José Cleves e o jornalismo das antigas

20 05 2010

"A Justiça dos Lobos", José Cleves

Meu colega de trabalho me emprestou aquele livro do José Cleves, “A justiça dos lobos – porque a imprensa tomou o meu lugar no banco dos réus“, no qual ele narra todo o calvário pelo qual passou desde que ele foi acusado de assassinar a esposa, em dezembro de 2000, até ser absolvido totalmente da acusação (falsa, como ele provou, diga-se de passagem), em 2008.

A história eu já conhecia, pois o José Cleves deu uma palestra na faculdade, quando eu ainda era aluna. O que me chamou a atenção no livro dele foi outra coisa. Cleves era repórter policial, investigativo, fato ao qual ele atribui a perseguição da qual foi vítima por parte da polícia. Fazia matérias que denunciavam a violência em Minas, não a dos ladrões de galinha, mas a dos cachorros grandes. E, algumas páginas do livro dele há reprodução de páginas do Estado de Minas, jornal para o qual ele trabalhava, com algumas matérias dele.

O que me chamou a atenção foi que as matérias escritas por Cleves – e por outros colegas que ele cita, já não se vêem mais por aí. Denúncias das falhas do governo são realmente coisa do passado, estampadas nas páginas daquele livro. Saúde, educação, segurança… hoje em dia, tudo mascarado. No máximo um toque de leve num problema grave, talvez mais para chamar a atenção do Estado para uma coisa na qual ele deve investir e abafar.

Não falo nada dos profissionais jornalistas, porque sou jornalista e conheço vários profissionais que trabalham nos grandes jornais de Minas e sei bem que, depois que você sai da faculdade, não basta querer fazer o bem, você também tem que poder – e esse “poder” passa pela autorização do seu editor e pelo departamento comercial do veículo. Isso fora o fator “amor ao seu emprego”, que normalmente é usado como argumento com os mais topetudos.

É uma pena. Não é fácil calar todo aquele idealismo que a gente vai acalentando nos quatro anos de faculdade, não. E te afirmo que é impossível não fazer isso, porque não conheço quem entre no Jornalismo para ganhar dinheiro; quem entra é porque gosta mesmo, porque acha que pode contribuir para algo maior no dia-a-dia. Quem escolhe esse curso em busca do din-din não dura nem um semestre, porque no Jornalismo, retorno em dinheiro é coisa para poucos. Para a maioria, ainda é o retorno em satisfação de dever cumprido que conta.

O tempo vai amansando a gente, vai amornando o sangue quente do “tudo para levar a informação ao público”, mas não é capaz de apagar a vontade de fazer o certo, o que deveria ser feito. Para tentar amenizar isso, criamos blogs e perfis fakes nas redes sociais, ecrevemos anonimamente em portas e paredes, criamos contas falsas de e-mails. Em algum lugar a informação chega.

*P.S.: Eu penso na greve dos professores estaduais, classe que, como os jornalistas, atualmente trabalha mais pelo amor do que pelo dinheiro. Como eles ficam? Que veículo de comunicação vai se “atrever” a cumprir o papel de informar a sociedade e dar uma matéria realmente ouvindo os dois lados dessa greve que já dura quase 40 dias?
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