Carnaval e Dia da Mulher: nada a ver

8 03 2011

Ironia fina essa do Dia Internacional da Mulher, 8 de março, cair no mesmo dia (oficial) do Carnaval, não?

Digo isso porque, no Carnaval, o que menos vemos é algo que valorize a mulher, que exalte as suas qualidades – digo as qualidades que têm de fato algum diferencial que contribua para a nossa dignidade – porque né, bundas malhadas, pele cor de terracota, saltos altíssimos e peitos siliconados não ajudam quando queremos falar sério sobre o que queremos e precisamos nessa vida.

E não, quando eu falo de necessidades eu não falo de roupas e sapatos caros, “príncipe encantado” ou sandices afins. Estou falando de respeito, respeito em seu significado mais amplo, coisinha básica que deveríamos todos aprender no berço. Mas nós mulheres sabemos muito bem que basta uma volta no quarteirão para vermos que não é bem assim, porque tem homem que fala demais. Enfim, essa é uma observação particular.

Mulher brasileira padrão? NÃO!

Bom, mas então vem o Carnaval, a festa brasileira mais vistosa no mundo todo. Recebemos pessoas de todos os lugares nessa época para curtirem todo o samba da mulata brasileira. Ops! Samba da mulata? Pois é – infelizmente, a imagem da mulher brasileira nessa época se resume a isso: a mulata (ou branca, ou negra, ou loira, ou ruiva, whatever) que samba seminua na avenida. A gostosona siliconada que se equilibra em cima de um salto e uma plataforma, “vestida” apenas com purpurina para “celebrar” toda a alegria do Brasil no Carnaval.

Fico pessoalmente ofendida quando vejo essa representação chula da mulher brasileira exportada para todo o mundo. Fico indignada quando leio sobre turismo sexual e vejo que, no material informativo para os gringos que querem vir aqui e nos levar para seus países como escravas sexuais fogosas e insaciáveis, há sempre uma bunda e referências ao Carnaval. Daí, eles compram o pacote, chegam aos aeroportos do Rio de Janeiro e o que tem para recepcioná-los? Mulheres seminuas vestidas com fantasias e sambando. O estereótipo só se perpetua.

Ok, admito que eu possa estar equivocada em algumas coisas, pode ser que não haja mais tal comitê de recepção, o que seria ótimo do meu ponto de vista. Mas desafio qualquer um a me provar que a nossa imagem lá fora mudou,  mesmo agora nosso país tendo uma mulher na presidência. Frequentemente ouço relatos de viagem de conhecidos e leio depoimentos de mulheres que moram fora do país que dizem que a fama da brasileira é das piores possíveis. Somos tidas como prostitutas e interesseiras, mulheres fáceis que requerem apenas poucas horas de conversa para que nos entreguemos.

Que o Carnaval é a época de pão e circo desse país todo mundo já sabe. Mas ele cair exatamente no Dia Internacional da Mulher foi uma das coincidências mais infelizes que já vi na vida. Ou você acha que alguém nessa terra vai largar todas as mulheres seminuas que a TV oferece para ler sobre a necessidade de se combater energicamente a violência contra a mulher, que só cresce? Acha que alguém vai trocar a possibilidade de “beijar muito” num bloco ou em uma micareta para ir a um ato público pedindo punição aos dezenas de assassinos de mulheres que ainda estão soltos? Pois é, não vai.

Para encerrar, aproveito para citar postagem recente do excelente blog Maria Frô, sobre a revista que resolveu ensinar suas leitoras a “fisgar” um gringo no Carnaval – como se, com a fama que temos lá fora, fosse difícil. Preste atenção no texto cheio de duplos sentidos e insinuações chulas. Tudo bem que o objetivo da Revista Nova não é exatamente fazer as mulheres se valorizarem por seus cérebros, mas é dose.

É, tô boa não.

E, para as mulheres que também não se vêem representadas dessa forma, uma dica de protesto: no Carnaval, saia vestida e se recuse a “beijar muito”. Divirta-se, mas lembre-se que, depois da folia de Momo, a vida volta ao normal e você volta a ter que brigar para ter seu espaço ao sol.

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5 responses

18 02 2012
Adriana

Muuito , muuito bom Jana!! Cada dia eu viro mais sua fã!!!! Temos que estar antenadas pra conseguir nosso lugar sendo carnaval, ou não! E esse lugar tem que ser conquistado e digno de muito respeito!

18 02 2012
Janaina Rochido

Oi, Dri! Obrigadão pela visita! Que bom que gostou do meu texto, fico mesmo muito feliz. Pois é, precisamos estar atentas para chegarmos onde queremos de forma digna e respeitosa. Infelizmente, as várias que ainda não entenderam isso vão pelos caminhos errados… e queimam o filme de todas as outras. É osso, mas não podemos desanimar!

15 02 2012
Mary

Concordo plenamente,brasileira te fama de p… lá fora e elas mesmas ajudam a piorar a situação.Carnaval é um exemplo muito óbvio disso,a festa em que ninguém é de ninguém,todo mundo sai com todo mundo,a vergonha e o caráter das pessoas vai para o brejo e a imagem da mulher brasileira vai junto.E viva o Brasil das mulheres que acham que corpo é tudo.Tenho dó delas,tadinhas a terra vai comer também!Bye Bjoss amei a postagem o Brasil precisa de pessoas com essa visão moralista que você tem em relação as mulheres.

17 02 2012
Janaina Rochido

Oi, Mary – muito obrigada pela visita, fico feliz que tenha gostado do texto! Chamar a minha visão de moralista pode dar uma ideia meio dúbia, mas é fato que não gosto da forma como somos expostas na época do carnaval. Ficamos reduzidas a figuras seminuas nas festas e a figurantes de propaganda de cerveja. Acho triste.

6 03 2011
Marcelo

Sinceramente,o Carnaval só faz com que a imagem da mulher brasileira seja uma das piores possíveis,mostrando que elas são apenas um corpo,nada mais.

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