O Monteiro Lobato que eu não conhecia

22 11 2010

Eu já li vários livros de Monteiro Lobato e cresci com a turma do Sítio do Pica Pau Amarelo na minha estante, que reli muitas vezes. Sempre gostei das histórias e nunca entendi direito porque a literatura de Lobato não era adotada com mais frequência nas escolas brasileiras, em se tratando de livros legitimamente brasileiros e com tantas referências ao nosso folclore.
Tento isso em vista, minha primeira reação à polêmica sobre a adoção de Caçadas de Pedrinho no ensino público pelo fato do livro conter racismo foi pensar “ah, gente, pelamordedeus, é só um livro para crianças”. Mas logo depois pensei “peraí, preciso ler sobre isso melhor, porque algum motivo, depois de tantos anos [o livro é de 1933], deve ter”. Comecei a me informar, mas, confesso, ainda não entedia a questão em sua plenitude. Como assim Monteiro Lobato é racista? E o Saci? E a Tia Nastácia? E o Tio Barnabé? Estão todos lá e todos têm papéis importantes nas histórias, como assim? Eu não conseguia enxergar.
Mas eis que, depois de ler o texto brilhante da escritora Ana Maria Gonçalves, publicado no blog O Biscoito Fino e a Massa e encaminhado a uma lista de discussão da qual participo pela Érika Pretes, eu descobri porque não entendia a causa da celeuma. O primeiro motivo é que tem muito tempo que eu li Caçadas de Pedrinho – eu devia ter uns 10 ou 11 anos, logo, estava totalmente alheia às misérias desse mundo no que concerne à discriminação e crimes de ódio. Dia desses até tentei entusiasmar meu filho de seis anos para lermos juntos e eu relembrar a história, mas ele não se interessou… e talvez tenha sido melhor assim. O segundo motivo é que eu não tinha pensado nas conexões possíveis entre o livro, o racismo no Brasil e as crianças que o leriam, especialmente as crianças negras. Como a autora diz, o caso não é o que VOCÊ pensa e lembra do Monteiro Lobato, mas o que AQUELAS crianças sentirão ao ter em cima delas os olhos dos colegas ao ouvirem termos como “carne preta” (isso está no livro).
O texto de Ana Maria abriu meus olhos para isso tudo, ao contextualizar Caçadas de Pedrinho com a época em que ele foi escrito e com o posicionamento de Moteiro Lobato sobre o lugar dos negros na sociedade. Eu não imaginava nada daquilo e foi uma decepção muito grande para mim saber que meu autor preferido na infância era um racista de carteirinha e, pior, expressava essas idéias pela boca da boneca Emília, tão adorada por muitos da minha geração. Não vou retirar o mérito de Lobato pelas suas obras, mas agora não vou mais conseguir vê-lo com os mesmos olhos.
Sempre me causa indignação pensar que em pleno 2010 ainda possam haver manifestações de racismo (e todos os outros tipos de intolerância e crimes de ódio) nesse país. Me assutam demais as últimas notícias e, sinceramente, o sentimento de impotência é grande: como saber se estamos fazendo a nossa parte para extinguir esses comportamentos? Como saber se meu filho está entendendo que somos todos iguais e que discriminação é a coisa mais triste que existe? Espero ter respostas positivas com o passar do tempo.

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Pegando carona no assunto, compartilho o vídeo postado no Facebook pelo amigo e jornalista Roberto Reis sobre as manifestações homofóbicas no Twitter assim que a hashtag #HomofobiaNao alcançou os trending topics brasileiros. Ao assisti-lo, lembrem-se que poucas semanas antes o alvo eram os nordestinos, com uma enxurrada de tweets preconceituosos na rede logo após as eleições. É triste ver a humanidade regredir assim.

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