Todo dia, um absurdo diferente

1 12 2013

Tenho reparado que uma das expressões que mais tenho utilizado de uns tempos para cá é “um absurdo”. E achei isso um absurdo. Achei absurdo eu estar achando tanta coisa absurda – não é assim que a vida deveria ser, certo?

É claro que não deveria.

Parei para pensar e vi que na verdade o que me trouxe tantos “absurdos” de uma vez não foi a vida ou uma mudança repentina no cotidiano, mas uma percepção de que tem muita, mas muita coisa errada no nosso dia a dia mas, de tanto vê-las por aí, acabamos naturalizando aquilo tudo e paramos de perceber que está errado.

Então, quando você “acorda” para esses detalhes, começa a achar tudo “um absurdo”.

... e o perigo é esse mesmo.

… e o perigo é esse mesmo.

Senão vejamos (sem nenhuma ordem específica, seguindo só o fluxo do pensamento):

– É um absurdo eu gastar UMA HORA E MEIA para chegar ao trabalho, sendo que: estamos ambos dentro da mesma cidade e não tão longe um do outro; essa cidade não é tão grande assim; o ônibus passa toda hora; meu horário não coincide com a hora do rush – ou seja…

– É um absurdo eu pedir para o motorista do ônibus parar no ponto e ele debochar da minha cara e parar no quarteirão seguinte – detalhe: normalmente tarde da noite;

– É um absurdo as pessoas acharem “normal” dividirem o espaço do ônibus com sujeira, assentos quebrados, goteiras e… baratas. Mesmo o assunto virando reportagem na TV, nada muda, tampouco merece a atenção dos responsáveis;

– É um absurdo ter que atravessar correndo uma faixa de pedestres porque os carros simplesmente avançam sobre você, mesmo com o sinal ainda verde para atravessar – e ainda te xingam;

– Pensando nisso, é um absurdo não termos alternativa no trânsito – ou você se sente seguro andando de bicicleta por aí, deixando-a presa em algum lugar enquanto almoça ou faz compras? Eu não;

– Aliás, ainda falando em bicicletas, o simples fato de termos que andar nelas usando todo tipo de aparato de segurança já mostra o respeito que [não] se tem pelo ciclista, o que é um absurdo;

Segurança– É um puta absurdo não podermos dormir com as janelas abertas no calor, senão alguém entra e te rouba (no mínimo);

– É um absurdo eu não poder usufruir do conforto que o dinheiro que ganho com o meu trabalho me proporciona, senão viro alvo de ladrões e aproveitadores. Atender a um smartphone na rua? Abrir um laptop no ônibus? Ler num tablet no ponto de ônibus? JAMAIS;

– Aliás, é um absurdo gigantesco ter que ficar preso em casa por grades, alarmes, cercas elétricas, concertinas, cacos de vidro, cães de guarda, interfones, videofones e afins, sem mal conhecer seus vizinhos;

– É um grandessíssimo absurdo eu pagar por segurança, saúde e educação particulares, sendo que já pago via impostos caríssimos que me cobram todo mês (não vou entrar nesse mérito, senão rende outro post);

– É um absurdo dos bons eu ir ao médico e ele nem ao menos olhar na minha cara para me diagnosticar, não perguntar um mínimo sequer da minha vida, sendo que uma doença é, no fim das contas, causada por um conjunto de fatores além dos sintomas físicos;

– É um absurdo eu aceitar que qualquer um, especialmente se está me prestando um serviço, me trate com grosseria ou desonestidade – se você não trata ninguém assim, então não tem que aceitar ser bode expiatório de ninguém;

– É um absurdo você ser alvo de risadas e/ou reprovação por querer fazer o certo, sendo que todo mundo faz – e te oferece – o errado;

– É uma droga de um absurdo eu ensinar meu filho a ser uma pessoa que não discrimina, não usa de violência, não maltrata, mas logo depois ter que permitir que ele use essas coisas para se defender de outras crianças, já que ninguém se preocupou em ensiná-las;

– É um absurdo você ser a parte errada por se recusar a ser assediada (é disso e disso que eu estou falando);

E tem gente que ainda acha bonito.

E tem gente que ainda acha bonito.

– É um absurdo as pessoas mentirem umas para as outras. Já pararam para pensar nisso? É um absurdo. Mais ainda se for alguém da sua confiança, alguém que te conhece e que você achava que conhecia;

– Vira um absurdo ainda maior se negar que mentiu. Enfim – eu poderia discursar horas sobre isso;

– É um triste absurdo a sua família ser a primeira a te recriminar em situações nos quais ela deveria ser a primeira a te proteger e te apoiar;

– É um absurdo essa explosão do revenge porn. Eu realmente não consigo entender, não adianta quantas explicações eu receba, porque diabos uma pessoa (normalmente homem) queira descer a um nível tão baixo na vida a fim de provocar sofrimento em outra;

– Torna-se ainda mais absurdo, ao meu ver, quando você pensa que, por causa disso, somos TODOS obrigados a renegar nossas fantasias e a limitar nossa confiança em alguém com quem deveríamos ter intimidade para curtir momentos a dois;

– Nesse sentido, acho um absurdo surgirem aplicativos como Lulu, Tubby e afins, que em nada ajudam as pessoas a se conscientizarem do problema, mas sim agir como crianças da 3ª série protagonizando um “meninos vs. meninas” com potencial mais ofensivo e danos mais abrangentes;

– É ainda mais absurdo quando você é sacaneado por alguém em quem você confia e ainda leva a culpa por isso. Gente, confiar não é crime – por mais que hoje seja difícil fazer isso –, crime é trair a confiança que depositam em você!;

Tirinha publicada originalmente no blog da Aline Valek – clique na imagem para ir para a postagem original.

– Somos obrigados a “confiar desconfiando” até de quem amamos – isso é vida? Não, isso é um absurdo.

E a parte mais absurda é que essa lista tende a crescer dia após dia. Lutamos, lutamos, nos indignamos, mas a sensação de “dar murro em ponta de faca” não passa. Persistir contra os absurdos é um desafio absurdo.

E você, qual absurdo tem a acrescentar?

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