James Bond, o traíra educador

14 02 2013

Qual a relação entre o agente 007 e a criação de meninos hoje em dia? Eu achei uma.

JAMES_BOND_TRAIRA

Sou fã de James Bond e há algum tempo comprei uma caixa com 23 filmes dele (minha melhor aquisição dos últimos anos, diga-se de passagem). Meu filho de oito anos, curioso, me perguntou tudo que pode sobre o agente mais famoso do mundo e quis assistir os filmes comigo. De férias em casa, fui selecionando os que eu considerava mais “leves” e assistíamos a noite.

Um dia ele escolheu “007 contra o Homem com a Pistola de Ouro” e foi ver com o avô. Relaxei – “esse é um dos filmes mais tranquilos do 007”, pensei – e fui ler no meu quarto. No entanto, qual não foi a minha surpresa quando ele entrou p* da vida porta adentro gritando “mamãe, o James Bond é um traíra!”.

Indignado, ele continuou seu protesto: “ele é um traíra, um safado! Começou o filme namorando uma mulher e agora está com outra! DUAS mulheres!”. Demorei um pouco para assimilar.

[ele se referia, na verdade, às primeiras cenas desse filme, onde primeiro Bond tem um affair com Andrea (Maud Adams) para conseguir informações sobre o vilão Scaramanga (Christopher Lee), mas, logo depois, engata um flerte com Goodnight (Britt Ekland), também agente do MI6]

Depois que ele repetiu isso mais algumas vezes, eu e ao avô explicamos que não era bem assim *cof-cof* e que o fato ali é que com a primeira mulher era só fingimento, para conseguir informações, que com a segunda mulher sim, ele tinha algo, digamos, mais correto. “Coisas da vida de espião, filho, e é no filme, é mentirinha”.

Esse episódio me fez pensar em muitas coisas, mas todas relacionadas com a criação e a educação de uma criança, especificamente um menino, nesses dias de hoje. Sou extremamente preocupada em dar para o meu filho conceitos que o façam ser um homem livre de preconceitos, companheiro, respeitador e honesto. Sempre falo com ele sobre a importância de falar a verdade, de estudar, de conversar ao invés de brigar ou pirraçar e de compartilhar comigo e com o pai dele a vidinha dele, para que possamos sempre trabalhar em conjunto e resolver o que precisar.

Sempre falo com ele sobre relacionamentos também, até sobre os meus (guardadas as devidas proporções). Sempre digo a ele que, quando namoramos/casamos com uma pessoa, temos uma grande responsabilidade, pois é alguém que confia em nós e que nos ama, a quem nós devemos, no mínimo, respeito. E uma das facetas do respeito é estar só com essa pessoa, monogamia, fidelidade (ok, tem quem pense diferente, mas não vou entrar nesse mérito) – e foi essa a causa da revolta dele com James Bond e seu triângulo com Andrea e Goodnight.

Sempre comento com outras mães que ser mãe de menino hoje em dia é um desafio, porque os homens do futuro estão em nossas mãos. Numa sociedade que ainda acha normal um homem abordar mulheres com piadas e cantadas grosseiras (tentaram uma vez ensiná-lo a gritar “gostosa” para meninas na rua – cortei a aula na raiz), discriminar e oprimir o diferente, brigar por causa de futebol, beber até cair, “pegar” quantas puder e quiser à revelia de ter ou não uma parceira, é uma tarefa árdua ensinar a um menino que nada disso é bonito.

Lutamos contra uma horda de tios/tias, padrinhos/madrinhas, amigos dos pais, avôs e vizinhos que acham “bonito” ver a criança passar a mão na bunda da empregada e sair correndo, gritar “viado!” pela janela do carro para alguém com a camisa do time rival e adoram ficar falando que vão levá-los na “zona” quando chegarem aos 13, 14 anos. Esses são os piores, por estarem mais próximos, mas tem mais: na escola, os professores não estão preparados (e nem têm tempo) para lidar com profundidade com essas questões, e os coleguinhas nem sempre têm pais preocupados com isso, o que faz com que essas crianças sejam repetidoras de comportamentos nocivos que passam como normais nesse nosso cotidiano veloz e entorpecido.

Quando você reclama dessas coisas, a defesa é sempre a mesma: “ah, fulano estava brincando, qual o problema?” – muitos, meu amigo, muitos. Porque o cérebro das crianças absorve tudo que lhe chega e, quanto mais eles gostam da pessoa, mais fácil essa absorção é. Da mesma forma que meu filho se indignou com James Bond por sempre me ouvir falar de como é triste ser enganada(o) em um relacionamento, ele poderia ter fixado o contrário. É nessa idade que eles aprendem conceitos e comportamentos que levarão para sempre, então é melhor que seja algo bom.

Toda vez que alguém tenta ensinar um comportamento desses para o meu filho, eu seguro a raiva do tamanho da ignorância da pessoa sobre os efeitos disso no futuro e depois sento e converso muito com ele. Papo sério mesmo, olho no olho. Também costumo fazê-lo pensar no “e se fosse com você, você gostaria de ser tratado assim?” (no caso de mexer com mulheres na rua, pergunto se ele gostaria que fizessem isso comigo) – não sei se é a melhor estratégia, mas acredito que fazer a pessoa sentir empatia pelo outro é uma boa forma dela pensar duas vezes antes de agir.

Não é fácil, mas acho que tenho feito progressos em ser mãe de menino (e agora com a ajuda de James Bond). Noto que meu filho, apesar das peculiaridades de um menino de oito anos, tem uma enorme capacidade de entender, respeitar e amar antes de julgar e, ainda que julgue, mostra-se muito aberto a rever sua posição. Acho lindo e acho um prazer. Sinto-me feliz por ser parte na formação de um adulto melhor, do tipo que eu gostaria de ter encontrado muito mais vezes por aí. É uma tarefa delicada e de muita responsabilidade, mas extremamente gratificante.

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10 05 2013
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[…] e o “já escovou os dentes?” permanecem (são clássicos obrigatórios), mas meu maior foco na criação dele é ajudar na construção de uma pessoa que sabe de seus direitos e…. Não quero meu filho achando que sou empregada dele e nem gritando “manhê, cadê meu […]

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