Pela coragem de sermos “feios”

3 07 2012

É muito fácil ser o paladino dos sentimentos puros. Mas e se você não for? Teria coragem suficiente para assumir?

Assisti semana passada a Sombras da Noite (Dark Shadows, 2012, direção de Tim Burton) e adorei, me diverti muito. Eu poderia dizer dezenas de coisas sobre o filme, mas quero me ater a uma personagem, a vilã do filme (atenção: esse texto contém spoilers – assim, se você ainda não viu o filme, pare agora ou não venha reclamar depois). Ela chamou minha atenção porque é uma vilã na qual eu não enxerguei maldade. É claro que os meios que ela usa para atingir seus fins são condenáveis por toda a literatura de auto-ajuda e páginas policiais que existem, mas… ai, gente, ela era uma mulher apaixonada e desprezada pelo homem que amava!

"Amor é amor, um lance é um lance" (Imagem: divulgação / Warner Bros)

“Amor é amor, um lance é um lance” (Imagem: divulgação / Warner Bros)

É mais ou menos assim: Angelique Bouchard (Eva Green) é uma das empregadas da rica família de Barnabas Collins (Johnny Depp – ah, Johnny Depp…) e desde criança foi ensinada a “saber o seu lugar”. No entanto, ao crescerem, Angelique e Barnabas se envolvem – só que, o que para ele era “só um lance”, para ela era amor. “Je t’aime! Eu te amo! Barnabas, diga que me ama também!” ela diz, após um beijo – ao que ele, entre surpreso e indiferente, responde: “Angelique, minha querida, se eu te dissesse isso, seria uma mentira” (devo fazer aqui um aparte para dizer que achei de muita hombridade a atitude dele – cortou a expectativa pela raiz, ao invés de deixar o monstro crescer. Dói? É claro – mas nós, mulheres, costumamos superar melhor e mais rápido quando é assim).

Aí começa todo o inferno de Barnabas, que não sabia que Angelique era uma bruxa. Magoada, ela começa a boicotar a vida dos Collins e sua mágoa atinge seu auge quando Barnabas se apaixona e decide se casar com a delicada Josette DuPres (Bella Heathcote). Angelique, furiosa, provoca o suicídio da noiva e amaldiçoa Barnabas, que se transforma em um vampiro. Como, ainda assim, a bruxa não consegue ser amada por ele, vira a cidade contra Collins e o tranca em um caixão de metal por 200 anos. Quando Barnabas “acorda”, a trama principal do filme começa.

Segundo o politicamente correto, seria deplorável eu defender o que quer que fosse sobre Angelique. Mas eu vou defendê-la sim, porque as características dela são tão humanas quanto as minhas e as suas, caro e paciente leitor (admita). E eu garanto que, no fundo, lá no fundo, onde você guarda seus despeitos e preconceitos, você já quis agir como ela. Porque afinal, Angelique era uma pessoa magoada. Ela deixou sua raiva emergir – e foi honesta consigo o tempo todo sobre isso.

Deus – ou quem você preferir que tenha feito isso – nos fez cheios de sentimentos, bons e ruins. Mas somos criados para deixar à mostra os bons e esconder os ruins, custe o que custar, até de nós mesmos. Sentimo-nos orgulhosos de nos declaramos caridosos, felizes e capazes de perdoar tudo, mas nunca admitimos que sentimos raiva, ódio, inveja, mágoa e que gostaríamos de mandar tudo à merda ao invés de perdoar certas coisas que nos acontecem. Mas perdoamos, porque é isso que deve ser feito – só que, lá dentro, algo continua te corroendo por um tempo e você reluta bravamente para admitir que não perdoou nada.

#ANGELIQUE #FEARLESS (Imagem: divulgação / Warner Bros)

#ANGELIQUE #FEARLESS (Imagem: divulgação / Warner Bros)

Veja bem: não estou dizendo que não se deve privilegiar o nosso lado bom – o que eu digo é que é preciso ser honesto consigo próprio quando algo negativo brota lá dentro. Identificar e admitir um sentimento negro é o primeiro passo para extirpá-lo (nossa, que frase mais auto-ajuda… foi inevitável, desculpem) e é de grande coragem ADMITIR que ele existe. É um bom exercício de auto-conhecimento parar um pouco naquelas horas em que você está inquieto andando em círculos pela sua sala e admitir que não, não estava “tudo bem” quando seu filho queimou seu notebook tentando copiar seus DVDs (N.A.: meu filho nunca queimou nada meu e eu não tenho notebook, ok? É só um exemplo). É possível que você dê um chute no rodapé na hora em que perceber isso, mas o sentimento vai sumir tão depressa que você nem vai sentir o dedão doer.

Sei do que estou falando. Funciona com vários sentimentos. Alguns não vão passar tão depressa quanto a raiva – e no meio desses infelizmente estão a mágoa e a decepção – mas eu, pessoalmente, acho libertador admitir-me humana e passível de ser “feia” de vez em quando. Sinto-me honesta comigo mesma, e isso é algo que prezo acima de tudo: a partir do momento em que deixei de mentir para mim sobre o que eu sentia, ficou mais fácil rebater certas negatividades. Eu, cá comigo, tenho ido além da auto-crítica e também exposto meus sentimentos, mas isso é algo no qual ainda estou trabalhando – de qualquer forma, me sinto melhor quando falo o que está aqui dentro, bom ou ruim. O que os outros vão fazer com isso, bem, eu não tenho nenhum controle – e isso nem é problema meu. Eu posso superar o que vier.

Voltando à Angelique, ela era honesta consigo mesma, não tinha medo de admitir o que sentia. Essa, para mim, é a tal da coragem – e daí, para sermos honestos com quem nos rodeia, é um pulo, um mérito maior ainda. A linda bruxa de Eva Green me ganhou totalmente quando, ao fim do filme (olha o spoiler, eu avisei!), já derrotada pela família Collins, ela torna a dizer a Barnabas que o amava, ao que ele retruca dizendo que ela não poderia amá-lo, pois não tinha coração. Ela, então, enfia a mão no próprio peito e tira de lá algo vermelho e pulsante que, frente ao olhar indiferente (indiferença é mesmo fatal) de Barnabas, se esfarela e se acaba em pó – como ela, logo depois, numa cena que eu achei bem significativa sobre como nos sentimos numa situação dessas. Ah, achei romântico…

Mas isso é uma reflexão para um outro texto, talvez.

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2 responses

27 07 2013
megumi

tmbm axo … Angelique eh uma personagem muito interessante pra ñ dizer a mais interessante ela e Barnabas o sentimento dela durou 200 anos…

21 10 2012
Bem vindo à minha ficção: um conto de lavra própria « Janaina Rochido, jornalista

[…] só de Jornalismo, assessoria de imprensa e reflexões sobre saudade e sentimentos não-tão-legais-assim vive um jornalista. Às vezes alguns – tipo eu – se arriscam a escrever ficção e até […]

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