Três pequenas cenas do caos urbano ou o “Levante do Por Favor”

12 07 2012

Caro leitor, observe:

Cena 1:

Linha 8205, sentido Nova Granada > Maria Goretti, um dia qualquer da semana, por volta de 20h. O cobrador, sentado em sua cadeira, conversa ao celular enquanto atende displicentemente aos passageiros que passam pela roleta. De repente, um deles, sentado na frente do ônibus, se irrita com alguma coisa que eu não pude ouvir:

Cobrador (tirando o celular do ouvido): – Cê é louco?

Passageiro: – Não sou obrigado a ficar ouvido isso aí que você tá falando!

Cobrador (se levantando): – Cara, você é doido, ah, você vai ver…

Passageiro (também se levantando): – Não sou obrigado, você me respeita!

Cobrador (pulando a roleta): – Ah, não, cê vai ver…

O cobrador investiu para cima do homem, que parecia embriagado e deveria ter entre 50 e 55 anos, dando-lhe uma gravata. Deu-lhe então um empurrão e o homem cambaleou, mas não caiu. Não satisfeito, o cobrador começou a gritar mandando o motorista abrir a porta da frente, por coincidência em frente a um ponto de parada – assim que ele o fez, o cobrador empurrou o homem para fora do ônibus. Com a força do empurrão, o homem caiu para trás e rolou pela porta do ônibus. O motorista nada fez, assim como nenhum dos poucos passageiros.

Tipo isso.

Tipo isso.

Cena 2:

Novamente a linha 8205, dessa vez sentido Maria Goretti > Nova Granada, novamente durante a semana, cerca de 8h30. Uma mulher entre seus 40, 50 anos, entra no ônibus próximo ao centro da cidade e, ao passar pela roleta, a grande bolsa que carregava no ombro agarra e provoca um quase giro da roleta. O cobrador, então, puxa a bolsa e força uma nova volta da catraca. A mulher passa e senta-se no banco logo depois dele:

Cobrador: – A passagem, senhora.

Mulher: – Eu já paguei.

Cobrador: – Não, a senhora pagou a sua, mas a roleta rodou duas vezes.

Mulher: – Foi a bolsa que agarrou, a roleta rodou porque você puxou.

Cobrador: – Não tenho culpa se a sua bolsa é grande, rodei senão ela não ia desagarrar. Você [não mais senhora] tem que pagar a outra passagem.

Mulher: – Não vou pagar, porque quem rodou a roleta foi você. Se tivesse puxado a bolsa devagar, não teria rodado.

Cobrador (aos gritos): – Ah, você quer então que eu pague do meu bolso? Quer que eu pague do meu bolso porque VOCÊ rodou a roleta duas vezes?

Mulher (sem alterar o tom de voz): – Fala baixo comigo e me respeita, eu sou uma mulher e não estou gritando com você.

Cobrador (ainda aos gritos e se inclinando para cima dela): – Não me interessa, eu grito com você, com homem, com criança, com velho, com quem for, não tô nem aí, quero ver quem vai me obrigar aqui! A porra da bolsa que rodou a roleta é sua, você VAI pagar SIM!

Mulher: -Para de gritar, eu não estou gritando com você, vê se me respeita…

Cheguei a me levantar e ensaiar um “que que isso, ô!” para o que acontecia, mas o ônibus encheu mais e não pude ver o que aconteceu nem ouvir mais da discussão – parece que a mulher desceu pouco depois, porque não a vi mais. O cobrador também parou de falar. Novamente, nem o motorista e nem as dezenas de passageiros dentro do ônibus fizeram nada.

Cena 3:

Linha 9210, sentido Prado > Santa Tereza, quarta-feira, por volta de 12h. Eu estava no ponto, bem embaixo da placa e, mais à frente, coisa de uns cinco metros, uma mulher grávida esperava também, aproveitando a sombra de uma árvore. O ônibus apareceu, eu fiz sinal e, quando entrei, a mulher grávida caminhava em direção ao coletivo. A cobradora falava com o motorista, que parecia ser novato, posto que ela lhe indicava os pontos de parada:

Cobradora (incisiva): – Olha lá, aquela fora do ponto [apontado a grávida com o queixo]. Quando for assim, não espera não, deixa pra trás.

Motorista (em tom de “deixa disso”): – Ah, para, ela tá chegando já… nem estava tão longe…

Cobradora: – Não! Não para não! Arranca, não espera não! Esse povo é folgado, acha que a gente tem obrigação de servir eles [sic]! Quem quiser que fique no ponto, senão você deixa pra trás!

Motorista: – Pra que isso… olha lá, já chegou…

Nessa hora a conversa parou e a cobradora atendeu a grávida normalmente, que passou pela roleta e sentou. A cobradora continuou falando aos berros, agora sobre o crime do executivo da Yoki, dizendo que “a mulher foi burra em matar ele” e que, se fosse com ela, “o cara podia ter mil amantes, desde que continuasse me dando R$ 27 mil por mês”.

Eu admito, com um certo embaraço, que as duas primeiras histórias aconteceram no ônibus que tomo todos os dias para ir e voltar do trabalho e que, como disse um colega meu, “deve estar selecionando funcionários no meio da bandidagem”. Mais embaraço ainda me causa admitir que a mim elas não são surpresa, posto que eu ando quase exclusivamente de ônibus no meu dia a dia. Surpresa mesmo, para mim, é a frequência em que elas vêm ocorrendo e a capacidade de todos em fingir que não estão vendo nada.

Homens, outras mulheres, jovens, velhos: todos assistiram – principalmente as duas primeiras cenas – e nem sequer levantaram das cadeiras para ao menos dizer um “ô, que isso, cara?” ou tentar conter a fúria dos cobradores. Eu faço aqui um mea culpa porque também não fiz nada – fiquei com medo de intervir e apanhar também, aqui da minha posição de mulher e possivelmente sozinha na minha investida.

#MEDO #CAIXINHADESURPRESA

#MEDO #CAIXINHADESURPRESA

Ok, sei que as pessoas têm o mesmo medo que eu, mas… o que é isso que está acontecendo? Quanto tempo eu dormi, para acordar e presenciar quase todo dia uma coisa dessas num espaço que por si só já é incomodo, tendo como protagonistas os próprios prestadores de serviço? Confesso que, depois de ter visto essas três cenas num espaço de cerca de dez dias, eu não sei mais o que esperar quando entro no ônibus e dou “bom dia” ou “boa noite” ao motorista e ao cobrador.

“Esse povo é folgado, acha que a gente tem obrigação de servir eles [sic]!”, disse a cobradora da linha 9210 – uai, e por acaso qual seria a sua obrigação, senão servir aos passageiros, e com um bom serviço, posto que é da passagem deles (teoricamente, pelo menos) que vem o seu salário? Olha, eu não compreendo bem esse raciocínio, ainda mais falado em alto e bom som, para quem quiser ouvir. Deve ser uma tática para intimidar quem quer que seja a exigir educação. Ah, mas eu queria bem ver essa “macheza” toda com aqueles tipos que entram, sentam-se na frente e descem pela frente também, sem pagar a passagem e ainda cumprimentando com um “dá uma moral pra nóis aí, motor, valeu?” ou então com os “surfistas de ônibus” – há.

Sim, pode parecer insensível de minha parte: “Ah, Janaina, mas esse pessoal trabalha sob condições estressantes, passam umas oito horas por dia nesse caos de trânsito que é o de BH, ganham pouco e aguentam de tudo, você queria o que?” – eu queria respeito, simples assim. Porque eu tento facilitar o trabalho deles ao máximo, faço tudo que eles pedem naquelas plaquinhas dentro do ônibus: facilito o troco, pago a passagem do meu filho (que tem mais de cinco anos) ao invés de fazê-lo pular a roleta, não fico pedindo para descer pela porta da frente, não ouço música sem fone, digo “por favor” e “obrigada” sempre. E, mesmo assim, já precisei brigar com o motorista e aguentar o cobrador debochando de mim porque exigi – oh, audácia! Absurdo! Folga desse povo! – que o ônibus parasse no ponto de parada, e não na esquina de baixo ou “ali na frente” (leia-se quarteirão seguinte).

Chamem do que quiserem, mas eu percebo que temos sido muito condescendentes com a falta de civilidade das pessoas COM OS OUTROS. Eu me arrependi de não ter gritado mais alto quando o cobrador começou a agredir a mulher e de não ter feito nada quando o outro empurrou o homem para fora do ônibus. Pensei que poderia ter sido comigo e que me chatearia ninguém ter feito nada também. E eu não me refiro só aos casos dos ônibus, não: nas filas, nas lojas, nos bares, nas ruas, no aeroporto, estão todos se lixando para o outro. Não perdem um só minuto em ouvir o que se passa ou usar uma palavra educada ao se dirigir ao outro. Todo mundo quer resolver no grito e no braço.

Essas coisas me indignam. Onde isso vai dar, eu ainda não sei. Talvez no dia em que eu descobrir como casar educação e civilidade com o levante armado do “calma, vamos conversar”…

Pensemos.

Pensemos.

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