Bem vindo à minha ficção II: perna quebrada e cabeça vazia

11 12 2012

Sabe o ditado “cabeça vazia, oficina do diabo”? Pois é. Eu detesto ficar sem ter o que fazer, porque sou capaz de divagar profundamente por coisas totalmente inúteis e nocivas. Sim, eu confesso. Estive de férias por 30 torturantes dias e ganhei mais 12 por recomendações médicas. Tive muito tempo para evitar que minha cabeça virasse “oficina do diabo” e, pensando nisso, resolvi escrever a respeito.

Também escrevi pensando, novamente, nisso de assumirmos nossos sentimentos e sermos honestos até mesmo quando temos sentimentos considerados negativos. “Considerados”, porque aprendi que toda coisa negativa traz uma positiva, não é só papo de auto-ajuda.

Sem mais delongas (sempre quis usar essa expressão), essa é a estória de uma moça que estava com raiva e estava obrigada a ficar sem se mexer, com tempo sobrando para pensar por aí. Ela poderia ser, também, um cara. Que poderia ser alguém que você conhece ou até você mesma/mesmo. Admita.

O teto que disse

olhar_fixo

Deitada de costas na cama, sem poder mudar de posição, ela encarava o teto alternando momentos de raiva e resignação. Poderia ter tomado um dos remédios para dor prescritos pelo médico: eles davam um puta sono e ela poderia dormir em questão de minutos, sem nem se lembrar da fome e do enjoo, que vinham sempre juntos. Mas não; preferiu deixar a raiva queimar devagar, abafando a dor da perna quebrada por um tombo estúpido.

Fazendo muxoxos, ela olhava o branco encardido do reboco irregular do teto do quarto, tentando se concentrar em tudo que já tinha dito a si mesma naquele ano sobre aceitar as merdas da vida como um aprendizado. Sobre perdão, sobre paciência, sobre não guardar rancor porque dá câncer e todo esse blablabla que soa muito bonito, mas que ela no fundo custava a acreditar. Ok, algumas vezes tinha funcionado, mas só nas simulações da sua cabeça – e agora era para valer.

Tinha horas que ela fazia de propósito. Deixava-se consumir por todos os sentimentos ruins que perpassavam seu entediante dia deitada na cama para ver até onde conseguia ir. E ia longe, viu. Porque tudo era motivo: ter que pedir para o pai apagar ou acender a luz; pedir para a irmã com quem não se dava lá muito bem ligar ou desligar a televisão; ter que pedir para a mãe trocar sua roupa e levá-la ao banheiro; perder metade das férias e adiar a volta ao trabalho para se recuperar. Para alguém que penteava o próprio cabelo desde os cinco anos de idade, isso era inominável. Mas o que se podia fazer? Maldito tapete do inferno que tinha se enrolado em seu salto no alto da escada naquele dia em que saíra correndo para alcançar o ônibus…

Pegou a longa varinha que o pai tinha pacientemente talhado para ela coçar dentro do gesso (e como coçava!) e virou a cabeça para a janela, tentando se distrair com o céu da tarde. O pensamento que ela queria evitar, na verdade, era a lembrança das últimas palavras do último “quase” candidato a namorado. Ela fingiu não se importar na hora e bateu o telefone, mas aquele “você é ótima, bonita, inteligente, gostosa, mas, sabe, você não é bem o tipo de mulher que a gente apresenta para a mãe. Afinal, veja bem, você estava sozinha numa boite” tinha arranhado bastante a sua auto-estima e a sua segurança.

Ela brigava para se convencer que o cara era um imbecil e ela não tinha nada de errado em ser independente, mas era um páreo duro – puxar a culpa para si é sempre mais fácil nessas horas. Mas a cabeça tem dessas coisas, ela nos prega peças e aproveita esses momentos em que a gente literalmente não pode fugir para colocá-las em prática. Ela tentava se convencer que aquele cara não a merecia e que ela não merecia essas coisas, mas se permitiu admitir para ela mesma que teria adorado ser apresentada, formalmente, para uma mãe. Uma honra. Quase um atestado de boa procedência.

Quando estava quase se rendendo a esse pensamento, a varinha quebrou. “Droga, mais uma!”, pensou, enquanto puxava o resto da madeira de dentro do gesso pensando nos arranhões que teria que remediar dali a dois meses. Depois de um suspiro, voltou a se concentrar no teto e puxou para si o mp3 player com a playlist que tinha pedido para a irmã montar, ditando música por música. Buscou os mantras que uma amiga tão calejada quanto ela tinha mandado por e-mail depois de saber das novidades e deu um sorriso quando pensou na sensibilidade dela, que sabia que ela precisaria de um bom “ópio”, engessada naquele período.

Colocou os fones, concentrou-se numa mancha no reboco do teto como sua mandala e começou a respirar fundo, ouvindo o som da própria respiração misturar-se às batidas da música. Deixou os pensamentos passarem e imagens começaram a se formar. Cores. Foi deixando passar, como tinha que ser. Formas. E ela se viu etérea e esguia, blasé, acima do bem e do mal. Gostou daquilo.

Apesar de o momento ensejar o contrário, sentiu o ódio queimar novamente e deixou-o seguir. Dentro dele, deixou a imagem do sujeito com perfume famoso e voz pausada aparecer sentado na sua frente. Imaginou-o dizendo aquilo tudo como se estivesse sendo condescendente lhe revelando algo vital, e então teve o prazer de se ver cuspindo uma longa labareda de fogo na cara dele. Como um monstro de filme. Simples assim.

Deixou a cena seguir. Nela, depois de cuspir, ela limpava os cantinhos da boca com os dedos e assistia aos restos queimando, o cheiro do perfume misturado ao da carne queimada. Sorria de lado com um prazer leniente e sem culpa. Sem se importar com convenções nem nada, só o próprio prazer. Dentro de sua catarse, levantou-se da mesinha no café em que costumavam ir e disse “você é quem sabe. Beijo pra sua mãe”. Com desdém e alívio, girou nos saltos 12 de sola vermelha e saiu.

A mãe entrou no quarto e levou alguns segundos para tirá-la do transe, antes de perguntar se se sentia melhor. Sentindo-se leve e dopada, focou o olhar na mãe e disse: “aham. A dor passou, estou com fome”. Respirou fundo. “Acho que quero sorvete”. E riu, ao perceber o estranhamento da mãe com o sorriso.

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