Um exercício sobre “cantadas” para os meus amigos homens

16 09 2013
Calma! Eu vim em paz!

Calma! Eu vim em paz!

Exatamente uma semana atrás, em 9 de setembro, foi publicado o resultado da pesquisa “Chega de Fiu-Fiu”, feita pela jornalista Karin Hueck (tem matéria dela na Época também sobre isso, é um bom resumo dos resultados e contextualiza a coisa toda, vai lá ler) em agosto, por meio do site Think Olga. 7.762 mulheres (eu, entre elas) responderam às perguntas e outras tantas deixaram seus depoimentos (eu, entre elas, de novo) na área reservada para isso no site e o resultado é o que nós, mulheres, já sabíamos: 99,6% já foram assediadas em locais públicos e 83% não achou graça nenhuma e nem viu elogio nisso.

Foi um auê na internet: mulheres endossando o resultado e contando suas amargas experiências (quem não as tem?) e homens desdenhando e dizendo que isso é “exagero”, que a cantada deles não é assim, que “não se pode nem mais ser romântico e galanteador” e – o de sempre – que “a mulher bota uma sainha/blusinha/vestidinho e depois ainda não quer ouvir”. E a coisa é muito mais séria do que parece: simplesmente por fazer a pesquisa, Karen recebeu mensagens de ódio e ameaças até de agressão de homens que a acusavam de “mal comida” ou “fresca”. Uma vergonha.

Acompanhe meu raciocínio, colega homem.

Acompanhe meu raciocínio, colega homem.

Eu poderia falar horas sobre isso e citar um tanto de dados e textos, mas meu objetivo hoje não é esse. Quero me dirigir aos homens. Mas fique sossegado, caro leitor homem, não vim passar sabão em ninguém – de polêmica sobre isso, já bastou a semana passada no Facebook. Eu vim em missão de paz: o que eu quero é simplesmente propor um exercício, uma reflexão, do qual quero que você se lembre ao longo desse texto.

Imagine que você está andando na rua tranquilão, indo trabalhar, com seus fones de ouvido, mão no bolso e, de repente, do nada, uma mulher passa por você e te dá uma encostada, te prensando contra o muro, e te fala que queria “te chupar todo”. Mais: imagine que essa mulher, além de te falar isso, também enfia a mão no meio das suas pernas e aperta o seu saco.

A maioria dos homens nessa hora daria aquela risadinha de lado e diria que “infelizmente” isso nunca aconteceu com eles – mas então eu acrescento o seguinte: essa mulher não é, nem de longe, o seu ideal de beleza, nem de comportamento, nem de nada. Muito pelo contrário, é aquela que você jamais pegaria, nunca mesmo, nem bêbado, nem longe dos seus amigos. Pensou? Agora imagine isso, que foi essa mulher que te apalpou na rua. Você gostou? Acharia ótimo mesmo? Tiraria onda com os seus amigos na mesa do boteco? E tem mais: você olhou pra trás e a xingou, mas ela te xingou de volta e ameaçou te bater. [se ainda assim você achar isso bom, imagine se fosse um gay, fica mais fácil]

Essa sou eu (mas poderia ser qualquer uma) analisando o cenário antes de sair na rua com aquele vestido ma-ra-vi-lho-so. Cara, isso não é vida!

Essa sou eu (mas poderia ser qualquer uma) analisando o cenário antes de sair na rua com aquele vestido ma-ra-vi-lho-so. Cara, isso não é vida!

Porque eu frisei a aparência da tal mulher e disse que ela ia te bater? Para vocês entenderem o asco, o constrangimento, o absurdo. Pois é isso que acontece conosco: a maioria dos homens que nos “cantam” na rua não é, nem de longe, o que nós idealizamos para fazer isso. Não os conhecemos, não ficaríamos com eles e nem imaginamos nossos filhos com eles. Ainda assim, eles chegam do nada, quando a gente menos espera, invadem o nosso espaço com frases como “que bu***** lindo, hein? Te como toda, sua puta” e nos xingam ainda mais quando reclamamos.

Passamos por isso todo dia. Algumas de nós, desde os 10, 11 anos. Eu mesma atravesso a rua ao menor sinal de obra ou grupo de homens, assim como não vou mais trabalhar de saia nem vestido mais alegre – quando eu quero usar isso, ponho na bolsa e visto quando chego na empresa (e troco de novo quando vou almoçar e quando vou embora). Cara, isso, definitivamente, não é vida: o foda de nascer mulher é que você já nasce num grupo de risco.

Mas então, como eu disse, eu vim em paz. É uma tentativa.

É tudo diferente, eu sei, eu sei...

É tudo diferente, eu sei, eu sei…

Entendo que nossas percepções são totalmente diferentes por culpa de um monte de coisas, dentre elas a nossa milenar cultura machista, a cobrança de uma hipersexualização dos homens e a educação diferenciada que meninos e meninas recebem – fora os exemplos errados, que abundam. Assim, caro homem, eu não te acho um porco nojento, só acho que te falta essa empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro – por isso propus aquele exercício.

Tenho certeza que os homens não querem ser sempre vistos como agentes do medo, criaturas acéfalas que não conseguem se controlar ao ver uma mulher e precisam assediá-la sempre (pelamordedeus, gente, estamos em 2013, não na idade da pedra – se você até hoje não controla seus instintos, é hora de procurar um médico). Sei que homens são capazes de entender que não é legal se sentir amedrontada o tempo todo, que é um absurdo você precisar trocar de roupa e andar encolhida para sair até para trabalhar, caso contrário você pode ser abusada na rua. Tenho fé no seu discernimento.

Ah, sim: não é crime passar cantada. Nós até gostamos! E sim, uma cantada pode gerar uns beijos, um namoro e até casamentos! Mas tem que saber fazer, né? Falar que vai “chupar todinha” não é cantada; puxar cabelo e chamar de tesuda na balada não é cantada; passar a mão na bunda ou encoxar no ônibus não é cantada. Sorry, fellas. Gostou da mulher? Quer chegar junto? Porque não tenta saber quem ela é primeiro? Se vocês tem conhecidos em comum? Ou tenta sentar perto dela no restaurante? Ou então ofereça uma balinha com um sorriso e diga “dá licença? É pra você”. Ain. É tão simples, gente. =)

Olha aí, um bom exemplo de cantada que não ofende nem agride! E ainda é bem-humorada! =D

Olha aí, um bom exemplo de cantada que não ofende nem agride! E ainda é bem-humorada! =D

“Ah, mas tem muita mulher fresca, que não responde, que vira a cara, que manda sair fora” – certamente, e é um direito dela também (falta de educação não inclusa). Isso não significa que ela seja uma vagabunda, significa somente que vocês não são um para o outro, caro amigo – mulheres são em maior número hoje em dia, é certo que você pode procurar outra. “Nhé, depois vocês reclamam que a gente não chega junto, não faz elogios, blábláblá” – ah, não! É sério que você acredita nessas conversas? Para com isso – já reparou que, para algumas pessoas, nada está bom? Tem gente que vai reclamar sempre. Então. E, de novo, é como eu disse: dizer que vai “te fo*** todinha” não vale como elogio.

Então, minha proposta é essa: que você, colega homem, lembre dessa conversa e do exercício que eu propus da próxima vez que vir uma mulher na rua e pensar em chamá-la de “gostosa” ao pé d’ouvido. “Porra, mas ela é muito gostosa! Não tem como não falar!” – tá, então fala com seu amigo da firma quando você chegar lá, conta pra ele. Aplique a todas as outras situações.

E, se ainda assim, ficou difícil de entender, tem um exercício de choque também: é só imaginar a sua mãe, a sua mulher ou a sua filha sendo apalpada na rua por um desconhecido que quer “chupar essa pu** todinha”.

Super funciona.

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10 01 2014
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