude, sua identidade – e me sinto muito bem neles, estou gostando desse retorno às raízes, digamos; de compartilhar experiências com essas mulheres que têm histórias tão parecidas com as minhas sobre como conviveram com seus cabelos ao longo da vida.

Conheço muitas mulheres (e adolescentes, meninas) que não estão satisfeitas com os cabelos alisados, mas ainda não sabem se querem mudar. Apesar de apregoar as maravilhas que tenho sentido com minha nova fase, sempre digo a elas que só façam o big chop quando estiverem muito certas e seguras disso, quando se sentirem fortes e confiantes, senão a autoestima, ao invés de dar um salto, some de uma vez. E, vamos combinar: mudança de visual combina é com alto astral. O caminhar tem que ser para frente, para cima, sempre.

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