A mídia e as demandas LGBT – o que falta?

30 06 2009

No dia 14 de junho deste ano aconteceu a Parada do Orgulho Gay de São Paulo, maior do país, que reuniu cerca de três milhões de pessoas pelas ruas da capital. O tema de 2009 foi “Sem Homofobia, Mais Cidadania Pela Isonomia dos Direitos!” e foram recolhidas assinaturas pela aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 122, de 2006, que criminaliza a homofobia em âmbito nacional. Também foram comemorados os 40 anos do levante de Stonewall, nos Estados Unidos (1969).

As informações para esse primeiro parágrafo eu retirei de um texto do Terra, publicado na seção “Você Repórter”, na qual pessoas que não são jornalistas enviam seus textos e fotos, colaborando com as notícias do portal. Mas, onde quero chegar com isso, afinal? Quero chegar no fato de que, entra ano e sai ano, a grande mídia continua ignorando solenemente as reinvidicações da população LGBT, relegando-as aos dias da Parada do Orgulho Gay.

Depois de fazer uma rápida pesquisa via internet, achei dois tipos de resultados para a query “Parada do Orgulho Gay SP 2009”: notícias de veículos direcionados ao público LGBT, que falam dos aspectos sociais e políticos por trás da festa, e as notícias de veículos maiores e mais conhecidos, falando sobre as cores, a festa, a enorme quantidade de pessoas presentes, as drags e a agressão que levou à morte um homem de 35 anos.

É fato que um acontecimento como a morte do homem deve ser noticiado por todos – mas, porque não noticiar isso e já fazer uma retranca com os vários casos de homossexuais vítimas de violência e mortos Brasil afora? De acordo com pesquisa do Grupo Gay da Bahia, esses somaram 190 em 2008. Omitir essa ligação passa a impressão de que a violência contra homossexuais é um fato pontual, restrito às aglomerações. E não é.

Não podemos esquecer da violência cometida contra a cidadania da população LGBT – outra que conta com a conivência da grande mídia. Alguém aí se lembra de ter visto, em meio à profusão de cores da bandeira do arco-íris e das drags, alguma coisa a respeito das reinvidicações dessa população junto ao congresso? Alguém aí viu / leu / ouviu alguma entrevista séria com os organizadores da parada sobre a luta pela união civil, pela criminalização da homofobia ou pela adoção de crianças por casais do mesmo sexo? Pois é.

Mostrar essas questões à população é importante para que as pessoas possam se livrar de tantos preconceitos e estereótipos que ainda persistem, mas é uma luta árdua conseguir essa exposição em mídias que não sejam segmentadas. Exemplo: uma vez, conversando com um amigo meu que trabalha em um grande jornal de Minas, sugeri algumas pautas a respeito das atitudes homofóbicas dentro de uma grande instituição de ensino de BH. Ele ouviu, pediu informações e contatos, mas já adiantou que seria muito difícil fazer, porque o jornal “barra mesmo esses assuntos”.

Como jornalista eu não esperava nada muito diferente, mas, como cidadã, ainda tinha alguma esperança de que o dever de informar para o bem da sociedade prevalecesse sobre os preconceitos. No entanto, os grandes jornais e TVs ainda insistem em reduzir a luta pelo respeito aos direitos de cidadania de milhares de brasileiros a uma bandeirona estendida pela avenida Paulista e a drag queens coloridas e sorridentes.

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3 responses

7 07 2009
Alexandra Martins

Entendo esta sua dor. Sou militante autônoma do movimento LGBT e estudante de jornalismo.

Ano passado, o Estado de S. Paulo pautou uma pesquisa super interessante sobre homofobia no mercado de trabalho durante a Parada. Pra mim foi uma surpresa porque o Estado é um jornal bastante conservador. No entanto, neste ano o Estado seguiu tudo igual aos outros jornais grandes e apenas deu destaque as fantasias alegóricas. Nada de novo neste ano. Torço para o próximo ser diferente e original.

Percebo que a grande mídia não consegue sair da mesmice quando se trata de assuntos que envolvam a comunidade LGBT. No entanto, a mídia especializada neste público e a alternativa consegue ser mais atraente. Talvez porque esteja mais próxima do público-alvo ou da possibilidade de fazer uma matéria diferente.

7 07 2009
k

pensei em mil coisas qdo li isso aqui. inclusive que posso até escrever um texto sobre a parada gay de 2010. os que vi este ano foram iguais aos dos anos passados… os de 2010 serão iguais. e assim vai.

na época do meu mestrado, mexi muito com isso de representações. e um aspecto que a gente discutiu muito foi exatamente de como os papéis qeu fugiam de “100% heterossexual” simplesmente não existiam. só héteros usam perfume, usam sabonete, enfim, são representados nas coisas mais corriqueiras que a gente vê por aí. se as representações são moeda de troca de valores sociais e são até códigos pra que as coisas sejam digeridas na sociedade, o que não é representado não existe. mas, claro, se a gente estereotipar, a gente cria um tipo de representação controlado e que pode ser aceito. “ah, o cara é gay, mas é divertidíssimo”. cadê o direito de o cara ser gay e super sério e de cara fechada? os gays gatos do jean paul gaultier, as lésbicas sempre lindas como atrizes de chapinha… o foda é esse “sempre”. isso me incomoda.

me incomoda tbem o fato de que, pra que a esse pessoal seja garantida a existência, haja necessidade de se criarem grupos. o ideal (ideal…) seria que todo mundo defendesse o ser humano. a vida em geral tbem.

por isso que, sempre que me perguntam sobre minha sexualidade (“o que vc é?”), eu digo:”eu sou a k”. sonho com o dia em que o que se ama não vai ser motivo de ódio, violência e piadinha.

7 07 2009
A mídia e as demandas LGBT – a comunicação do ENUDS 7 « Janaina Rochido, jornalista

[…] Por mais que o Jornalismo me traga surpresas, não consigo desistir dele. Atualmente, mesmo com a falta de tempo e de internet durante o dia, tenho feito um trabalho paralelo na sub-comissão de Comunicação do ENUDS 7, a sétima edição do Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual, que acontecerá na UFMG entre os dias 3 e 7 de setembro deste ano. Esse trabalho tem me deixado muito orgulhosa, pois o vejo como uma iniciativa séria na comunicação em prol do movimento LGBT, ao invés das coberturas caricatas e rasas das mídias em geral. […]

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