“A Paixão” à terceira vista

17 07 2013

[Aviso aos navegantes: este texto não tem a pretensão de ser uma crítica ou análise do filme]

No último fim de semana, assisti “A Paixão de Cristo” (The Passion of The Christ, Mel Gibson, 2004) pela terceira vez.

Em uma das cenas mais bonitas visualmente, Maria Madalena (Monica Bellucci), João (Christo Jivkov) e Maria (Maia Morgenstern) amparam o corpo sem vida de Jesus, numa clara alusão à Pietà. (Print meu)

Em uma das cenas mais bonitas visualmente, Maria Madalena (Monica Bellucci), João (Christo Jivkov) e Maria (Maia Morgenstern) amparam o corpo sem vida de Jesus, numa clara alusão à Pietà. (Print meu)

Apesar d’eu o achar extremamente interessante, dessa vez não o assisti por gosto, mas por obrigação. Acontece que, há algumas semanas, comprei o DVD duplo do filme e o disco veio com um defeito, suprimindo as legendas em várias partes, ora por poucos segundos, ora por quase dez minutos. Assim, assisti as últimas horas de vida de Jesus Cristo mapeando pacientemente cada trecho defeituoso, para depois mandar tudo para a Fox Filmes analisar e ver se o troca para mim. Como eu disse à atendente da Fox, se fosse um filme falado em inglês, espanhol ou mesmo francês, eu talvez não dissesse nada, mas, sendo em aramaico, hebreu e latim, fica um pouco difícil de intuir o que eles dizem.

Como eu disse, acho esse filme muito interessante e o acompanho desde a pré-produção, quando li uma notinha em algum lugar dizendo que Mel Gibson queria refilmar a Paixão de Cristo com ares mais realistas do que os das histórias daqueles cristos loiros de olhos azuis. Depois disso, foi só esperar 2004, quando se deu toda a histeria do lançamento.

Aqui cabe um parêntesis a meu respeito: eu não consigo assistir filmes onde a crueldade humana é explícita (tipo esse), é a personagem principal, o “tempero” da coisa toda. Não gosto, me faz mal, não durmo a noite e passo semanas deprimida, achando que a nossa raça é a mais nojenta e sem solução de todas (ok, isso eu ainda acho com certa frequência). Assim, apesar do interesse, eu refuguei quando ia entrar no cinema e só assisti ao filme quase um ano depois, em casa.

Os olhos do Cristo de Mel Gibson são únicos; tão únicos que nem uma foto capta - é preciso ver o filme para perceber - de fato, uma grande sacada do diretor, que também assina o roteiro junto com Benedict Fitzgerald

Os olhos do Cristo de Mel Gibson são únicos; tão únicos que nem uma foto capta – é preciso ver o filme para perceber – de fato, uma grande sacada do diretor, que também assina o roteiro junto com Benedict Fitzgerald

Meu choque foi o mesmo, mas, não com o sangue, que eu já esperava, pelo tanto que li sobre a obra megalomaníaca de Mel Gibson. O que me prendeu do começo ao fim foram os detalhes. Nessa época eu estava na faculdade e empolgada com Semiótica. Então, minha leitura do filme foi focada nos detalhes, como os olhos castanho avermelhados do Jesus Cristo de Jim Caviezel (detalhe: o ator tem olhos azuis). A cada olhar com esses olhos únicos, até o mais ateu dos espectadores vê que aquele homem era especial (ou era para ser). Creio que a intenção de Mel Gibson era fazer um olhar que atravessasse a alma, ainda que pela tela do cinema. Conseguiu – Judas Iscariotes (Luca Lionello) que o diga.

Ainda na série "olhares que penetram na alma": Rosalinda Celentano e seu Satanás

Ainda na série “olhares que penetram na alma”: Rosalinda Celentano e seu Satanás

Outra coisa que sempre me chamou a atenção é Satanás e as várias formas com que ele se mostra ao longo do filme. Assim como Jesus tem um olhar hipnotizante, ele também tem. Todas as vezes em que a figura andrógina (mas é uma mulher, Rosalinda Celentano) de olhos claros e sobrancelhas inexistentes aparece, não se vê outra coisa. Satanás também está presente nas expressões deformadas das crianças que atacam Judas e nas moscas (quem já viu filmes suficientes em que o diabo aparece sabe que as moscas são sempre um “recado” dele) que rodeiam uma carcaça aos pés da árvore em que o traidor se enforca. Acho curioso que, desde que leio sobre essa parte da vida de Jesus, vejo a relação entre ele e Satanás como algo meio ambíguo: ao mesmo tempo em que o demônio quer que ele se ferre, parece querer também ajudá-lo – enfim; não acho que tenha lastro para analisar isso. Divago.

E também temos Maria (Maia Morgenstern), a mãe de Jesus. Da primeira vez que vi o filme, cheguei a pensar que Maria era um tanto quanto inexpressiva. No entanto, nessa última olhada, juntei algumas peças e me dei conta de que não, essa mulher não era inexpressiva – era sim uma mulher que, segundo a história do Cristo, sabia que sua missão como mãe do Messias não seria fácil. No filme, mesmo nos flashbacks, Maria parece sempre tensa, sempre à espera de algo (ruim).

A Maria de Maia Morgenstein não é inexpressiva; o seu fardo é que é pesado ao ponto de lhe tirar quaisquer outras expressões que não sejam a da exaustão e da dor (Print meu)

A Maria de Maia Morgenstern não é inexpressiva; o seu fardo é que é pesado ao ponto de lhe tirar quaisquer outras expressões que não sejam a da exaustão e da dor (Print meu)

O filme tem poucas lágrimas dela, mas isso é fácil de explicar: é aquele ponto em que a sua dor é tanta, mas tanta, que te seca; mesmo que você queira, não tem mais como chorar. Tudo que resta é o corpo anestesiado, que não retém nada, que é atravessado por tudo, palavras, gestos, ações. Maria era uma guerreira, mas estava exaurida pela dor. Por isso ela enxuga o sangue do filho do chão, depois do flagelamento, de forma quase automática – seria uma das últimas vezes em que ela estaria tão perto dele.

Mel Gibson não quis só dar vida à sua mania de grandeza com este “A Paixão de Cristo”, mas imprimir muita coisa em quem assiste, sem focar tanto na questão do Jesus que veio fazer milagres e a tudo perdoar – o Cristo de Gibson se aproxima mais dos humanos.

[Nota: se quiser um Cristo ainda mais próximo de nós, meros mortais, recomendo fortemente a leitura de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo“, do mestre José Saramago]

Devo informar que não sou religiosa e tenho profundas críticas às religiões (especialmente nesses tempos bicudos…); no entanto, creio em algumas coisas, e sim, esse Cristo que deixou o ensinamento mais bonito e coerente de todos – “amai ao próximo como a ti mesmo” -, me representa.

[Nota 2: a História ainda tem dúvidas e se divide sobre se Cristo de fato existiu; no entanto, alguns historiadores já me disseram que há provas de que sim, mas que, se ele esteve entre nós, não foi como um homem sobre-humano, e sim como um homem habilidoso, carismático e que influenciou pessoas para o bem]

Um link interessante:

O site oficial do filme ainda está no ar e lá você pode ouvir trechos da linda trilha sonora enquanto navega. Vale uma olhada.

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