Bem vindo à minha ficção: um conto de lavra própria

21 10 2012

Nem só de Jornalismo, assessoria de imprensa e reflexões sobre saudade e sentimentos não-tão-legais-assim vive um jornalista. Às vezes alguns – tipo eu – se arriscam a escrever ficção e até ganhar uns concursos de literatura com isso (sim, eu já ganhei um – conto n’outra ocasião).

O texto abaixo eu fiz para um concurso e, como não fui selecionada, estou compartilhando. Como deveríamos escrever sob pseudônimo, não me importei em usar meu próprio nome para a personagem, posto que eu queria muito encaixar em algum lugar essa coisa de Janaina ser um dos nomes de Iemanjá, a Rainha do Mar, de acordo com a Umbanda. Outra coisa que eu também fiz foi escrever na terceira pessoa, e do ponto de vista de um homem. Talvez esse homem não tenha ficado muito convincente, mas vá, digamos que eu imaginei este como sendo um homem ideal, que repara em detalhes e sutilezas, coisas que – dizem – não existem para os homens em geral.

Eh, bien. Mas eis o texto. Eu gosto muito dele, acho que é diferente dos outros que já fiz. Como não lembro que título a versão definitiva levou, deixarei o provisório mesmo. Deixo a cargo de vocês pensar o quanto de realidade e ficção eu coloquei aí:

Iemanjá (Xeque-mate) no salão [título provisório]

Janaína, a morena que herdou o nome de Iemanjá, a Rainha do Mar, rodopia no salão concentrada e sem tirar os olhos dos pés do parceiro de dança. Ainda assim, ninguém rodopiava como ela. Todos os olhos se prendem às pregas do vestido, voando de lá para cá, e às coxas que de momento em momento aparecem entre um jogar e outro de pernas e quadris, enquanto a morena de olhos grandes e castanhos ri alto, tentando disfarçar uma falta de jeito que, agora eu sei, não existe.

Ela tinha alguma coisa que, de imediato, ninguém identificava. Mas tinha, é certo. Talvez fossem as sobrancelhas, que subiam e desciam de uma forma quase teatral acompanhando cada troca de ideia dela. Ou talvez aqueles olhos, que sempre te olham muito abertos, buscando os seus, sem piscar, enquanto você fala com ela. Ou ainda aquelas mãos de dedos finos e compridos com unhas escuras.

O que eu sei é que eu a conheci assim: ela chegou ao bar com um cara conhecido, que ficava só rodeando-a nos eventos (e isso a incomodava absurdamente – não o cara ficar rodeando, mas não mostrar a que veio, ela mesma me disse depois). Eu vi aquele casal bonito chegar, sem mãos dadas e sem cumplicidade nenhuma, e me bateu uma quase certeza, um insight, de que ela não estava satisfeita. Não sei por que pensei isso, posto que os sorrisos mais largos que ela dava eram para o dito-cujo – mas só até ele afastar a mão dela, com aquelas unhas pintadas de vermelho, do próprio rosto. Tenho quase certeza que pude percebê-lo dizendo “menos, menos”, enquanto o sorriso dela se desfazia em um ranger de dentes cheio de despeito.

Aquela criatura curvilínea, quase ingênua no vestido claro, de sorrisos diplomáticos e mãos pousadas nos joelhos, enquanto tentava se misturar ao grupo já formado… Seria ela capaz de devolver aquele “menos, menos” com qualquer coisa além da frustração de quem desperdiçou um carinho? Seria ela capaz de um gesto de raiva como o que eu imaginava? Achei que estava divagando num tempo precioso em que poderia saber isso dela mesma – assim, larguei o papo sobre as próximas eleições para o resto da mesa e fui descobri-la.

Com pouca conversa ela se iluminou com algo raro: era transparente. Falava pelos cotovelos, e cada risada dela era uma parte do que ela pensava. Era uma sinceridade engraçada, de quem não guardava cartas na manga, de quem queria sorver a vida e não tinha medo de peitar o que viesse. Sim – prestando atenção, ela bem seria capaz de mandar o tal sujeito, que continuava sem nem tocá-la, a enfiar aquelas duas palavras goela abaixo, para não dizer outro lugar mais malcheiroso. Janaina era um doce, mas que desandava com facilidade – podia virar um manjar ou um veneno, bastava errar um pouco a mão. Ah, eu devia saber que aquele aperto de mão firme e de olhos nos olhos de quando ela me disse “oi” era um aviso…

Mas eu queria ver – ainda me parecia incongruente aquela leveza num levante contra o que quer que fosse. Notei então que ela balançava ao som do xote que tocava e resolvi me arriscar: “Você dança?” – “Eu gosto, mas só consigo se você me conduzir, pode ser?”, respondeu, com um sorriso. Claro que pode, claro que pode… Percebi, depois de outras danças e outros rodopios da homônima da Rainha do Mar, que essa resposta era uma senha, que dizia que, quando ela afirmava não saber algo, era porque, na verdade, ela te surpreenderia pelo simples prazer de ser capaz disso.

Peguei a mão dela e a sensação daqueles dedos finos na minha pele me arrepiou. A outra mão, tão quente quanto a primeira, pousou no meu ombro e eu a puxei para junto de mim afim de posicionarmos os pés para o xote seguinte. De perto eu pude ver o tom bronze da pele dela e sentir o cheiro de um perfume, que, no fim, eu acho que era um perfume só dela mesmo, um cheiro entranhado naquela pele macia e sem marcas. A princípio receosa de dar um passo em falso na dança, ela logo se soltou – ainda que fixasse os olhos nos meus pés, deixava o quadril solto e as pernas leves, quase sem tocar o chão: quem conduzia, na verdade, era ela.

No vai-e-vem, no afasta-e-puxa-de-volta da dança, ela me olhava nos olhos e ria. Primeiro aquela risada alta de quem se diverte despretensiosamente, depois aquele sorriso que só mostra os dentes e, por fim, aquele sorriso de lado acompanhado de um olhar que me dizia que cada impacto do corpo dela no meu não era pra ser só mero movimento na pista, mas quase um jogo de poder. Admito que tentei beijá-la, mas ela desviou sem uma palavra, mantendo o compasso. Ainda que rapidamente, pude notar uma sombra de decepção no rosto dela – talvez porque ela esperasse um beijo de certo outro, ao invés da minha canhestra investida…

Voltamos à mesa. Em mais uma tentativa de decifrá-la, me escondi no efeito do álcool – que nem era tanto assim, mas era meu único escudo – e perguntei qual era a do cara, que eu sempre via em sua companhia mas nunca via fazendo nada. Acho que ele ouviu minha pergunta, porque olhou para nós – e o olhar que ela lançou para a figura, que até então falava de trabalho como se ainda estivesse no auditório, me provou que sim, ele engoliria a rejeição daquela noite. E ela faria isso com um enorme prazer.

“Não temos nada, não é?”, sorriu, dando de ombros. “A ideia até me agrada, mas acho que ele tem outras prioridades”, arrematou, dando um tapinha no braço dele e sustentando um olhar que – eu juro! – faiscava com uma satisfação má. A mesa riu, surpresa – acho que mais para aliviar o riso nervoso dele do que da piada carregada de maldade, mas disfarçada nos gestos dela. Eu também ri, curioso – então era assim que ela faria… esperou todos os olhares captarem aquela presença toda para mostrar que tinha gente imbecil o bastante para não querê-la. Mas ainda faltava. Homens não compreendem sutilezas e aquele ali, naquela altivez arrogante toda, não parecia disposto a ser visto como um arregão, apesar de ser claramente um bosta.

Ainda que as risadas tentassem, não foram capazes de diminuir a irritação do camarada, que alisou a nuca daquela mulher – ah, sua petulante! – e disse um “vamos?” entredentes de quem queria sair logo dali e mostrar quem mandava de verdade. Mas ela, do alto de suas sandálias sem salto, tirando sua melhor expressão de desdém, disse, se espreguiçando para forçá-lo a sair de perto: “eu não. Você não vai me dar o que eu quero mesmo”. Pronto: xeque-mate, ali estava.

Não vi como o cara saiu de lá, porque nessa hora aqueles dedos finos e quentes me puxaram para a pista de novo. Com meu corpo colado ao dela e meio receoso de tentar qualquer coisa, juntei coragem para perguntar o que tinha sido aquilo. “Ah. Não gosto de meias palavras. Tenho pressa de ver as coisas acontecerem”, desconversou, olhando fixo para os meus pés se mexendo. “Ele vai ficar puto contigo, não?”, arrisquei. Como resposta, aquela Rainha dissimulada me lançou outro olhar enquanto se deixava puxar por mais um passo de dança e disse, com o sorriso mais doce que eu a vi dar naquela noite: “foda-se”.

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One response

11 12 2012
Bem vindo à minha ficção II: perna quebrada e cabeça vazia « Janaina Rochido, jornalista

[…] escrevi pensando, novamente, nisso de assumirmos nossos sentimentos e sermos honestos até mesmo quando temos sentimentos considerados negativos. […]

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