Cuidado para não matar um sonho

30 12 2013

Estava lendo (de novo) esse texto no blog AnsiaMente, da Carmen Guerreiro (sugiro que você o leia até antes do meu), e lembrei que, quando eu era criança, quis ser desenhista – mas então vieram e mataram meu sonho.

Com a virada do ano aí na porta, época em que muita gente faz promessas e deseja retomar um desejo antigo, ou dar o primeiro passo para um caminho novo, é importante a gente lembrar de não matar os sonhos dos outros.

Com seis anos, em 1987: não é a BatGirl, mas era outra versão da minha mãe

Com seis anos, em 1987: não é a BatGirl, mas era outra versão da minha mãe

Vou me usar como exemplo. Eu nasci sabendo desenhar. É sério. Com seis anos, no jardim de infância, eu já ganhava elogios pelos meus desenhos – lembro de uma vez em que pediram para desenharmos nossa mãe e eu desenhei a minha vestida de BatGirl, com o uniforme completo (só errei o lado para o qual o joelho dobra, mas ok, em compensação as duas mãos tinham cinco dedos). Continuei assim, fui juntando lápis de cor, tintas, referências, elogios e estrelinhas das professoras e amigos da escola. Pedia para a minha mãe trazer do trabalho aquelas folhas enormes de formulário contínuo e adorava aqueles cartazes de propaganda eleitoral, porque eram enormes e o verso era uma ótima tela.

Com nove anos: trecho de uma das HQs - clique para ver maior

Com nove anos: trecho de uma das HQs – clique para ver maior

Eu queria fazer aquilo da vida. Não sabia por onde começar, mas queria estudar. Descobri que existia um curso chamado Belas Artes e decidi que ia fazer. Mas aí começaram as frases clássicas: “Isso não dá dinheiro”, “você vai morrer de fome”, “esse trabalho não vai te sustentar”. Desanimei um pouco com essa enxurrada de “profecias”, mas, ainda assim, eu desenhava, e ia, por minha conta, juntando lápis, grafites, réguas, borrachas e lendo/aprendendo sobre arte e técnicas de desenho. Até fiz algumas HQs e participei de (e ganhei) alguns concursos de desenho, mas…

Minha última tentativa de ser desenhista foi com uns 19, 20 anos: fui a uma dessas feiras de profissões, onde as escolas exibem seus cursos, e conversei com um representante de uma escola de arte da Inglaterra. Fiquei extasiada! Eu já tinha vontade de conhecer a Inglaterra por conta das músicas que eu ouvia, e agora poderia, ainda por cima, estudar desenho lá! Peguei os formulários, fui pra casa e comecei a juntar meus desenhos para montar um portfólio e mandar para eles. No meio do processo, me perguntaram o que eu estava fazendo. Expliquei e tomei meu derradeiro balde de água fria: “ficou louca? Mesmo que você ganhe uma bolsa, vai viver de que? De arte? Isso não sustenta ninguém”.

Com 15 anos e amante de bandas europeias, fiz um retrato de um personagem do Bono Vox

Com 15 anos e amante de bandas europeias, fiz um retrato de um personagem do Bono Vox

Fiquei extremamente triste. Desisti.

Hoje, com 33 anos, tenho ainda mais lápis, programas de computador, uma tablet (é isso aqui, ó), já fui à Inglaterra e tenho condições de comprar o papel e a tinta que eu quiser. Mas a minha coragem pra desenhar nunca mais foi a mesma, é como se a minha mão perdesse o tesão quando encosta no lápis – a ideia não flui da cabeça para o papel. Fiz um ou outro depois daquele dia, mas nunca mais com a mesma vida, o mesmo fervor. Tudo porque o que me disseram quando eu tinha 20 anos fica ecoando aqui dentro e faz eu me sentir como se estivesse “perdendo tempo” com algo inútil.

“Você consegue olhar para trás e lembrar do momento em que incutiu que algo era “bom demais” ou “difícil demais” para você? Aposto que a maior parte desses momentos estava ligada a um adulto que disse que aquilo não era o caminho certo, ou que deu de ombros para a sua ideia”, diz a Carmen Guerreiro em seu texto. Eu lembro exatamente desse momento e é algo que me entristece até hoje. Quantas vezes já fizemos essa maldade com os outros, mesmo sem querer?

O último, em 2012 e já finalizado no computador, foi um desenho para a porta da maternidade, quando minha sobrinha nasceu. E foi só porque pediram...

O último, em 2012 e já finalizado no computador, foi um desenho para a porta da maternidade, quando minha sobrinha nasceu. E foi só porque pediram…

O texto dela vai mais a fundo nessa questão de não matar sonhos (o meu acabou sendo mais um desabafo, vá), então eu serei mais rasa e mais direta: não mate os sonhos de alguém. Mesmo uma crítica, tente não fazê-la com o objetivo de destruir – resista. Matando sonhos nós podemos estar podando uma pessoa que fará algo sensacional para o mundo, já pensou nisso? Citando de novo o texto do AnsiaMente, “Se todos achassem que ser astronauta, escritor, artista profissional, ator reconhecido, trabalhar na organização que admiramos (Pixar, ONU, Google etc.) é ‘demais’, não existiriam pessoas trabalhando nessa realidade”.

O meu filho de nove anos já me disse que gostaria de ser gráfico, baterista ou artista de TV. Eu, cá comigo, preferia que ele fosse engenheiro, já que ele se dá muito bem com matemática, mas  nunca disse a ele que ele não poderia ser essas outras coisas todas; “seja o que você quiser, o importante é você estudar, aprender e gostar do que faz”, arrisco-me a aconselhar. Quando a gente gosta do que faz, fatalmente é mais feliz trabalhando (ainda que o retorno demore um pouco mais do que a vida exige).

O ano está a ponto de virar e é muito bom quando você faz isso com uma perspectiva boa. É muito bom manter seus sonhos. Se for para ele não se realizar, que você mesmo perceba isso – ninguém melhor do que o dono do sonho para saber lidar com o sucesso ou fracasso dele.

Feliz 2014 e que seus sonhos se realizem, especialmente aqueles que todos acham impossíveis. 🙂

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One response

4 01 2014
José Francisco de Assis

Quem não teve um sonho desfeito…que atire a primeira pedra. Adorei o que escrevestes…como sempre, magnifica!

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