Menos duas revistas: menos dois ditadores

6 08 2013

No meio editorial não se fala em outra coisa: a toda poderosa Editora Abril está apertada e cortando cabeças – e revistas – para ver se estanca a sangria causada pela perda de audiência de suas publicações. As mudanças – que incluem o fim da MTV como a conhecemos (snifs, snifs!) – teriam começado em junho, logo após a morte de Roberto Civita, presidente do grupo.

Mesmo sendo jornalista, não vou me arriscar a teorizar a respeito. Sei do que li por aí e teve gente que já pensou a respeito muito melhor do que eu sobre isso, como Paulo Nogueira, editor do Diário do Centro do Mundo e Armando Antenore, editor da recém extinta revista Bravo! da mesma editora. O texto dele está no blog do Lino Bocchini, que foi um dos que viu primeiro o último sinal de fumaça.

Mas não é bem sobre isso que eu quero falar.

É que eu reparei que, entre as publicações encerradas, estão as revistas Gloss e Lola. Duas revistas femininas, voltadas para mulheres entre os seus 20 e 35 anos, “independentes, seguras e autônomas”. Já li as duas, assim como já li a revista Nova, também da Abril, que busca esse mesmo público alvo – mas essa se salvou.

Tem certeza que é preciso uma revista te dizer o que o "gato" vai ou não gostar nessa hora?

Tem certeza que é preciso uma revista te dizer o que o “gato” vai ou não gostar nessa hora?

As três têm algo em comum que me incomoda profundamente: se auto intitulam revistas para mulheres “independentes, seguras e autônomas”, mas tudo que fazem é ensinar às mulheres como é impossível viver sem algum tipo de guru que te ensine qual é o cabelo que mais agrada aos outros, a depilação da moda de acordo com as famosas e as especialistas das clínicas das famosas, as posições e fetiches sexuais de acordo com os homens, as roupas da moda de acordo com as tendências ditadas pelos outros, as condutas certas no emprego de acordo com gente que não sabe nada do seu trabalho. Tudo nelas se baseia no que os outros acham certo. Como ser autônoma, independente e segura com alguém martelando na sua cabeça o tempo todo o que está ou não certo?

Jura que essas dicas iguais para todas vão ~mesmo~ deixar ~você~ mais gata?

Jura que essas dicas iguais para todas vão ~mesmo~ deixar ~você~ mais gata?

Nem sempre eu tive essa percepção. Confesso que até já fui assinante da Nova ali pelos meus 18, 20 anos, e me achava o máximo por isso. A minha percepção só mudou quando eu fiquei mais velha e mais crítica – ou seja, quando eu realmente me tornei mais segura de mim mesma e passei a ver que as minhas escolhas também poderiam estar certas e agradar homens, tendências e chefes. Afinal, a minha realidade não é a destas revistas, onde uma saia é anunciada como uma pechincha por custar R$ 500 – e a de milhares de mulheres não é também.

Mas o que é certo? Certo é o que te deixa confortável, te deixa feliz. É o que dá certo no seu contexto, é o que resolve o seu problema. O meu certo não é como o seu, os certos de Nova, Gloss e Lola não são os ideais para todas as mulheres. O batom novo da Mac não vai operar milagres na sua vida e decorar as 1001 dicas lacradas de sexo não vão salvar seu relacionamento. Ao contrário de mim, quanto mais cedo as mulheres (e também homens, porque não?) perceberem que naturalidade e bom senso são as melhores dicas para a vida, mais fácil será conviver com os outros e consigo mesmo.

Sério que o seu relacionamento é tão igual a todos os outros a ponto de se encaixar em estatísticas retiradas de uma revista que não sabe nada sobre você?

Sério que o seu relacionamento é tão igual a todos os outros a ponto de se encaixar em estatísticas retiradas de uma revista que não sabe nada sobre você?

Revistas e afins que se destinem a doutrinar homens e mulheres prestam um desserviço à autenticidade das pessoas. Ficamos todos pasteurizados e uma olhada atenta identifica até de quais páginas saíram determinados comportamentos, de tão artificiais que soam. Os guias de sexo, beleza, comportamento no trabalho e emagrecimento dessas publicações podem até servir como um empurrãozinho naquela época da vida em que você não sabe ao certo o que quer, mas, do meu ponto de vista, não podem jamais determinar a sua vida.

As mudanças devem estar em harmonia com o que você é de verdade. Não se force a usar esmalte metálico ou fazer a “garganta profunda” porque a revista disse que é tendência – se isso não te deixar confortável, vai aparecer escrito na sua testa. E, vamos combinar: “fake” não é um rótulo nada bom para “fazer amigos e influenciar pessoas”.

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