Porque decidi votar na Dilma

6 10 2010

Ontem trabalhei até tarde e voltei no ônibus pensando em escrever esse texto. Não tinha certeza de como ele seria, aliás, não tinha nem certeza se ia mesmo dar meu voto à Dilma Rousseff, mas duas coisas me fizeram mudar de idéia e decidir digitar o 13 na urna eletrônica no dia 31. Uma delas foi a Carta Capital, que considero brilhante como mostra de independência e bom jornalismo e a outra uma amostra vergonhosa, dentro da minha própria casa, do que considero ignorância e desprezo pela igualdade entre as pessoas, pelo direito de todo cidadão ter acesso a casa, comida, direitos e bens de consumo.

Devo esclarecer que nunca me posicionei claramente a favor de nenhum dos candidatos que tinham a preferência no primeiro turno. Olhava, lia, ouvia e tudo me parecia farinha do mesmo saco. Sim, sou mais uma brasileira desiludida com a nossa política e que, apesar da relativa pouca idade, já viu muita promessa ser feita e sumir no ar depois do resultado das urnas. Como jornalista, aprendi a ser cética o suficiente para desconfiar de tudo e só dar o braço a torcer depois de tudo pronto e conforme o prometido. Posto isso, no primeiro turno dei meu voto ao Plínio de Arruda Sampaio, porque gostei da postura questionadora dele frente aos “grandes” – eu acredito muito que o Plínio sempre soube que não ia ganhar, mas tinha certeza que poderia incomodar e fazer as pessoas refletirem. Isso eu admiro.

Eu também não tinha opinião formada quanto à Dilma. Quanto ao Serra, o que eu tenho a dizer é que nunca gostei dele mesmo, nunca fui simpática ao PSDB e não acredito que eles possam melhorar nada no Brasil. No começo da candidatura da Dilma, confesso que critiquei o fato do Lula ter escolhido alguém até então desconhecido do povo, uma personagem dos bastidores do governo, que estava crescendo “à sombra” dos feitos do presidente. No entanto, depois passei a achar muito interessante a possibilidade de termos a primeira “presidenta” da história do Brasil e resolvi a acompanhar mais a trajetória dela rumo às urnas.

A partir do momento que a candidatura tomou força, vieram os insuportáveis e-mails dizendo que a Dilma é terrorista, que matou o “santo” Mário Kosel Filho (desse eu já recebi tantos e em tantas versões no PowerPoint que passei a bloquear a palavra Kosel no meu servidor de e-mails), que é marionete do Lula, que “é tão ruim que nem o câncer matou” (essa eu considero, inclusive, uma falta de humanidade). Aí vieram as manchetes da grande mídia pregando pesquisas e plantando escândalos para enfraquecê-la e isso me causou um nojo danado, porque quem escreve isso é gente que se formou nos mesmos bancos que eu, os do Jornalismo, mas que não tem nada a ver comigo. Porque eu posso ter meus defeitos como profissional, mas a ética eu não consigo abstrair.

Estava eu nesses pensamentos quando li os textos de Mino Carta e Leandro Fortes na Carta Capital que citei lá em cima. E aí me deu um estalo: não posso anular meu voto. Se eu anular, vou concordar com tudo que está acontecendo de torpe e absurdo nas nossas barbas, pondo em cheque o bom senso dos brasileiros. Mesmo que eu não tenha certeza se é o melhor, tenho que votar na Dilma, pensei. E daí me veio a idéia do texto, que terminaria aqui, depois de mais algumas considerações sobre o trabalho da imprensa nessas eleições – que, aliás, só vem piorando, pois o que tem de completo, interativo e ágil, tem de parcial e escancarado no que tange ao partidarismo e ao vale-tudo para ganhar.

Mas eis que chego em casa, sento um pouco na sala ao lado da família e descubro outro motivo para votar na Dilma, ao ouvir minha irmã, pessoa com duas pós-graduações, praticamente repetir um e-mail que recebi hoje – uma sátira às mudanças promovidas pelo Lula no que diz respeito à ascenção dos mais pobres. No e-mail, uma suposta “perua” diz que vai votar no Serra porque acha um absurdo “os pobres passeando com seus celulares no mesmo shopping que eu” e questiona “como pode a minha empregada ter carro? Ela é empregada, tem que andar de ônibus”. Bom, minha irmã repetiu isso tudo e ainda arrematou com o clássico argumento de quem não tem argumento: “o Serra tem que ganhar porque assim acaba essa farra dos vagabundos mortos de fome viverem de ‘bolsa-esmola'”. Argumentei e ela me chamou de “terrorista”, pode? Só rindo.

Pensei em provocar mais o debate, mas desisti porque certamente estragaria minha noite ter que ouvi-la dizer, do alto de uma empáfia digna de quem não olha para seu próximo, outras pérolas como “bichas não podem ter o direito de casar”, “aborto é coisa de mulher sem responsabilidade” e que “esse povo que invade terra tem que tomar é tiro mesmo” – sim, eu sempre ouço isso aqui em casa. Para não me dar uma afta, resolvi acrescentar isso ao texto e desabafar. Como pode uma pessoa que tem acesso à informação, que trabalha com pessoas, pensar isso? Como é possível, até hoje, alguém achar que um “pobre” não pode ter os mesmos direitos que todo mundo? Que diferença é crime? O Bolsa-Família e as políticas sociais do governo Lula podem ter seus defeitos e seus fraudadores – assim como todo tipo de programa -, mas eu considero maior que tudo isso ter colocado comida na mesa de gente que nem sabia o que era isso, que via seus filhos morrerem famintos. Um pouco de dignidade faz bem.

O que me entristece é que, como ela, milhares pensam assim. Milhares acreditam que são melhores que os outros e se sentem ameaçados por uma sociedade com igualdade de direitos. Milhares acham que querer melhorar a vida do outro é, necessariamente, piorar a dele. Milhares de preconceituosos. Milhares de ignorantes. Milhares de pessoas para perpetuar essas idéias. Fico triste por ter ouvido isso de uma pessoa com o mesmo sangue que eu, criada sob os mesmos preceitos que eu, mas me sinto feliz por não ser parte disso e por querer juntar-me a outros que querem mudar. Me sinto tranquila por pensar diferente.

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6 10 2010
Eric Coutinho

Eu não sei ainda em quem votar, e por ter ainda muitas dúvidas, anulei no primeiro, coisa que não pretendo fazer no segundo. Votar na Marina nunca me pareceu uma opção. O PV ainda não tem cu pra governar, e digo isso como quem votou no Gabeira pra Governador e em seus deputados pela legenda.

Mas eu fiquei realmente impressionado com a ignorância política demonstrada com a perpetuação dessas mensagens sensacionalistas a respeito da Dilma. Eu não gosto dela, não sou partidário, mas não gosto nem um pouco dessa distorção de informações. Isso pra mim é ato criminoso e deveria ser levado mais a sério. Se não sabe do que se trata, não repasse.

Essa imbecilidade de taxar as pessoas envolvidas na revolução contra a ditadura de “terroristas”, mostra como somos mal informados e influenciáveis. Recebi inclusive um email destes, que colocava datas da vida dessa canditada da seguinte forma:

1964-1970 clandestina
1970-1973 presidiária
1973-1986 desaparecida
22 anos mal contados

Ora, não precisa nem ser muito “esperto” ou entendedor de política né?
1964 é o ano do golpe militar. Aqueles que se manifestaram contra a ditadura foram perseguidos. Os que falam dos assaltos a bancos provavelmente não sabem que, com a imprensa controlada, a maioria da população nem sabia o que estava acontecendo, e esses assaltos tinham 2 objetivos: Informar a população, e arrecadar dinheiro para financiar uma revolução. Em dezembro de 1968 tivemos o AI5 (Ato Institucional nº5, que vigorou por 10 anos), que ampliava o poder militar restringindo as liberdades civis e a partir daí, qualquer suspeito de “crime político” foi preso sumariamente. Tortura era praxe, e 40 anos depois, familiares ainda procuram por ossadas. Aqueles que sobreviveram à prisão ou conseguiram abandonar o país antes disso, ficaram exilados em outros países, e somente em 1986, quando a ditadura militar foi oficialmente encerrada, muitos voltaram ao país, sem o risco de serem presos e torturados novamente.

Hoje, estamos aqui na internet, exercendo nossa liberdade de expressão. Em uma ditadura militar, provavelmente o acesso a internet estaria restrito a certas instituições de maneira controlada. Eu teria escrito isso e provavelmente hoje mesmo estaria preso, levando choques no saco e sentando no pau de arara. Hoje, todo mundo tem liberdade pra dizer o que quer, inclusive essas merdas. Até mesmo chamar de terroristas aqueles que foram fundamentais para que estejamos vivendo há apenas 24 anos, em uma democracia.

7 10 2010
Janaina Rochido

Eric, bem vindo! Como sempre, um comentário lúcido e coerente. Essas pessoas que espalham essas ignorâncias deveriam conhecer um pouco mais de História do Brasil antes de simplesmente taxar de “terroristas” quem participou da luta contra o regime. Santos? Bandidos? Havia dos dois lados, disfarçados debaixo de cada bandeira. A questão é que se temos liberdade hoje, foi graças a “terroristas” como a Dilma e tantos outros, vivos ou mortos. Quem simplifica a história desse jeito na verdade não tem é respeito por ela…

6 10 2010
Ítallo Campos

Oi, Jana! Ja fazia muito tempo que a gente não se falava, acho q vc nem deve lembrar mais de mim…Uma pena que quando eu finalmente apareço, é pra discordar.

Durante o período de campanhas políticas desse ano, apareceram muitas informações falsas e maldosas, além de uma ou outra piadinha sobre o Serra ou a Dilma. Pra mim isso foi tudo muito confuso, já que eu não tive muito tempo de pesquisar a fundo sobre cada candidato. Sendo assim, fui obrigado a confiar no meu instinto, que aliás sempre me ajudou muito!

Mas antes disso, vamos resumir em 3 itens a minha posição quanto aos candidatos de qualquer cargo político:

1) Sou a favor, acima de tudo, da transparência e da participação do povo na tomada de decisões pertinentes ao país. Quem defende isso, já tem meu apoio.

2) Gosto de candidatos com idéias originais, mas que transmitam segurança ao mesmo tempo. Não adianta ser original e ser inviável.

3) Não gosto de gente que joga sujo.

Admito que até pouco antes destas eleições, o único candidato que eu conhecia era o Serra. Admito também que sempre me simpatizei com o trabalho dele, considero ele uma pessoa muito competente e séria. Não sei quanto à honestidade, mas também nunca tive motivos pra duvidar dela.

De repente, surge a tal da Dilma. A única coisa que eu sabia à respeito dela é que ela era Ministra da Casa Civil, e que ela parece um personagem dos Simpsons. Não sei o motivo, mas logo de cara eu já me antipatizei com ela. Instinto, talvez.

Apesar desse semestre ter sido bastante difícil pra mim, encontrei algum tempo pra pesquisar um pouquinho sobre os candidatos, seu histórico e suas propostas, e descobri a desvairada da Marina. Já conhecia o rosto dela de alguns lugares, mas não sabia muito a respeito. Descobri que esse jeito desvairado, miúdo e simples se deve à enorme lista de problemas de saúde que ela já teve.

Como eu “banco de dados” estava praticamente vazio, fui obrigado a assistir às propagandas políticas e aos debates. Daí percebi que a coisa estava pior do que eu imaginava. De um lado estava a Dilma, prometendo “continuar o trabalho do Lula” (claro que ela não disse com essas palavras), sem nenhuma proposta original, apenas clichês eleitorais. O que eu vi foi uma propagandagem que me pareceu manipulativa e muito cara, que tentou convencer sem propor nada de inteligente! Tudo o que ela fez foi se sentar sob a sombra do Lula.

Do outro estava José Serra, um político que eu sempre respeitei, se rebaixando ao ponto de usar o próprio horário de campanha para fazer acusações diretas à concorrente Dilma. Pra mim foi uma decepção tremenda.

Então, no meio disso tudo, estava a Marina. A acreana, que eu conhecia tão bem quando o próprio estado do Acre, me surpreendeu com as propostas e com a visão tão semelhante à minha. Foi a única que propôs ANÁLISES e PLEBISCITOS antes de tomar certas decisões, como a questão das drogas e do aborto (aliás, por quê esses assuntos foram tão discutidos nessas eleições?). Além disso, foi a única que eu vi jogar limpo, entre os três “grandes presidenciáveis”. Ao invés de buscar “patrocínio” de grandes empresas a troco de benefícios, ela fez uma campanha muito inteligente através da internet e das redes sociais.

Sinceramente, foi uma campanha marcada pelo desespero do Serra e da Dilma. Será mesmo que esse entusiasmo todo é só pela vontade de ajudar a melhorar nosso país? Enquanto isso, a única candidata que me pareceu honesta e equilibrada foi a que eu tinha a impressão de ser desvairada e fraca: Marina da Silva.

Infelizmente, nenhum dos candidatos do segundo turno merece meu voto. Ao contrário da grande maioria das opiniões que eu ouvi/li até agora, não vou votar no que me parecer “menos pior”. O voto é MEU, e eu não vou jogar ele fora. No segundo turno eu vou votar nulo, e vou digitar 43 pra isso.

6 10 2010
Janaina Rochido

Oi, Ítalo! Lembro de você sim, oras! Rs! Obrigada pela visita aqui. Achei muito coerente tudo que você falou. No meio de tanta coisa, a Marina apareceu como uma boa opção mesmo. Eu não quis votar nela porque não concordo com alguns posicionamentos dela em coisas que eu acho que precisam ser realmente resolvidas, como essa questão do aborto e outras de direitos humanos. Esse “desespero” das duas principais campanhas é algo que realmente desanima. Chega a ser feio. O que resta é mesmo ter essa consciência de que o voto é propriedade de cada um, para fazer dele o melhor que puder.

6 10 2010
Victor

E também foi no governo do PT que o Brasil conseguiu alcançar seu pior patamar de corrupção em toda sua história. Deixaram José Dirceu, José Genoíno, Marcos Valério e tantos outros roubarem à vontade e tudo continuou como estava. As bolsas deram resultado no governo Lula e continuará funcionando no governo Serra ou Dilma. Quem acha que o Serra vai acabar com ela, está completamente enganado.
Concordo em parte no que escreveu. Você pegou casos isolados para votar no seu candidato. Tem muita gente das classes A e B que não pensam como essa ‘madame’ citada por você.

6 10 2010
Janaina Rochido

Obrigada por comentar, Victor! Concordo que dificilmente o Serra acabaria com as bolsas – seria um suicídio, a menos que ele tivesse idéia muito melhor. Discordo quando lembramos que nos governos anteriores também sempre houve corrupção, a diferença é que ela era mais bem camuflada. Pouco sabíamos e tudo sumia no ar. Chego a pensar que corrupção é inerente à política, infelizmente, mas acho que não cabe discutir isso aqui, agora. Fico feliz por ter gente das classes A e B que pensam diferente da personagem do e-mail que recebi e da minha irmã, porque o meu maior medo é que essas idéias virem maioria. Acho isso muito perigoso a longo prazo – essa mentalidade de “uns são mais iguais que os outros” não pode ser regra. Esses casos precisam ser casos isolados, mesmo.

6 10 2010
Eric Coutinho

Essa idéia de que no último governo houve mais corrupção é BEM equivocada. Números mostram que no anterior, o de Fernando Henrique Cardoso, a coisa foi bem mais feia, mesmo a Polícia Federal não estando tão presente e efetiva como neste Governo. Imagine se estivesse.

6 10 2010
Carlos Falci

Vitor, não concordo com a corrupção tanto quanto você e não há defesa que possa se basear em “votar no menos corrupto”. Mas é preciso buscar informações também sobre os problemas que aconteceram no governo FHC quando Serra era Ministro da Saúde e todos os outros problemas de corrupção sim, no governo FHC. Digo isso porque me parece simplista e perigoso afirmar que estamos no pior patamar de corrupção da história. E sugiro a matéria da Folha sobre o que o relatório do TCE relativo ao governo de José Serra no estado de São Paulo, nesse último mandato. O link é esse aqui e trata dos problemas encontrados no relatório da gestão de Serra.
http://www1.folha.uol.com.br/poder/804833-promessas-de-serra-na-campanha-ja-foram-alvo-do-tce-de-sao-paulo.shtml
Eu estou procurando informações para que possamos fazer um debate saudável. E estou tentando divulgar essas informações todas elas. Por isso essa contribuição aqui.

6 10 2010
fmvalmeida

Concordo com praticamente tudo que você disse no post e lamento ler algumas bizarrices que pessoas dizem sobre a ‘ascenção dos mais pobres’ – como você citou.

Acho que você deveria rever seu conceito sobre os ‘dois lados’ do jornalismo e não ficar atrelada só às ideias e pensamentos de um lado. Vide a frase deste post: “Quanto ao Serra, o que eu tenho a dizer é que nunca gostei dele mesmo, nunca fui simpática ao PSDB e não acredito que eles possam melhorar nada no Brasil.”

Att,

Fernando Almeida

6 10 2010
Janaina Rochido

Oi, Fernando, obrigada pelo comentário! Talvez eu possa ter me expressado mal quando falei do Serra: não quis dizer que ele e o PSDB sejam sempre os vilões da história e que não têm seus méritos quando e onde governam, pelo contrário, reconheço-os, inclusive aqui em Minas. O que me incomoda – e isso não é só quando se fala em política – é quando percebo que há um posicionamento claro de grande parte da mídia, disfarçado de imparcialismo, de informação. Os veículos têm em seus editoriais o espaço de direito para se posicionarem: porque então não fazê-lo lá, como o Estadão e a CartaCapital, e deixar para a população os fatos, para que esta se decida? Sei que isso é utopia minha, mas seria o mais honesto, na minha opinião.

7 10 2010
fmvalmeida

Isso de deixar a opinião no editorial já é outra boa discussão. Cada hora pendo para um lado [entre o veículo se posicionar ou não]. Fica a discussão entre credibilidade [para falar sobre o candidato que o tal veículo não apoia] e escancarar a parcialidade [que também tem seu lado positivo, como você já mencionou].

Att,

Fernando Almeida

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