Fiz 30 e não morri

14 02 2011

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Engraçado: eu achava que ia fazer 30 anos e um monte de coisas iria mudar na minha vida – a maioria para pior. Achava que ia ganhar um monte de rugas, que ia ficar mau-humorada e reclamando da vida constantemente, achava que apareceria uma marca na minha testa dizendo “velha”, que eu ficaria amarga e sozinha e que a molecada passaria a me tratar por “senhora”, dentre um monte de outras misérias. Só que os dias passaram depois do aniversário e nada aconteceu. A não ser pela carteira de identidade, que comprova que nasci em 80, ninguém nem diria que fiquei mais velha.

Há muito tempo penso em escrever sobre isso, mas só esses dias consegui de fato refletir sobre tudo e concluir que fazer 30, na verdade, me fez foi um bem enorme. Interessante que várias amigas que já passaram por essa idade me disseram a mesma coisa – que era para eu deixar de ser “noiada” porque a vida melhora muito depois que você faz 30 anos. E é verdade: eu me sinto bem melhor comigo mesma e com as pessoas ao meu redor hoje em dia do que quando tinha, sei lá, 18 ou 25 anos.

No lugar da tensão que me dava quando eu via o 31 de agosto de 2010 se aproximando, apareceu uma sensação de que eu posso tudo. Eu me sinto plena. Me olho no espelho e vejo uma pessoa melhor, mais segura, mais madura e mais forte para defender o que pensa e o que quer. É estranho quando eu paro para escrever isso, porque parece que virei outra – que bom, porque estou gostando bem mais dessa “outra” pessoa. Os 30 na verdade me rejuvenesceram. É comum as pessoas arregalarem os olhos quando digo que tenho 30 e um filho de quase sete anos. Eu ainda não sei reagir bem ao espanto delas, mas fico feliz assim mesmo, porque prova que minha teoria está certa.

Não sei se foi uma iniciativa inconsciente ou uma mera coincidência, mas depois desse aniversário eu passei a me cuidar melhor – me alimento direito, cortei as “porcarias” e as overdoses de doces do meu cardápio; frituras e refrigerantes, só quando saio com amigos ou quando estou com aftas (o bicarbonato dos refrigerantes ameniza a dor, #ficadica), nessa ordem. Vou à academia quatro vezes por semana e me empenho com prazer nas atividades físicas: fico impressionada em ver como o corpo tem respondido melhor do que quando eu tinha meus 20 e poucos – acho que é um agradecimento por reclamar menos e agir mais. As cervejas continuam sendo um prazer, mas tenho preferido tomar minhas weiss bier em casa, com calma, do que virar a noite me entupindo de qualquer coisa.

Não fico mais “contando moedinhas” quando se trata de cuidar da minha pele, do meu cabelo ou das minhas unhas, atitude que me fazia mal duas vezes: uma quando eu me via mal-cuidada no espelho e outra pelas comparações que eu fazia com as outras pessoas quando isso acontecia. Eu trabalho muito para ganhar meu dinheiro, então porque ficar “pão-durando” com pequenas coisas que deixam qualquer mulher mais feliz? Me abri para novas roupas: além das peças coringa em preto, branco e cáqui nas gavetas, agora saias, vestidos, vermelhos, rosas, verdes e shorts dividem espaço com as calças e blusas de corte sóbrio e clássico. E, se eu achava que aquele papo de que “estar bem consigo próprio atrai pessoas e coisas boas” era clichê, hoje eu te digo que não, não é – você continua tendo uns momentos ruins, mas eles ficam cada vez mais escassos e, quando aparecem, duram menos.

Mas acho que a melhor percepção foi a da forma como eu passei a me impor frente aos outros. Com 25, eu me achava pior do que as outras mulheres, então achava também que eu TINHA que aceitar o que aparecesse porque nada melhor iria me achar, fosse um parceiro, um emprego ou um programa para o sábado a noite – achava que o que me acontecia era um “favor” que a vida me fazia. Hoje, com 30, eu me coloquei no meu “devido lugar”, e não me sinto pior que ninguém. Me sinto muito à vontade para dizer “não” se não gosto de alguma coisa, para recusar ir a lugares que eu não curto mesmo se a companhia for boa e para procurar só aqueles empregos nos quais eu saiba que minha motivação não será somente o salário, mas também a qualidade de vida.

Acho que tudo se resume a mais ou menos isso: qualidade. Agora eu quero qualidade para mim. Quero só as melhores companhias, só os melhores amigos, as melhores risadas. Quero reclamar menos e pensar mais no lado positivo de cada coisa. Quero viver, só viver. É claro que o tempo vai continuar passando e eu ainda tenho medo de quando chegar o dia em que não poderei mais fugir das rugas no rosto, dos cabelos brancos, do medo de ficar sozinha e da verdade inevitável de que vou perder minhas formas para a idade. Mas sabe, o medo do futuro paralisa a gente, e eu não quero mais parar: se não morri quando fiz 30, agora eu quero mais é viver tudo, agora mesmo.

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2 responses

24 11 2011
Érico San Juan

Bacana seu texto, Janaina. Preocupações femininas expostas de forma tão transparente são raras de ver. Muitas mulheres fazem questão de esconder seus temores sob a falsa aura do “mistério”, um dos muitos clichês atribuídos ao ex-sexo frágil, até atribuídos por elas mesmas. Clichês que, em muitos casos, só afastam os homens delas. O texto ainda prova, de maneira definitiva e irretocável, seu talento para “reportar” a vida. Parabéns! Bj.

14 02 2011
Tweets that mention Fiz 30 e não morri « Janaina Rochido, jornalista -- Topsy.com

[…] This post was mentioned on Twitter by Janaina Rochido, Janaina Rochido. Janaina Rochido said: Fiz 30 e não morri – mais uma prova de que eu sempre "pago a língua" http://wp.me/pwqN4-7p […]

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