Uma história de viagem: “Que dó, ela está sozinha!”

14 01 2013

Tem pouco mais de um ano que eu viajei sozinha para o exterior pela primeira vez, numa experiência que me marcou para sempre e deixou um gostinho (ou melhor, “gostão”) de quero mais. Esses dias, vendo a quantidade de acessos aos meus posts sobre essas viagens e conversando com uma pessoa sobre Paris, lembrei-me de mais uma história, que não é fofa como a dos mendigos ou interessante como a do polonês da RSPCA, mas é curiosa.

Como eu contei naquela época, eu viajei sozinha não porque eu quisesse, mas simplesmente porque as circunstâncias não permitiram que eu tivesse companhia. No começo fiquei meio triste, mas passou rápido. O problema é que as pessoas ao redor não acreditaram nisso. Virei uma atração de freak show desde a hora em que contei para a primeira pessoa: “Queeeeee? Como assim você vai sozinha para a Europa?” foi a frase que mais ouvi. Mas podia piorar.

sozinha_em_Paris

Ao descer no aeroporto de Paris, peguei minha mala e me juntei ao grupo de brasileiros da agência para esperar o traslado para o hotel. Vendo que meu celular não funcionava, comecei a conversar com um casal – visivelmente em lua de mel, dados os arrulhos – ao meu lado a respeito. Resolvi então pedir à moça que fizesse uma foto minha no aeroporto e seguiu-se o seguinte:

– Bah [eram gaúchos, os dois], então, quem está contigo?

– Ninguém, vim sozinha. [sorri]

– Como assim, sozinha? Cadê teu namorado, marido?

– Não vieram, porque não tenho nenhum deles.

[Chocada, me olhando com uns olhões azuis arregalados] O que? Tu veio pra Paris SOZINHA???

– Pois é… veja só. [sorri amarelo]

– Benhê [virando-se para o marido], vem cá ver! Ela falou que está SO-ZI-NHA em Paris! Dá pra acreditar? Bah [olhando para mim de novo e apertando o marido – acho que ficou com medo d’eu pedi-lo emprestado], tu é muito maluca! Vir para a cidade mais romântica do mundo sozinha!

Que bom que os outros falantes de português estavam entretidos comprando nas lojinhas ao redor, senão acho que o estrago teria sido maior.

Tem aí duas premissas que as pessoas precisam de vez largar. A primeira é de que é um assombro uma mulher (ou qualquer pessoa) viajar sozinha para tão longe. Lá mesmo, na própria Europa, isso é muito comum – haja vista a quantidade de mochileiros daquelas terras que aportam aqui todo ano. Então porque o assombro? Imagino que isso seja uma coisa nossa, aqui no Brasil, porque lá na Europa, ninguém deu a mínima, fosse nos hotéis, restaurantes ou quaisquer outros lugares por onde passei. Fui muitíssimo bem tratada e andei por onde eu quis.

A segunda premissa é essa de que Paris é lugar para casais apaixonados. Só porque eu não tinha um homem ao meu lado, aquelas pessoas me olhavam como se eu tivesse uma doença contagiosa, ou, pior, como se eu fosse uma pobre solteirona que não conseguiu “dar um jeito na vida” e estava ali, pagando de independente. Se as pessoas que ainda pensam assim lessem mais livros de História ao invés de ver novelas e comédias românticas, veriam que Paris, enquanto capital da França, tem uma História fantástica por trás e um papel muito importante na sociedade ocidental como conhecemos hoje. Só para você ter uma ideia, nossa Constituição foi inspirada na francesa.

Como eu disse, foram inúmeras as vezes em que as pessoas ficavam “com pena” da moça sozinha na Europa. Eu aguentei bem, mas, lá pelas tantas, uma senhora de uns 45 ou 50 anos e carregada de sacolas de grife no ferry que nos levou à Inglaterra me tirou do sério. Quando eu disse que estava sozinha, ela me olhou com pena, sorriu e disse “coitadinha… mas não fica assim não, você é jovem ainda, vai encontrar um marido legal para fazer dessa uma viagem ótima!”. Ah, não. Assim não, né? Poxa, a viagem JÁ ESTAVA ótima! Certa de que eu nunca mais a veria, suspirei fundo e disse: “ah, mas na verdade, era para o meu marido estar aqui… não está porque eu o peguei com a nossa madrinha de casamento na nossa cama depois da festa. Terminamos tudo, mas, como a viagem já estava paga, quis vir assim mesmo”. Eu queria ter fotografado a expressão dela, juro.

Meus auto-retratos são sempre assim: com cara de lua. Tsc, tsc.

Meus auto-retratos são sempre assim: com cara de lua. Tsc, tsc.

Acredite ou não, a única coisa que me incomoda de fato em viajar sozinha é não ter como aparecer direito nas fotos. Sim, porque eu adoro fotografar e adoro estar nas fotos, o que é bem difícil de fazer sozinha (tendo um bom resultado). Então eu preciso contar com a boa vontade de um ou outro passante e torcer para não acontecer o mesmo que aconteceu quando, ao abordar um homem em frente à Igreja de Saint-Sulpice e pedir (em francês) para ele tirar uma foto minha, ele desviou apressado e disse “não, eu não tenho dinheiro”. Hein?  Estou até hoje tentando entender qual palavra eu usei que deu a ele essa ideia…

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3 responses

29 01 2013
Érico San Juan

Sempre viajei sozinho. E sempre foi bom. Aliás, Janaina, foi numa dessas minhas viagens que eu pude te conhecer pessoalmente. Bj.

14 01 2013
amandacrl

Jana, adorei esse post! E a foto deu um ar cômico, de forma que eu consigo ver sua cara passando por essas situações. =)
Algumas pessoas perdem muitas oportunidades na vida, pena que sempre aproveitam as chances de falar abobrinha.

14 01 2013
Marcello Andarilho

Só faltou alguém falar..”Solteiros não podem viajar sozinhos”…rsrsrs. Isso infelizmente é uma forma comum de se pensar. Quase todo mundo acha que o “certo” é você viajar com seu par ou viajar com amigos. Lá na Europa eles não ligam tanto para isso.

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