17º Curso Anual do NPC: Como enfrentar o agendamento nocivo da mídia?

24 11 2011
17º Curso do NPC

Participantes mineiros no 17º Curso do NPC, no Rio de Janeiro. Olha eu bem ali! (Foto: Gil Carlos Dias)

Entre os dias 16 e 20 de novembro estive no Rio de Janeiro para fazer um curso, junto a outros colegas de trabalho e também diretores da entidade onde sou jornalista da assessoria de comunicação. O objetivo principal do curso era debater, por meio de mesas e oficinas, práticas de Comunicação para fazer frente ao que a dita mídia comercial nos impõe diariamente, agendando o que discutimos dentro do ônibus e nas mesas dos bares.

Nem tudo que essa mídia nos “empurra” é ruim, mas há um enorme problema quando ela faz isso a serviço da manipulação, seja ela de quem for. É sabido que as pessoas nem sempre têm preocupação em assistir à TV ou ler um jornal com uma visão crítica e fazendo inferências com acontecimentos do dia a dia – e essa mídia, sabedora disso, muitas vezes se vale do jogo de palavras e da descontextualização dos acontecimentos para chegar onde quer.

Eu pretendia escrever algo sobre esses dias de curso (inclusive a experiência de colegas que visitaram o morro Santa Marta, sob a companhia do Rapper Fiell, um dos palestrantes), mas a Marina Schneider fez uma matéria muito boa e completa sobre o assunto, então achei melhor reproduzí-la aqui – para quem quiser ver a original, o link é esse.

Jornalistas falam de práticas possíveis na TV e no rádio para disputar hegemonia

Por Marina Schneider

Para discutir práticas e passos possíveis na televisão e no rádio, o Núcleo Piratininga de Comunicação reuniu, no dia 18 de novembro, Antonio Jordão (diretor de programação da TVT), Laurindo Leal (jornalista e sociólogo), Claudio Salles (músico e comunicador), Arthur William (jornalista e representante da Amarc Brasil) e Vito Giannotti (coordenador do NPC). A mesa aconteceu durante o 17º Curso Anual de Comunicação do NPC, realizado de 16 a 20 de novembro, no Rio de Janeiro.

Comentando a mesa anterior – que gerou polêmica sobre o uso da Internet e suscitou dúvida a respeito de que tipo de veículo seria mais importante na disputa de hegemonia -, Laurindo Leal opinou que estas disputas não podem existir. “O mais importante é o conteúdo que está sendo veiculado e não a forma como este conteúdo é passado”, disse. Laurindo pontuou que cada vez mais o indivíduo recebe conteúdo baseado em uma forma única de pensar e tem dificuldade para encontrar programações alternativas. Ele não concorda com a visão de que quem controla o que assiste é quem tem o controle remoto na mão. “O controle remoto só permite escolher entre as mesmas coisas. Não há diversidade”, lamentou.

Entraves na democratização da comunicação e passos possíveis

Sobre a regulação e democratização da comunicação no país, Laurindo Leal recordou que durante a Constituinte, no final dos anos 1980, havia cerca de 40 comissões sobre diversos temas como educação, saúde etc., e que somente a de comunicação não chegou a um consenso. “Estamos travando uma disputa brutal. O congresso é dominado pelos setores do rádio e da TV”, lembrou. “Acho fundamental discutirmos formas alternativas porque não é na grande mídia que vamos vencer essa disputa”, disse. Ele avalia que já houve alguns avanços, mas ponderou: “a diferença de potência dos nossos autofalantes para os autofalantes hegemônicos é muito grande”. Para fortalecer o lado dos trabalhadores e da sociedade civil nesta disputa, Laurindo sugeriu a criação de uma associação de rádios e TVs sindicais. “O trabalho de uma organização nacional dessas seria um primeiro passo para que esses instrumentos deixassem de ser apenas de uma categoria para ser da sociedade”, concluiu.

Concordando com Laurindo Leal sobre a utilização de diversos meios para transmitir informação e cultura, o jornalista multimídia Arthur William explicou que antes se pensava a comunicação com base em um transmissor e que hoje o conteúdo é o “rei”. “Hoje pensamos no conteúdo sendo distribuído por diversos meios”, disse, contando a sua experiência na TV Brasil de distribuição dos conteúdos da emissora pelas mídias sociais, o chamado socialcast. “Ele permite um retorno muito rápido da audiência, que pode ajudar a aprimorar a programação”, explicou.

TVT: um passo em direção à democratização da comunicação

Antonio Jordão lembrou o nascimento da TVT, ainda em 1982 quando os metalúrgicos perceberam a necessidade de documentar sua história. “Nos baseamos no princípio da convergência e disponibilizamos espaço em nosso site para todos os interessados”, disse, explicando que o projeto da TVT é colaborativo, compartilhado e aberto. Ele contou algumas experiências da TV, como a distribuição de câmeras de mão para membros de movimentos sociais que gravam sua luta e mandam para o jornal da TV. “Todo dia tem alguma matéria no jornal produzida por movimento social, movimento popular, pelo trabalhador. Todos os movimentos sociais progressistas que querem construir um modelo diferente desse capitalista imposto são benvindos”, disse.

Um desafio apontado por Jordão é aumentar a visibilidade da TV, que produz uma hora e meia de programação diária e tem parceria com a TV Brasil e a TV Câmara. Sobre o financiamento, ele ressaltou que fazer TV é muito caro e explicou que são os 12 mil sócios do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC que sustentam a iniciativa. “Temos a preocupação de produzir conteúdo para o cidadão e não para o consumidor. A TVT quer unir forças para construir um modelo de comunicação diferente”, ressaltou.

Para Vito Giannotti, a TVT é um dos alguns passos tímidos que o país dá em direção a uma democratização dos meios de comunicação.  “No Brasil rádio e televisão estão nas mãos da direita. Temos que entender a importância de lutar para ter o direito de ter rádio e TV em nossas mãos”, frisou. Ele ressaltou que não as concessões de rádio e TV não são feitas de forma democrática. “É um problema de classe. Por isso não temos rádio e televisão. Vivemos em um sistema de donatários, são as sesmarias que são doadas”, disse, lembrando que final da ditadura civil militar essas concessões foram dadas para a burguesia e não para esquerda.

O coordenador do NPC destacou a importância da televisão no Brasil lembrando que apenas 4% da população aqui leem jornais diariamente. “Somos um país que lê muito pouco. Sonho com três, quatro, cinco jornais de esquerda, sou fanático por isso, mas temos que levar em conta que estamos em um país que não lê, por isso devemos pensar na importância do rádio e da TV”, disse. Recomendando que não deixemos de levar em conta o fato de sermos um país de cultura oral e visual, Vito sugeriu também que, tendo emissoras, que a classe trabalhadora produza novelas, já que este é um importante instrumento para transmitir valores. “Temos que usar todas as ferramentas. Nossos inimigos usam todos, o Roberto Marinho usa todos. Temos que fazer isso porque somos a vanguarda do atraso em democratização da comunicação na América Latina”, afirmou.

Potencial meio de comunicação não comercial, rádio comunitária enfrenta muitos problemas

Presidente da Rádio Comunitária Papa Goiaba, de Niterói, Claudio Salles criticou a postura repressiva do governo com relação a este importante instrumento de comunicação. “Estamos em uma situação que a Anatel e o Ministério das Comunicações vigiam apenas a rádios comunitárias. O governo não está interessado em viabilizar produção de conteúdo para rádios comunitárias, está interessado apenas em limitar essa voz”, criticou. “Não temos nem a mídia e nem o governo a nosso favor, é muito difícil”, lamentou.

Claudio afirmou que a forma como o governo lida com rádios comerciais e comunitárias é muito desigual. “Se o sinal da rádio comunitária interferir no das rádios comerciais, temos que desligar os transmissores. Quando acontece o contrário não há essa obrigação”, disse.  Outro problema enfrentado pelas rádios comunitárias é a sustentabilidade já que o governo não anuncia nas rádios comunitárias e proíbe que as rádios façam anúncios. “Nome de rádio comunitária deveria ser rádio gueto e não rádio comunitária porque só pode atingir a região em um raio de um quilômetro”, concluiu.

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