A reunião dos Alisados Anônimos

26 09 2013

placa_AlisAnO barulho das cadeiras se arrastando na sala para e o anfitrião começa:

– Boa noite a todos. Para quem está aqui hoje pela primeira vez, somos um grupo de cabelos que quer deixar o vício em alisantes e tratamentos afins. Nós trocamos experiências para nos fortalecer e nos ajudarmos uns aos outros. Sejam todos bem vindos a nossa reunião.

Murmúrios respondendo ao “boa noite” do anfitrião são ouvidos pela sala e ele retoma a palavra, apontando para um novato sentado na cadeira oposta à sua na formação em círculo:

– Vejo que você está vindo pela primeira vez – gostaria de se apresentar ao grupo?

O novato se ajeita na ponta da cadeira, meio sem jeito, e começa a falar:

– Boa noite. Eu sou o cabelo crespo e castanho escuro de uma mulher de 33 anos. Uso alisantes há 23 anos e quero parar.

Murmúrios respondendo ao “boa noite” e de apoio são ouvidos e o novato é incentivado a continuar sua história.

– Bom, essa é a terceira vez que eu tento parar de usar. Agora eu espero conseguir… tenho até me sentido mais tranqüilo. A mulher também está animada. Estamos nos conhecendo melhor dessa vez, com mais maturidade, nos aceitando mais, enxergando novas possibilidades. Estamos animados, apesar de um pouco sem saber como conduzir a coisa toda… e apesar da pressão para marcarmos outro horário no salão logo.

Um cabelo maltratado por tinturas (que frequenta um grupo para dependentes de henê às segundas-feiras), não se aguenta e pergunta como ele começou no vício. Ele se ajeita na cadeira de novo e continua:

– Bom, você sabe, a gente começa com isso para calar um sofrimento, para ser aceito. Comigo não foi diferente… quando começamos a frequentar a escola, nos anos 80, não existia isso de cabelo crespo bonito. Ou você era liso ou você era feio. Eu era o feio. As bonecas e apresentadoras da TV não tinham cabelo crespo, então não tinha como ser bonito, era assim o pensamento. Durante um tempo, nós estávamos protegidos pela mãe e ficava tudo bem usando chiquinhas, rabos de cavalo, cachinhos, lacinhos e tal. Mas, à medida que fomos crescendo, foi ficando difícil resistir ao padrão. Aí, com dez anos, fiz minha primeira aplicação.

Os presentes olham e balançam as cabeças, em solidariedade. Todo mundo ali tinha uma história parecida.

– Não ficou muito bom… ninguém sabia direito os efeitos daquilo, ninguém sabia manter, acabamos chamando a atenção das outras crianças e começaram a vir os apelidos: cabelo de bombril, palha de aço, cabelo duro. Diziam que iam me cortar para ariar panelas e esfregar o chão. Era desesperador. Resolvemos insistir, mas os resultados eram desastrosos do mesmo jeito e passamos a nos isolar nas tiaras, rabos de cavalo, tranças, presilhas de todos os tipos, nos cantos da sala e nas notas boas na escola, para ver se desviava a atenção. Vivemos assim por mais algum tempo e era difícil manter o vício, afinal, não havia muitos produtos para cabelos de crianças no começo dos anos 90. Ok, tinha alguns, mas os riscos eram enormes, eu quebrava e caía com facilidade – isso quando alguém topava aplicar.

placa_soporhojeEntão, com 12 anos, fizemos nossa primeira tentativa de largar tudo, graças à própria escola, ironicamente. Tínhamos uma colega de sala que usava um lindo cabelo crespo cortado na altura das orelhas e a cada dia usava uma tiara diferente e ninguém falava nada, ela nem tinha apelidos. Então pensamos: “uau! Isso dá pra fazer!”. A mulher – na época uma menina, né – fez uma bela faixa e a bordou com flores e folhas, enquanto eu fui cortado na altura das orelhas. Estávamos ansiosos para usar o visual novo e enfim sermos livres. No entanto, quando saímos do salão e eu comecei a secar, o medo voltou. Quanto mais volumoso eu ficava, mais atraía a atenção das pessoas e isso apavorou a menina. Não conseguimos sequer usar a faixa, fui logo amarrado e começou uma nova peregrinação em busca do alisante perfeito.

O crespo da cadeira ao lado, já quase sem sinais de alisante, coloca a mão no ombro do novato e sorri de leve – sim, ele também conhecia bem essa história.

– Anos depois, com 23 anos, fizemos uma segunda tentativa de parar com o alisante. Aliás, não foi beeeeeem uma tentativa, foi uma obrigação, porque a mulher ficou grávida. Até teríamos continuado, mas como ninguém sabia dizer dos riscos para o bebê, acabamos sendo obrigados a parar. Mas foi horrível, foi péssimo! Um pesadelo de abstinência. Com a falta de hábito em estar crespo, eu fiquei indomável. Evitávamos o espelho, eu ficava preso de todas as formas e só ficava um pouco mais solto molhado e besuntado de cremes sufocantes. O desespero foi tanto que, antes mesmo do bebê nascer, a caixa de alisante já nos esperava no armário do banheiro. E, logo que o menino completou dois meses, fui novamente cortado, ganhei uma franja e fui alisado novamente. Foi um alívio…

– Fomos levando a vida e, como eu era forte e resistia bem aos produtos, experimentei vários outros quando o meu preferido foi retirado de linha. Tioglicolato de amônio, hidróxido de sódio, guanidina, pastas, relaxamentos… até formol e tinturas eu usei, às vezes tudo junto. Graças a Deus tive medo e não usei henê, senão nem sei se estaria aqui contando isso tudo para vocês… eu achava que podia tudo.

Um cabelo com muitos fios quebrados, ainda com marcas fortes de alisamento, chora baixo em uma das cadeiras e, com a mão no rosto, xinga um palavrão quando ouve sobre a mistura de tinturas e alisamento. “Isso quase acabou com a minha vida”, diz, entre dentes.

– Achamos então uma profissional que conseguia arrumar e aplicava algo parecido com o alisante que eu mais gostava, o que tinha sumido do mercado. Era caríssimo, mas valia a pena. Tive que reduzir as doses por isso mesmo, mas o efeito era fantástico! Virei um cabelo de índio e achamos que passaríamos a vida em paz assim. Como a mulher ia conseguindo empregos melhores e ganhava mais dinheiro, entramos numa vida de luxo: salão toda hora, profissionais e tratamentos caros, um arsenal de chapinhas, babyliss e escovas em casa.

Mas isso começou a ficar insustentável. Depois de um tempo, mesmo chapado de alisante, eu não conseguia mais parecer de fato um cabelo liso; até tive que deixar a franja, porque ela não assentava mais. Passava a maior parte do tempo preso em elegantes rabos de cavalo e belas tiaras – mas ainda assim, preso. Longe das pessoas, ficava sempre contido por um coque, mesmo que tivéssemos acabado de voltar do salão. Quando saía solto, era sempre com mousses e truques para controlar o tal frizz, efeito colateral dos alisamentos contínuos, já que eu quebrava muito e os fios que nasciam não se intimidavam com tiaras e afins. De repente, o armário do banheiro era uma selva de produtos, e nós, reféns, já que nenhum deles me permitia entrar na água e continuar liso; dormir solto sem levantar descabelado; ou passar mais de três ou quatro dias sem escova e chapinha, já que a cara de “arame” era cada vez mais recorrente depois de um dia fora de casa. Já estávamos desesperados por liberdade, mas com medo de mudar.

– Você está indo muito bem. Continue. – sorri o anfitrião da reunião.

proibido-chapinha-jb– Então um dia a mulher teve que desmarcar o salão e eu fui lavado em casa. A mulher viu que não doeu tanto assim ficar sem a escova e a chapinha. Acho que foi aí que resolvemos pensar a sério nisso e decidimos desmarcar o alisamento seguinte e tentar largar o alisante de novo. Só que agora estamos fazendo devagar, sem aquilo de fazer por impulso ou na marra. E dessa vez eu acho que vai dar certo, porque, como eu falei, estamos nos conhecendo melhor, nos aceitando mais, estamos mais seguros com a nossa aparência, não tem mais como ninguém nos xingar. Temos até feito alguns exercícios de toque, para a mulher entender que cabelo crespo não é duro, que eu não sou um cabelo duro e nem de bombril, como falavam. Aliás, acho que ela nem lembra como são meus cachos, mas até acho que a idade os fez melhorarem.

– O que eu acho que motivou mais essa tentativa de me livrar do alisante foi que a mulher passou a conviver com pessoas como ela, mas que se aceitavam como eram, estavam em paz com seus cabelos, e diziam a ela que ela também seria bonita ao natural. E outra: agora o padrão mudou, né? Crespo hoje é super bem visto, é lindo. Quando ela era só uma criança não existiam uma Vanessa da Matta, uma Negra Li, a Lucy Ramos, a Sheron Menezes, pra mostrar que cabelo crespo é lindo, é chique, é luxo. Ou o seu cabelo era igual ao da Xuxa e da Mara Maravilha ou não valia. Naquele tempo eu não valia, né. Mas hoje eu valho e ainda quero usar a faixa que ela bordou quando tinha 12 anos e está guardada até hoje. Obrigada.

Emocionados, os cabelos do grupo fazem comentários de apoio e, ao fim, rodeiam o novato e lhe dão um abraço coletivo.

– Muito bem. Estamos muito felizes em ter você conosco. E espero ainda vê-lo com sua faixa nova, ok? Lembre-se sempre que você pode ser crespo, você pode ser o que quiser e vai ficar lindo da mesma forma. Seja livre. – diz o anfitrião da reunião, com mais um caloroso abraço.

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One response

10 01 2014
2013 no meu blog: quase repeteco de 2012 | Janaina Rochido, jornalista

[…] novidades, no entanto: o relato do meu cabelo sobre sua decisão de largar os alisantes e o exercício sobre cantadas na rua para os meus amigos homens também estão muito bem colocados. […]

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